quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Inferno

O fundo falso, o alçapão, a cova. São sempre mais perfeitos. A tristeza é saber que o inferno não mata. Que os anjos caídos, anjos da noite de face oculta são sempre mais belos, como as estrelas. Mas, não sendo espaço celeste, nem místico, nem mágico, o inferno é vivo. É retrato. Espelho. Lugar em que suspenso, no escuro, sozinho, tenta-se sobreviver. Escrever é o vislumbre sedutor da morte, que nunca vem. Pode ser certa, mas sempre demora tanto. Não há luzes, nem caminho. As coisas explodem e murcham, as cartas sempre retornam, os sons apenas rasgam a pele em dor, sem troppo. Assim, sozinho, feito sombra, no longe, tão perto das luzes, das estrelas, no frio, na calmaria do absoluto, diante das formas simétricas, resta o condenado. Sem voz, nem mesmo pra gritar.

curvas

[23h24 de 08/12/09]
[passando por Itajaí]

I
a buzina forte, três bancos a frente, assim, na curva do olho, no efeito desejo,vislumbre de tecido lateral. a marca morena do abdômen quando levantou o braço. apolo não seria assim, não teria este samba assim. coisa que decerto tu nem ouves. um abraço forte e um gole de café faria bem. estando assim, bem louco pra beijar, mas o escuro, às costas a paisagem obliterada por um caminhão. o escuro assombra. é pesadelo no limite geográfico do abandono.

II
teu corpo se faz delicioso. se faço este poema é para te manter aqui, imagem latejante. a intermitência da distancia separa este corpo do teu. outro corpo negado. tua tatuagem te dá o espírito único nos teus olhos verdes vermelhos de sono. diz assim, devagar, tocando de leve os lábios no ouvido, que está louco, perturbado, seja como for, querendo ocupar este lugar de arrepios vago. a poltrona reclina, o gesto declina. diante de mim, se inclina e insinua isto, ambos sabemos impossível de palavra. não há destino imediato. não há final possível. Apenas o querer latente deste rosto indivisavel na penumbra.

III
as meias abafam os passos, um arrepio persegue as unhas, seguindo a curva num salto estrelado. dois goles d’água afogam o beijo que se quer. não há nada mais forte à mão, nenhum único desejo de retornar, assim nestes passos de bailarino bêbado, fazendo mágica erguendo a própria cartografia na página. esta página onde todos se empurram devagar, como se tivesse frente e verso, mas tudo, no branco vazio de barco, o afã baroc disléxico e que perde a luva nestas esquinas rápidas.

IV
a rodovia rodopia diante dos olhos fechados. os corpos-corpos cadáveres continuam inertes. as rodas fecham as portas do coração entupindo veias e fechadura com angústia e vazio de ecos. eu insisto em não saber cantar ou sorrir. tudo algumas vezes dá na mesma. ouço cássia eller cantando em francês. tenho tantas opções. nem sequer consegui tocar no meu chocolate suíço. as lembranças de um destino possível doem. eu não posso mais querer de. não posso mais tremer as palavras nos poemas que eu devo. devo mais poemas que dinheiro. eu faço versos como quem paga dívidas de vida, abrindo pulsos, sem ser dramático, contando uma história chaveada do amanhã.

V
as luzes da cidade acesas me ativam uma música que não quero trazer à cena. há no meu quadro de alice, dentro deste ônibus, um menino mau. que corre e grita. esperneia sem saber sonhar. sentado quieto, mantem a respiração irrequieta. devagar. o pulso domado sabe tantas verdades. já perdi, quase, este menino três vezes na curva da minha mão, com os dedos que insistem em apagar a linha. ele tem medo do pileque, do vômito, das máquinas enlouquecidas. gosta das garotinhas como outras garotinhas.

VI
abre o mundo sempre devagar. como pedir ao garoto, alice, um beijo, adivinha, para outro garoto. a dúvida persegue, a minha moça, nas ruas de londres, nas cartas de uma virginia. não me leve ao mundo. há um gosto de castanhola no sonho. um gosto de amor latino e ladino como os cães latindo que eu apenas vejo e não ouço. as violas, magias se fazem. meu deus. meu cadillac é isto aqui. me dá um ramalhete de flores murchas, uma luva e um anel de brilhantes. não, não é o que eu quero. o calor faz mal e pede sorte nesta noite sem estrelas e sedes candentes. a cadência desta vida é um trocado chacoalhando de leve na bolsa, uma moeda rolando pelo corredor, debaixo dos bancos.

VII
uma outra cidade. um outro quilômetro. o corpo inteiro te queria sem saber divisar teu rosto. eu tenho mil remédios, como os desejos, clássicos e las(en)cerados, o amargo na boca não é tristeza. é uma aspirina mastigada. que rola no digestivo abaixo. fazendo a mente manter sua garantia com algum. o sol poderá vir. mas não quero dis-curtir astrologia. Cansei de desejos. eu queria apenas que um soluço preso na garganta não se libertasse, que não houvesse necessidade do poema. o poema faz vezes desta banalidade, de ser pra você que me faz sorrir, mas eu só faço chorar. faço vezes de moderno, o tempo é rombo, não curva, as abóbodas são diante dos meus olhos ápodas não sabem como tomar o trem depois disso aqui. o ônibuso me leva. a alma fica presa em algum lugar. um cão mijando na esquina. engulo, duro, um sorriso. o teu. eu sei. eu deveria te seguir, mas tu não quis. tu não desenhou meu mapa. la nuit de mon amour, diz elis. mas sem ultimas estrelas desacredito essa pele infante, sem cor, sem sabor ao espelho. eu vejo as sombras que se lançam e se laçam numa felicidade ignorante de si. eu tomo goles rasantes de água, rente ao asfalto quente. é isso. a cabeça diante da guilhotina do desejo impossível aceita o vazio de si, desenha a curva, euclidiana, do seu ultimo movimento. ronde dans La terre. ronde en l’air. A ronda que a roda não sabe. meu último passo de ballet. pointé. point.

Egmont

overture in F minor Op. 84

Rosas. Sequer gosto de rosas. Flor que despetala na primeira lágrima. É preciso tecer com os raios da manhã este bordado de pontos cruzados. Pontas de cruzadas de olhares detestados. O paladar salgado de quem acorda de um pesadelo ameaça sempre o dia. É preciso mais do que um teste feito texto que se acorda nos acordes que são acordos entre pausas. Espreguiça lentamente abrindo as mãos, tocando meu cabelo. Descobri o mote feito mulher. A poesia feita em prosa aberta para além do que começa com o era uma vez. E foi assim que pus num envelope virtual, e por isso virtuoso, um pedaço da minha pele marcada. Um pedaço deste couro que se faz cinto e sentido em mim. De mim. Por isso desenho devagar as arestas, como quem ensaia a dança, como que aprendendo a dar os laços no cetim, na seda, nas vírgulas que impelem os pontos. A sutura que não se abre. A voz que se faz corte. Não preciso mais correr. Meu tempo marcado está no esperar até junho. Talvez em fevereiro o impossível aconteça. Desisti de milagres. A minha catedral é feito estético da pura forma. A estesia deixo como dedo cegando o olho. Acho que a falta não é sentida bem como a fala não é ouvida. Eu sonhei um sonho tão mágico. Acordei sem as pérolas, sem asas, com um cheiro ocre no ar. Meus livros se devoram enquanto devoram a mim. O quadrado branco de um naco de carne é o que resta fora da marcha. Forjo um título como quem força a fechadura. Forço um não mais, um não ainda, para fazer epígrafe, lápide, moldura. Para dizer do salto XIV e da flor de lis tatuada em cada ombro. O coral de vovó foi roubado, não poderia dizer que está guardado. Não o consigo recuperar de maneira alguma. Nunca. Seria bom que voltasse para mim. Mas tanta coisa não volta. Tanta coisa é apenas lá distante estrela reluzente e insistente como o zumbido frenético de uma tuba, de uma tumba, do mover-se do cadáver. Porém, de-testado, o corpo desfalece, como flor, flor ferida aberta na raiz dos cabelos, emaranhando as tranças, as lembranças, as heranças, mas sobretudo flor que não se faz flor, mas flor que acontece flor, sem ter cor, perfume, som. Longe de ser rosa, apenas roda e aparece às vezes condicionando o vôo das borboletas.

domingo, 27 de dezembro de 2009

à procura

hoje comecei um romance, escrito como carta em aberto. como página para um leitor apenas. para alguém que também sabe que faz e que desfaz na escritura este eu desmanchado. como todos os outros restará apenas o vestígio. como presente. presente perplexo e contínuo em que não construo nada. em que desisto do jogo. em que eu não posso. tu ficas aí na tua janela fumando placidamente seu cachimbo. nem mesmo há tu. este nós feitos de descompasso e desencontro. eu queria poder responder a uma pergunta apenas, que tu não fazes. não podes fazer. não realiza o encontro. não podes. penso em abandonar o museu caso eu consiga fechar o diário. os jornais capturam as páginas em preto e branco. o dedo indicador dói. insignificância e ausência. eu queria poder escrever um pouco mais, mas não é possível. é preciso deixar a latência, o roxo da pele, a dor no fundo da retina descansar. quem sabe assim seja possível o fim.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

não acredita nesta esfinge
a placa diz vire à direita
o abismo feito serpente engole
o vazio verde do deserto
as formas do que esqueci
pode ser
assim, isso que preciso
manchando a moldura dos quadros
o último retrato não salva
não traz solução
não traz resolução
mas há muita coisa
a se esconder meu sorriso
o largo das mesas
compras, compras, compras
não compras
a mão que te estende
sem luvas
a luva
a certeza
o anel que rola escada abaixo
imagem que cai
como o outono
esquece
anda devagar
deixa a chuva molhar
o macio da tristeza
para ficar nisto
e nisto apenas

exílio [4]

erro a citação como está escrito.por amor à ti sou entregue à morte todo dia. reputado como ovelha ao matadouro. mas estou cá, bem certo, que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem o presente, nem mesmo o futuro diz de alguma coisa. quem é que me condena? tira o castiçal do lugar, acende o fogo. eu estou leiloando a estrela da manhã. irritadiço. perdendo os fios, as linhas, a razão. tudo para ocupar espaço. fazendo das palavras pegadas as quais me apego e insisto em ver um vulto perscrutador na janela. sombras que se movem. welcome to my junggle.usa os saltos, acena, arruma os cachos, garota. é preciso fazer sorrir. olha bem esta 3x4. fixa este rosto. é este corpo que quero nos obituários amanhã de manhã. quero tudo limpo, asséptico. sem rancores, muito profissional. sem vínculo e sem prazer. sem últimas palavras. bom, o tempo corre. vamos?
[22 de dezembro]

exílio [3]

me diz o que tu queres de mim, me diz o que esperar de mim. estou aqui, nu, passando frios. as estações não se alternam neste inferno escuro. o inferno é assim, roendo os ossos, em abismo. sozinho, no escuro, passos da loucura. todos fazemos uma escolha lenta. cueca branca ou preta? assim decido meu jogo de xadrez. me comporto até o adágio final. sei que este romance não terá um final feliz ou trágico. c'est toi? c'est moi? não há sequer um romance ligado no aleatório. minhas janelas não abrem, não tenho terraços. há apenas a banheira, assim, devagar se enchendo, devagar esvaziando. o corpo murchando no excesso. abandonando o próprio do abandono. queria um cigarro apenas. uma baforada mística para ler na fumaça aquilo que as cartas não dizem. não sei dizer se me enviou notícias. fugi do torreão do castelo do qual me fazia dragão. um contínuo suspiro se pendura e como pêndulo agita as dores. around the world, corres e voltas o rosto pra mim, assim, como quem sabe o que disse e roga as pragas. não consigo mais predizer o futuro. All I ask of you. não sei cantar, não me dê notas assim. eu apenas ouço. estas notas são falsas, não valem nada.sempre. não sei o porquê de falar com este reflexo estranho no fundo mágico da bacia de estanho. prata, bem pudera. será que minha vela já queimou até o fim? hoje ainda é o começo da terça-feira. algumas flores não são nem felizes nem tristes, apenas solitárias. não precisam de nada, nem mesmo d'água para serem flor, sem serem abertas ou belas ou perfumadas. não fazem botão. nem se despetalam devagar. nem se dobram às janelas. mas uma flor feita em gran finale. assim molto vivace, andantino con grazia, meno presto. maquiando-se de olhos fechados, na própria dissonância cantabile fazendo muxoxo e pouco caso. rasga a fotografia e o fino dos textos! oculta o beijo... esta história não requer uma princesa. há um certo sorriso feito allegro, mas non tanto, ma non troppo, ma non molto. largo, sangrando o sangue vienense no mais leve do dia. procura o toreador, aquele que não tem touro, mas nem sabe que se já perdeu, se já morreu. manda-lhe vir. vá pensiero. tudo isto se desenha num scherzo noturno, com as estrelas do anoitecer na montanha. eu espero soar a valsa para este vazio, para este brilho cigano. it's my way. abro todos os botões da camisa, estou nu, peito limpo, esperando o franco atirador.
[22 de dezembro]

exílio [2]

cometi um crime contra mim. um crime contra isso que acredito. os ruídos me atropelam e doem. doem na superfície de mim. meus ouvidos sangram as tintas da fúria. não agüento mais. não os posso agüentar. no entanto, renunciei aos braços possíveis que me eram oferecidos. temo. simplesmente o medo sobrevém como as patas dos cavalos, como isso que não suporta menos de mim que a sombra. simplesmente meu buraco está armado. queria falar contigo, mas nas escolhas erradas que fiz, na maneira com que derrubei as taças da mesa e esqueci de jogar a moeda no poço dos desejos, ludibriando o gênio. me fiz. agora resto aqui, com estas flores que me matam, me esvaindo no fundo dos quartos para o fino dos textos, limpando o eu destes mosaicos. não queria ter vindo, mas também não poderia ter ficado. fico assim, quieto, portas cerradas, suando, escaldando os quebra-cabeças abandonados de peças faltantes. não suporto essas vozes. o crime que cometo é me obrigar a viver assim, num eterno como se, mas que não. ao menos posso fazer minha música engolir esse seu ruído. engolir teu corpo insignificante. o espectro que queria, mandei notícias, mas não o encontrarei, por culpa minha. bem minha. eis o que escolhi talvez, não quero mais nada pra agora. não preciso saber as horas, não gosto de medir o tempo, não sei, simplesmente não consigo, manter a lógica das superposições. não peço graça. peço, tu o sabes. me aninha apenas num sonho confortável e possível, no fundo dos teus olhos. divide comigo o quente pecado dos (teus) lençóis, mas não. tu foges, imagino. os raios e tempestades que pairam como meus fantasmas. e eu que nem suporto as rosas vermelhas. por favor, me beija, me faz parar de pensar!
[21 de dezembro]

exílio [1]

à maneira com que brincas e danças com a objetiva nas mãos, eu finjo dançar diante dos teus olhos feito palavra fugidia. não queria te perder, mas não sei (também) se queria te encontrar. devo minha alma aos demônios. mais que a alma, o corpo. com parcimônia embebedo as palavras e troco as vírgulas por pontos finais. não sei se devo acreditar neste pensamento que dizes ter. custa me crer que expor o filme assim, tão rápido, tenha uma boa impressão. ora, sabemos, ora queremos. este reflexo involuntário feito luz. este assovio lento. este sorriso perverso do depois, do nus na cama à espera do sono. que sempre chegará primeiro ao outro. sem direitas e sem diretas: como escrever tua fotografia, sendo que que estavas atrás a máquina estas tu e eu apenas procurava um objetivo neste ponto que te supunhas sorrindo para o meu sorriso tímido, penitente, resistente as tuas lentes e teus filtros.a música de fundo era o puro silêncio. impressiona a latência de alguma coisa que se derrama sem saber o que é ou como cai. como cometas, estrelas cadentes, a candência de teus olhos, a cadência dos meus passos sem caminho diante do incerto do futuro.moto perpétuo para violino. se me arrumo em exílio é para me testar diante do vazio louco e ensurdecedor do nada. humanamente, tão humano que se esquece de ser humano diante da lua cheia e do aberto do céu estrelado, desenhando novas constelações. amanhã eu poderei te encontrar, ou não. cavalgando esses platôs do sem limite onde apenas o vento acompanha, aquilo que aqui já foi campanha. guerra. a campanhia não soará, aqui não existem príncipes, mas até existem os cavalos brancos. a companhia para o chá não virá. o fantasma da minha ópera foi expurgado de sua maldição, capturado n'algum campanário, sem setas, sem forças, ele não queria lutar. não tenho fome, quero café apenas. o gosto de terra do ar azeda os lábios, por enquanto (...fale devagar meu nome...) chás e flores se abrem como travessura diante dos teus olhos. a mente aberta num giro panorâmico abre o abraço. não podes ter a luz para a imagem que eu sou do que sou, mas aqui apenas os sinos góticos soando como almas implorando mais dor. mais dor. rompendo os nervos eletrônicos de uma nova fantasia. quero apenas o vislumbre de uma supernova no céu e o corredor amplo liberado para que meus gritos desçam a escadaria e ericem teus pêlos com o segredo do íntimo do teu corpo.
[20 de dezembro]

sábado, 19 de dezembro de 2009

[6] Chambre des Elysées

geme alto e em francês. o corpo se abandona. o odor do champagne, a pele nua. os olhos estrangeiros. um encontro rápido como deslize. sem crimes. na volta o entorno. sem gelo, please. os acentos se confundem com o preço. o corpo se faz barco e abriga entre as coxas aquele outro, de barbas feitas, se dando ao preço da fuga como preço da noite. o meio da noite é o que se paga, não o não-centro de si. beijo forte, tirando sangue das gengivas. abre a boca, toma. um soco para perder cinco dentes. assim, como quem pede para apanhar. 5% a mais na cota. as paredes não deixam o som vazar. você sabe ou consegue encontrar um coração? no mínimo batimento? pague um pouco a mais. me traz um copo d'água, a tinta quase que acaba. ali, no quarto, entre as cortinas, não há mais o retrato, apenas o espelho de moldura barata refletindo as gotas de sangue sobre o lençol de seda. branco. lívido o corpo dorme.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

D’isto que me escreves

um pouco de fôlego para aplacar o aR

Eu sei de teu rosto moreno na ausência, das coisas que me dizia, mas me sei louco por desejar algo que não há possibilidade. Isso não é nem mesmo possível depois. Hoje eu sinto uma dorzinha tão verdadeira. Estou cansado das possibilidades sonhadas, sequer sei sonhar direito. Tentei escrever um roteiro, mas as tristezas se acumulam nos frisos e entre as páginas dos livros. Tentei fazer alguma música ou uma gracinha, mas nem mesmo as rosas são capazes de durar tanto tempo. Eu soube apenas os bilhetes esparsos que me enviavas, prometias tanto. Tanto que é disto que eu escrevo, lentamente como as torneiras se abrem nas madrugadas. Esta dor dói nos canos metálicos e escoa para longe. Não poderia mais depois. Um jogo de alfinetes dobra os meus sinos, que não são grande coisa, mas ninguém saberia dizer isto que, então, antevejo deste lugar escuro. Ver de um último andar pode ser como o miado de gatos numa noite sem lua. As feridas não contam como uma vida. Das minhas sete, prefiro não contar as quedas. Só sei cair no texto. As minhas cartas nunca voltam. Eu não sei o que recebo. Eu tenho uns fios de cabelo cortados amarrados com uma fitinha vermelha. A língua presa se sabe enganada. Mas não, não posso mais nada. Eu apenas sei do teu rosto moreno e das coisas que não retornam. O igual dos dias, não voltarei mais ao impossível de teus braços. É preciso esquecer. Amarro meus cadarços para ir te esperar na saída da escola. Usando meus óculos sérios, de rapaz mau. Os livros que sabes chatos pensam nas minhas costas, mas eu peço a ti, sob o dorso do teu corpo, um beijo e apenas. Não é preciso que os poetas saibam amar, mas apenas que amem, sem preço. É preciso dizer que depois disto todo o impossível lirismo será afogado numa voz rouca e cachaça. Eu não peço mais nada. Eu sei das tuas verdades. queimaremos os violões. Mas eu preciso sacrificar meus olhos, uma vez que basta eles te vislumbrarem, eu nem preciso abrir os olhos para te ver. Eu preciso escutar. Os passos na escada. Eu te disse tantas coisas. Tu me disseste as piores. Meus olhos cegos não tem luz, mas eu desenho bem delineado meus lábios para este último beijo. Não digas mais nada. Eu te quero também, mas apenas beije. E esqueça.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Réquiem desesperado

Suspenda a música, grita a voz sem corpo. Recua desesperado ante a imagem movente no espelho do sonho, o terror feito flores e perfume. Assim, meio abraçado, meio corpo tomado emprestado, meio-a-meio entre o consigo e o contigo, o beijo. O corpo se desfaz da nudez disfarçada e se dá, no sonho, em meio as cortinas de (não importa o fundo da cena, mas isto que grita). Um brilhante saltita dentro do cálice de champanhe. O cheiro é insuportável, mas tudo se suporta. O Atlântico é navegável até mesmo diante da tormenta e do desespero. Mas não se quer sair daqui, quer-se apenas fechar a porta, calar o piano. Tocar o secreto do corpo fingindo, simplesmente fingindo, que ninguém sabe onde fica e o que se deseja. Desistir do grande pensamento. Desistir da humanidade ao se fazer atravessar em xícaras de chá, maquiagem e pílulas multicolores para o amanhã. Um amanhã que é imprescindível que tarde, como é preciso lembrar e temer os roubos. O cansaço devora silenciosamente no aperto do peito, o fígado aberto, bebendo em sangue os temores deste amor que não veio e não se fez e se perde. Nada se faz. Nem bom, nem mal. O piano batido com pressa e raiva, a mão analfabeta que escreve sem sentir, mas sente mal ao sentar-se diante de um grito pintado em cores violentas na tela. O sentir é mais do que a pele. A pele é mais do que o limite do corpo. Há certo querer, uma voz feita mordida, no arroubo silencioso do não-beijo. Aqueles que esperam o final da música sabem que a dor maior já si frustrou lá no intimo do rés dos pêlos. O soco se paralisa no ar, os solavancos suspendem os arrepios. O corpo se arremata contra o corpo sem o desejo violento, sem a posse, apenas, ultimo reflexo de morte, a sorte posta no sangue e na inconsciência. Tudo não passa da inconsistência sonâmbula da vida. Essas coisas, todas, só daqui, pois o aí, não há. Nesta orquestra de bancos vazios e buracos orbitais, se oferece sanguinolento e fétido um coração que se de-compõe do ritmo, quase dragão, unicórnio, borboleta, bombeando o liquido azougue, na treva da voz, fazendo palpitar a insígnia da melancolia. Para as cortinas, o ultimo lamento de uma certeza: uma unha quebrada, no vão das teclas, não sangra.
Eu queria poder escrever o meu grande romance, mas não. Já levei minha senhora ao altar, acendi uma vela e cantei o canto das dores. Uma dor solitária não dói, mas borra a imagem. As energias que correm, meio lentas, meio que cortando os pulsos com faquinha de pão. Mas não, ambos sabemos que nada acontece, mas que estou cansado disso. Dessa franca e fraca novelinha policial. Não há, decerto, o bandido, o último jogo. Eu sequer posso jogar. É dolorido como me ignoras dado querer meu corpo. Não se pode querer duas coisas. Apenas o apertar do laço nos pés e no pescoço poderia dizer a ti do meu não começo. Supostamente há duas concordâncias erradas e eu sei, como sei dizer, que não. Não posso. Há uma dor em agonia. Um esquecimento bem branco, quase místico, de nada poder. Eu queria, e apenas isso, que as luzes das velas no escuro se transformassem em uma pequena certeza, no jogo aberto na mesa, nas cartas dispersas ao vento, nas peças que o vento tira da cena no meu pequeno xadrez. Eu não canso das minhas personagens: a aranha e a lagartixa se portam como deviam ao se posicionar diante do espelho da fome. Apenas o golpe como último suspiro. Não espero mais nem mesmo um abraço.

Cartão

De Rafz

Que a espada de Oyá te ajude a cortar todo o mal e as adversidades que encontrares no meio de teu caminho
Que o vento de Oyá te ajude a trazeres para perto de ti a realização de todos os seus sonhos, desejos e objetivos
E que a sensualidade de Oyá te ajude a encontrar a felicidade do coração e da carne
Epahei!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

cântico sem voz

olha as flores, é Maria das Dores
quem canta no silêncio deserto
samba no tormento
abrindo o mundo em cores
girando, as escadas, o santo,
não há quem não se encante
o silêncio te escande no reflexo
dos olhos pisca-piscantes do antro
na cama aberta do amante

Itinerário

Para os meus bebês (Lu, Rê e Lee);
Rafz, Bruno, Dan, Rick;
& outros vultos.

A voz se prende ao concreto mais material do além do corpo, bem indiscriminadamente na curva latente, quase máscula, dos cílios longos de rímel. No fundo do palco eu te ouviria dizer algo, só pra mim. Tramando as tranças de mil fios de ódio. Não há nenhum santo para cada dia da semana. Apenas ela, uma santa bárbara, armada de dentes e unhas. Pensei que encontraria a possibilidade transtornada de ser, mas houve, enfim, como chegou em mim, ao fim do roubo. Havia deliciosamente os pratos postos e as postas de salmão nacarado cercado de flores de laranjeira. Como um balanço velho a dor doía bem, indo-e-vindo, (de)terminando os desejos, as alianças, fazendo promessas. Caminhando com as malas, os pecados, os silêncios e os vazios que pesam em ares de pura arrogância deliberada. É isso que tu queres? Não me pedes chorando o meu caminho, meu mapa é uma ligação em suspenso. O aparelho roubado não faz as pontes e os aprontes de meus passos lerdos, com dois dedos machucados e perguntando sobre como perder a poesia. Ou ainda, como ganhar da poesia. Talvez ainda, esquecendo a poesia. Uma escrita triangulada entre três santos que recitam o alfabeto impossível de um livro apócrifo deixado cem anos à frente, para além do futuro possível. A morte como mote de uma herança determinada. O outro, o bem amado, grita de alguns quilômetros. Eu só pediria desculpas na noite do adeus. A voz que eu deveria ouvir eu não ouvi. O decote rasgado em branco e preto. Os botões abertos em preto e branco. A sandália relembra o mendigo de uma Jerusalém latina, na direção do pôr-do-sol, meio andaluz, entre os prédios, na chuva. Nunca pensei que sentiria saudades de casa. Não da casa, mas minha coisa feita casa. Casa das minhas coisas. Sem nome ou privilégio. Bem feiticeira e mesquinha: a malha abre a linha, o ferro a polis. Uma escola de costura, a clínica central, as tantas árvores e tantas mais, as doses cavalares de café, por acaso, compra, vende, troca. A estação me devolve Rimbaud, a cidade me faz Baudelaire, mas de mãos nuas e cortadas, ofereço nada, nem mesmo flores, nem perfumes, mas essa dor, essa gana que lateja naquelas estátuas de mármore fino, plástico encarnado e pedra-sabão. Os vultos que me cercam e prendem e pedem. De novo, só peço desculpas. As cordas me enforcam e são puxadas por tantas mãos. Eu moro na filosofia descontinua do meu (não-)desejo. Castrato, roubo as páginas raspadas dos livros, peneirando os sonhos, os teus com os meus. E pelo resto, as desculpas retém revendo e manchando a prataria e quebrando o espelho. Por tudo suspenso no aberto da mão num aperto de mãos, marcando os rostos na memória, que se esquece de lembrar. Abre a rua, as subidas e descidas, um gargalo: não se preocupando nos casos de ter, mas fazendo ver a lua, diante dos olhos, no retorno ao lugar do castigo, ao som de três apitos.

Cenáculo

Sobre o que desejas, eu posso escrever. Ainda assim, não se diz e não se pode. As coisas que acontecem e que eu insisto no longe de mim. Meio de lado, meio assim, deitado. Meio caveira, meio músculo e meio carne. Como se o corpo devolvesse aquilo que eu não posso te dar aqui e agora. Eu sei que não quero você, sequer também poderia. Eu sei que já repeti isso em algum lugar, mas isso não é importante. O tempo não importa para além do agora. Isso que eu desenho agora neste espaço improvável. O espaço aberto como lacuna na pele. Aqui onde os pêlos se fazem através para desenhar o que não se queria. O meu silêncio não vale o teu silêncio. Os meus machucados se fazem marcas na chuva que ardem. Esta viagem inútil, mas necessária. O que eu abri aqui me ensina o caminho pelas minhas catedrais: toda cúpula de anjos tem do lado de fora as gárgulas sombrias do medo. E se como eu quisesse te dizer de um algo a mais. Um gole forte de café pra sustentar o corpo, surtir o medo, surgir como corpo forte diante do aberto em pó, larvas e concreto disso que eu não quero pra mim. A minha cartografia de horizontes largos lavra seu espaço sem se derramar. Odeio perder a mágica da profunda grandeza das gargantas que abertas eu armo no meu círculo: espetáculo vendido, bem romano, bem pão, salgado como moeda de escravos. Eu queria incluir uma terceira pessoa na cena: mas ela não se inscreve. O eu paira soberano sobre o império ruído dos signos. Apronte as flores do medo, os cristais de desejo. Isso tudo como se faz. As linhas que eu tomo sem destino deste metrô de linhas turvas que me oprime e me dá medo, mas que eu venço, mas também não queria. Assim como ser abandonado por dois apêndices que arrancam as páginas do meu itinerário. Há pessoas que se merecem. Há pessoas que apenas merecem. Eu, sobretudo, pereço no texto epistolar (bem poroso, castelo de areia com três versos sem chave). Ainda quero o meu postal pra enviar sem endereço para o porvir como abraço ao desconhecido.

domingo, 13 de dezembro de 2009

[6] o copo

ressaca de não ter ressaca. o papel traz o saldo da noite. ele não deveria estar assim. é tão estranho quanto acordar num quarto estranho. o banho chama, as águas, como sirenes em alerta; o gosto de pele salgada. arranha, tira o mal das outras mãos. o coração escondido repartido entre dois livros. nada faz sentido. nem mesmo este muquifo cheio até as bordas e sem gelo. é preciso ver o quanto os ossos se esfacelaram. o destino fico sozinho, como as certezas. a lógica não dá mais conta do limite da dor. é preciso para além do desenho, o poema. a possibilidade de abrir o registro e deixar a casa se inundar. é essa a força que importa, a dor que lacera a carne sem arrancar nenhum pedaço. a dor feita sensação cerebral e fria, sem amor. requisito daquilo que a palavra não escreve. que a todo momento no movimento dele, ele persegue enquanto eu o persigo. núbio e dúbio. ambos. é o piano quebrando com os rostos vazios diante da janela, do vidro, do fundo do copo, ali onde o copo despenca.

sábado, 12 de dezembro de 2009

[5] Adaga

ele abre, soturno, o corpo, bem devagar. tem nas mãos duas penas para cumprir a cena. a respiração dói no interior dos ouvidos. um pequeno mistério, de ódio egípcio, o faz salivar. dia de desarte. de resto, apenas resta, ali, comendo devagar as frutas, como quem devora um prato visceral. o all-star machuca o dedo mínimo do pé esquerdo. como todas as dores, é pequena, o corte talvez não seja. há tantos planos que não dão certo. uma adaga mestiça risca um nome, como cartografia, no ar. marujo, o mar é apenas o azul aberto para as outras cores. o mar nunca está sozinho, será sempre, no mínimo, azul e verde. há um ódio premente que aperta a fraqueza. o que seria afinal a escolha errada. eu tenho um número de páginas, mas nem sei o problema. a mão segue. é bom colocar um agasalho e ir para as aturas dos infernos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

[4] porta-jóias

admiro a pedra, olho através dela o vulto do rapaz. ali, entre as cordas, o arco e o violino, eles tem os olhos puros num desejo. tem as asas bem grandes, como minhas garras. um passo, dois, cuidado, o azul de cabalto estraga o céu. o óleo de linhaça não afrouxa as correias. eu te daria um presente doce. eu tive algumas chances, talvez. mas não. escrever é demais e enjoa, e afasta e não diz o que eu quero te dizer. talvez eu nem queira. o francês que não há, ressona. eu tenho um cadáver para dissecar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

[3] a pele

bebe devagar, o frasco de perfume ainda está cheio. eu não sei, repito novamente, o que há debaixo dessa pele que me arranha devagar. não posso ilustrar. o carvão acabou com o fogo que o consumiu. corrige devagar este gosto suspenso no ar. eu preciso. esticar o corpo, a pele do rosto, como um tamborim velho, tem apenas marcas. eu abrirei devagar meu livro em tintas sem datas. cortando a cabeça, sem abrir as penas. enquanto isso abra a tranca, os traumas, as cortinas.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

[2] Liebsträum

3 tons de vermelho, por favor. e um amarelo agudo. não quero tecer um rascunho de meu delírio. tome a chávena de sobre o piano. eu te queria, sobretudo, me queria nos teus braços, garota. não te imporia a nota mais aguda e ríspida como a ponta deste pincel. meu querido, Liszt, como eu te quis. e sem igual. assim, meio viciado em poréns e entãos, como as mãos trêmulas queriam tocar teu rosto para além da imagem. talvez eu pudesse, entre tantas portas, ondas, com todos os erres, sem interior influxo, pulmão arrombando o peito, além deste retrato mal feito, te oferecer uma escultura com o correr dos dedos no piano. você apenas não deveria ter me oferecido a sombra, eu no deserto, sem água, cedi: as miragens doem mais quando deixam de ser ilusões. talvez por isso eu liquefaça teu nome neste l sem rotas. sei que não lerás, sei que não entenderás esta nota, mesmo que fosse um rodapé. eu só creio em algo, não neste local, esta árida não se quer area de tons não vivos, quem sabe a tragédia ceda ao drama. pois bem, esqueço teu endereço e perco o sono. a cama resta vazia, mas o espírito inquieto.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dois corações em tempo de tragédia

Prelúdio [1]

a Andréa

o salão está vazio, nem os quadros o habitam. na vitrola um dueto, talvez, ainda queira ensaiar uma valsa de Stolz. eu não posso fazer assim se abrir a última rosa do verão, eu gostaria, mas tenho o coração cansado como os pés descompassados. eu sequer posso te tirar para dançar. o tempo da dança já passou. está também passando o tempo da música. cabe-nos observar o salão vazio. meio-dia. as cadeiras ao inverso parecem estacas num amplo cemitério. eu ainda quero meu cavalete. não tenho mais voz para cantar, tu bem o sabes que reneguei esta voz rouca aos testamentos mais velhos, dissidentes e dissonantes. eu talvez ainda saiba pintar. segura este copo d'água. pintar diante de teus olhos esta última paisagem, última biografia, talvez retrato, não, sente-se, apenas olhe como os traços dançam no silêncio. esta é a maneira de te deitar, com tintas, meu abraço.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

colando um abraço

ora, sol? o sol queima na pele, como queima os contatos. a pele friccionada contra a pele. tu ainda acreditas que estes brilhantes são verdadeiros? não te enganes, menina freudiana, fazendo vezes de deusa e mortal, tuas asas não são para voar. assim, joga a echarpe, descobre as tuas pérolas. não esquece a sombrinha: mesmo num dia de sol pode chover. eu te digo, tu não me ouves, não me escutas. eu te aprisiono no meu quadro. o cinema é um lugar vazio. tua cadeira está lá, na amplitude, como num cemitério. eu não poderia te guiar na escuridão. não acredito em fantasmas. não posso deixar este lado mefistofélico sem tentar comprar tua alma. eu sei, o preço que valemos. ao mesmo tempo, sabemos o que não queremos. como sair da vitrine? como garantir o sorriso ao final do abraço? como saber que entre os braços, num mesmo abraço, não restará o silêncio apertado num frio mentiroso, num contato forçado, tenso de 110 e 220 w. o choque. não. recuso este espetáculo, prefiro minha cadeira de balanço, a loucura frenética das minhas páginas, o abraço branco do livro que é labirinto onde me perco. tu és aqui meu fantasma. não posso não dizer que sei o que queria te dizer, mas estabeleco a resposta como um abraço. é minha única possibilidade. responder aqui é abraçar o vazio, que se faz quente, assim como os saltos partilhados. não afrouxaremos nossos laços, assim, as marcas de batom na taça de champagne. isso somos nós. marcas deixadas como uma mordida na pele: a lembrança que ainda insiste e que nem mesmo o espelho entende. desliga as flautas e os sopros, apaga a vela, fica no escuro. de tua treva distante, nem mesmo eu posso te salvar. mas ainda assim, posso dizer qual salto podes usar e rasante irromper no horizonte do dia.
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resposta a: http://esquecodemim.blogspot.com/2009/12/um-abraco-partido.html

ballerino

«quanto tempo dura o dia?»

os saltos na mão, pronta para qualquer assalto, os óculos embaçados, os pés nus no asfalto, ela caminha. queria ter pr'onde ir. uma direção. quereria talvez, saber-se no quente, para além dos lençóis. o suor se mistura com as lágrimas. sal com sal. o amargo de dentro com o azedo de fora. um gosto ocre na boca. os faróis passam através. as mãos doem mais do que os rasgos que o asfalto faz ao arranhar a sola dos pés. ela sempre soube como sofrem os pés. uma cicatriz a mais não significa uma dor a mais, muito menos ainda que a dor passou. uma cicatriz a mais é como um vazio a mais: um lugar de espera. o céu negro, sem nuvens. eu tenho me afastadado tanto da imagem, aqui resiste um sujeito que esconde uma lira estranha nos porões da casa. o que se pode esperar? nenhum táxi. nenhum verso. o demônio de dentro sobrevive às alturas, o coração acelerado resiste em queda livre. o bem, o mal - é tudo igual. depressa, na névoa, no ar sujo sumamos! não há motivos para insistir. o salto tem o bico gasto. ela se rebaixa aos cuidados com o que se vê diante dos canhões de carga dupla. os olhos ensaguentados em dor são míopes apenas. se tu quiseres desistir de mim, insiste ela, ainda tens tempo. eu gosto de ti como quem gosta e apenas. eu sobreviveria assim. certas dores apenas doem, mas não matam. há um dia horrível. os marcos da vida. se tudo der certo, apenas me espera, me acena, me dá o meu abraço. sobretudo, guarda os meus beijos. eu quero você tanto bem. eu não sei de deveria acreditar nesta latência de cores, eu não acredito. mas não quero desistir de escrever este romance como possibilidade última de ser postal. e nem podes me enviar o postal que eu desejo. há o baú singelo das lembranças no poluído dos ruídos. e eu nem saberia descrever o teu perfume. quem vem chegando? há um tambor rufando, pessoas felizes. mas do lado de cá a treva insiste. latente, debaixo do sol quente, das ondas do mar, o bucólico irrita, o lírico enjoa, o sem-nada oprime. há uma certa angústia premente. tudo parece tão simples, como o caco de vidro que acabara de lhe penetrar a sola do pé.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

gemido

assim, um copo a mais, um palavra de menos. engole no seco esta lágrima perdida no infímo do silêncio. assim, não se pode dizer assim. como se faz, como se gira, como se entorna a bebida. esquece as páginas. elas nem sequer foram tão importantes.
ele, usando os sapatos da mãe, passa o pó diante do espelho, rímel, lápis, escreve na pele aquilo que não poderia ser dito de outra maneira, ainda, talvez, assim se sabe como se pode. o personagem salta no palco. tem fome, outras fomes ainda mais.
o labirinto é perto. o espelho é confortável, algumas vezes. silência com um gole de uísque ainda. o pé sangra. sangra como se fosse um rasgo aberto no externo. o peito palpita. anseia por um não mais.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Alma

Um pouco mais tarde, então quando eu estava na escola e possuía algumas noções de cosmografia, tive da alma a representação seguinte, da qual sabia que não era senão um puro fantasma, mas que não estava localizado indissoluvelmente à idéia que eu fazia desta entidade: de uma parte e de outra atravessado por uma longa agulha vertical, um desses feitos leves e secos chamados “colifichets [1]” que se inserem entre as barras das gaiolas para servir de comida aos pequenos pássaros.
É mais provável que esta imagem me tenha sido dada pela seguinte experiência, descrita por um livro elementar de geografia e que transcrevi aqui no que ela chamou [a atenção], sem me inquietar de verificar se a reproduzi exatamente ou não; uma massa de óleo estava em suspensão em algum liquido, atravessa por meio de uma agulha [2] que se anima então de um movimento rápido de rotação: entrando através da agulha a massa de óleo inicia um pouco de pressão esférica, súbita a ação da força centrifuga e se aplaca ligeiramente, fenômeno gracioso aquele que nós podemos conceber este que se produz na terra, que não é rigorosamente esférico, mas deformado de uma maneira análoga àquela em que se deforma a massa de óleo, por efeito de sua rotação autora dos eixos dos pólos; se a rotação da agulha vem a ser muito rápida, a deformação se acentua, pois parte da massa se separa e forma um anel, assim como ocorre com Saturno.
Esta identificação da alma com um colifichet – ou ainda com um crepe de Chandeleur, atravessa de uma mesma maneira em suas partes – reposto, acredito bem, acerca da minha crença na existência substancial de minha alma, eu que não poderiam me imaginar como um corpo sólido feito de uma matéria pouco consistente enquanto isso, e de uma forma rígida por vezes irregular – sólido aninhado talvez em uma ondulação qualquer de meu crânio mais essencialmente aéreo ou sem gravidade, em relação com os pássaros (colifichet) ou os morcegos, e se pode fazer saltar num quarto escuro [3], isso se reproduz – perto do negro do forno, da fumaça grossa e das sombras - como sorte de vôo mal feito comparável ao bater de asas estrábico desses mamíferos noturnos.
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NOTAS

[1] Colifichets são pequenos biscoitos leves que se dão como alimentos aos pássaros, não encontrei equivalente em português.

[2] em alguns pontos a descrição, embora distante e díspar, parece apontar para o fenômeno de funcionamento de uma bússola.

[3] Optei pelo sentido dado por Renée Descartes, quando alude a ele Delacroix, uma vez que o uso dado a poêle por Michel Leiris dá abertura a um jogo semântico de nuances variáveis: sendo ao seu turno a frigideira, o crepe mortuário, etc.

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Tradução de um fragmento de L’âge d’homme, de Michel Leiris.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

PES-A-DELO (ou: pas au-delà)

(o relógio do coelho pensante parou).

a cabeça tem um abismo. prende estes cachos ruivos teimosos. uma condenação sanguínea atravessa em sonhos os olhos abertos. a nuca ressente uma mordida vazia que nunca houve. os cabelos, no barulho terrorista do ventilador, parecem pétalas úmidas se desfolhando ao sopro sedutor. isso se chama insônia. isso se chama rasgo de cafeína numa noite. abaixo do arco-íris a minha própria íris me engole. o buraco. ela se sente doente, o corpo morto mal (se) movimenta (n)os dedos. nua na cama, a pele ainda molhada pelo banho gelado, faz tremeluzir a silhueta à luz das velas dispostas em um canto qualquer. o canto do demônio devorador dos papéis raros. o vento gelado no seio alvos endurece os mamilos, o róseo das coxas se perde num gemido. há uma cicatriz no joelho esquerdo. assim como há também um tapa de um cafajeste suspenso na cara (isso faz algum tempo?). olho o agora. ela insiste dentro do vidro, o caixão de cristal rumoreja. a bela não dorme, por mais que queira. as cores não são mais propriedades, mas efeitos lisérgicos no astigmatismo que se prende nas retinas. ela se afoga. nada comeu. nada bebeu. põe o dedo na garganta, precisa vomitar. como tantas outras coisas, não consegue. todas suas velhas cicatrizes marcadas no globo velho de sua sala-de-estar doem angustiosamente. uma num tubo de ensaios. outra entre jornais. outra num labirinto sem alçapão. e tantos outros roteiros errados. ela quer se vestir com as páginas, insiste, empilha os livros, dispõe arquitetonicamente dos volumes. rejeita os dicionários. ela que sabe ter toda a compostura e feita musa, mais que uma estrela, ela que ainda precisa durar. as roupas desmoronam ao chão. restam os óculos como máscara que ela tateia à procura. entre sedas negras e fios dourados, ela beija sua própria mão. é sua dama, seu próprio cavalheiro. sem desejo. ela não é mais esta carne. está além do último círculo concêntrico racional. a matemática não contempla mais sua lógica. nem se poderia chamar de lógica este sentir. ela quer ainda assim tocar o ar. procura no escuro das chamas a sapatilha, mas apenas o pé dói. mas o coração perdido, bem lírico, dói mais. só restam os livros e a fúria tenebrosa batendo em um piano com as unhas longas. e batendo e batendo como sinos da madrugada. será um resto de relógio preso na garganta? ela tenta pedir ajuda, mas o aquário é mudo. bate uma nota a mais, segura o pedal sinfônico, mantém em sustenido este sentido na direção do teu grito de desejo. há calores se abrindo como péroladas serpentes no umbigo. é indefinível o vulto invisível ao espelho. eu quero ter teu beijo. um universo cindido em dois. ou mais, ou apenas, ou ainda mais. daqui eu seguro teu sapatinho de cristal e cuidas do meu pequeno de rubi. encontro no meio de um parágrafo. a datilógrafa suspende um soluço em busca da solução. uma aspirina: solução química. mas nem você com suas leis aparece. ou mesmo você que carrega livros entre os arranha-céus. ou tu que querias apenas estas mãos. o mundo se abre no fundo negro e refratário de um par de olhos. linda e selvagem, com toda a classe tornada salto-alto, ela se levanta, ereta, sustenta com equilíbrio a própria dignidade dos séculos. está sem os saltos, se dá conta. recompõe o cabelo. uma fivelinha com um pequenino diamante (presente de um amante, pudera....) prende as labaredas. os cavalos relincham à porta do quarto. o mar, aos poucos, inunda a noite. ela perfuma delicadamente o pescoço e os pulsos. morde os lábios para devolver um pouco de cor a este quadro velho. ao alcance de sua mão (o arsênico?) envia colibris com mensagens para além da fechadura. nua, se duplica em duas. senta-se diante de si, vulto recortado na escuridão de pedra, para jogar um xadrez musical. sente-se, ainda, doente. eu preciso insistir daqui mais uma vez e soprando deixo tuas velas no escuro. ela deseja um corpo distante, talvez deseje seu corpo. o signo do esquecimento dói obliterado no cravo seco dentro do 3º romance, 7ª prateleira, balzac. respira, ainda vive. está acordada. é preciso implorar, por favor, Alice, dorme logo, meu bem.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

elevador

[1 andar] olá? câmbio? está lá o que vejo aqui no espelho fosco?
[2] ainda? como? talvez? pudera?
[3] fecha o zíper, tá aberto.
[4] corre... pega isso... olha a bolsa
[5] que pessoa feia!
[6] que pessoa linda!
[7].................................
[8] dentista!
[9] abre a boca aí... ain.. não responde. beija logo.
[10] deixa de ser mediocre. (pratos voando pelo corredor).
[11] silêncio sepulcral.
[12] terraço
[13] azar. o cabo de aço solta. o abismo.
[térreo] .

Por um contra-conto de fadas

meio shakespeare, meio kerouac... o conto de fadas é assim, quebra cabeças, pula janelas, roubando diários, cartas e incertezas. o canto suspenso de um castrato sereia lançado na noite. ulisse se abre como cadáver na escuridão. e apenas isso.
não abale a dança. não acabe como 2 adolescentes idiotas. assim, desejo aberto. segredo velado. um pouco além da história. as coisas mais complexas se resolvem, não apenas o simples desejo.
quem assina isso é a princesa que nem se importa com o que deveria ser relevante. faço meus calculos, dobro algoritmos e penso no espaço. os astros são o futuro.
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Comentário a: http://esquecodemim.blogspot.com/2009/11/conto-de-fada-pos-moderno.html

cinema em sépia

uma valsa abre a cena. em neve, seu rosto gélido se arma. eu aqui escorro, lentamente, com meus sonhos. água. uma torrente de água me atravessa. minha maquiagem sem selo de 24 horas, sem fadas e sem sinos da meia-noite se desfaz, manchando a página, o rosto. eu queria poder acreditar no que diz. eu queria saber que me entendes. sem mãos na testas, sem me pôr no limiar da espera, sem escutar com copos atrás das portas. sem carregar junto ao peito a chave para aquele baú que eu sei que tu não desejas. me desculpe, eu não o sei com certeza. tenho um último aviso. me traz um dose forte de uísque, conhaque, qualquer coisa que me tire este gosto azedo de champagne. eu não quero mais o fino das taças, as bolhas, as cortinas. eu quero o papel velho e úmido pregado as paredes deste submundo. uma cena em vermelho. acho que esta na hora de uma triste despedida. nossos relógios são díspares. eu sou tão francesa, nos saltos, nas rendas, nos leques, tão século XVI, feita em molière e ondulada por vivaldi. tu saís meio à byron, cacofônico, inglês... sem tanto refinamento, eu diria americano, com um sotaque obscuro, de gueto... bem vadio e cheirando à rua. minhas cenas são quadros armados e assinados por gênios tão grandes que teus salões não saberiam o valor. tu te constróis na cópia, na sedução alucinada que não difere uma conta de uma pérola. eu queria poder um pouco mais apenas sobreviver ao contágio, a este contato que fere minhas luvas brancas. eu quero minhas poltronas tão intocadas quanto minhas cortinas. tudo é essencial ao meu cenário, não apenas o alvo de um sorriso. não apenas uma palavra que tu não sabes o que significa. o que apresenta, o que representa este meu gesto tresloucado de lançar minhas porcelanas azuis de encontro as paredes... ora, eu que me empenho em estar à altura das minhas cortinas e de meus rodapés. meu sapatos doem... eles nunca doeram assim... minhas carruagem afrouxam as cordas, meus violinos arrependam como meu coração. as notas se perdem... não é possível salvar nada, nem mesmo meu busto para minha lápide que outros olhos jamais entenderão.

domingo, 29 de novembro de 2009

copo d'água com açucar

assim, me dizes o que eu quero ouvir. eu sei disso. eu não poderia. o batom redesenha os limites dos meus lábios, que assim, serão teus. como estas flores. estes gerânios na minha janela. me abraça assim devagar. eu preciso aumentar o volume, da música, dos cílios e dos cachos. eu sei que é impossível. eu deixei a carta que te escreveria em suspenso. eu irei assim, de longo, cetim e pérolas, buscar o que me prometes. arrumo os brilhantes nas orelhas, prendo os cachos com um grampo de ouro e com um pequeno rubi cor de desejo. meu peito arfa no corpete, apertado os seios sobem com o rubor das faces. o cabelo não resiste ao vento. é impossível manter os ares de estátua comportada. o salto machuca, fere, como a vida. eu espero que tudo dê certo. alguém derruba uma taça de vinho no meu vestido. um pouco de raiva, não há nada que eu possa fazer. assim, manchada, me entrego a ti. espero que veja para além do doce da minha pele, que sinta na ausência a devida presença. eu quero a ti, sonho, nuvem, distante estrela no meio do deserto. tudo tão lírico e tão marcado. tudo tão planejado nas páginas desse diário. meu pensamento se aprisiona e se entrega, sem medo, como meu corpo de pêlos eriçados no desejo deste largo abraço. armo o conto de fadas. fecho as cortinas para sonhar um pouco mais. bebo três goles dessa fábula, adoço os corações com as rosas murchas. sobrevivo. assim, diante do espelho, espelho meu.

proibido

"ela sabia o que dizia ao ler no rosto dele o impossível de mim. só restaria o crime, para o qual eu não tinha coragem."

tu foges aos abraços, escapas pelo vão dos dedos. armo a cena impossível, quero te inserir nesta biografia tão fingida, mas tão minha. neste roçar de peles que ainda está lá. longe, oculto nas dobras das pálpebras. assim te faço imagem e retoco nesta minha galeria de tentativas. ao lado, sempre ao lado, na série de tentativas. há um vaso, um quadro mal acabado, uma estátua quebrada, uma maquete e um projeto de vida. pensava na minha pequena criança, tão distante e tão selvagem.
ao mesmo tempo, na chuva que caia, nos olhos cegos bem-fazejos daquela cigana que proferiu minha sina. uma sina de monstro sem campanário, mal-fadado à luz do dia. entre-disse aqui e pediu meu coração imerso numa taça de vinho. não sei se teria coragem para oferecê-lo. mas gostaria, aos teus olhos morenos, lânguidos que eu almejo.
tocaria talvez um tempo a mais, um beijo a mais, uma certeza a mais.
eu não te devolveria esta verdade minha. tão fingida quanto um postal
no entanto, seu eu tornaria, este capítulo, agora rasgado. cansado, eu faço do impossível a minha ficção, que mergulho em café romano, entre os livros, numa companhia que ainda quero libertar.
e, assim, ensinando, à francesa, como se seguram os talheres, como se parte um sonho sobre uma refinada porcelana, abro diante da mesa a carta. esqueço o menú que se seguira. mas abriremos, orientais, nossas espadas de samurais esquecidas a um canto, te ensino a devorar. faremos deste peixe, uma posta, uma aposta última. escolheremos o perfume certo, a roupa certa, os astros certos. te ensino um pouco do meu crime de verdade, você sabe, é possível, mas para se proteger terá de sacrificar o outro, para estar assim do jogo. entrar no jogo é poder perder, sair ao controle, cavalos selvagens correndo rumo a desfiladeiro. ainda podes aprender. mas desfruta ainda destas sedas e destes aromas, não é o momento para um cadáver. é preciso, sobretudo, saber se entregar inteiramente, entregando apenas uma parte de si, conservando as outras intocáveis. algoritmos de desejo que não entram e não se enquadram na cena. eu queria te poder ensinar mais do que esta página murmurante num francês velho, sem gemidos, mas de palavras contidas neste cadeira de balanço. mas não quero que vires monstro, flor ou estrela. para além do naufrágio, deste lance de dados, quero entres na poesia e que a faças viva. é importante que notes, e só tu o sabes, a mudança das vozes que estão presas na minha caixinha de maquiagem. eu posso suspender as esferas, bancar o interprete supremo, apagar as luzes e reformar um espaço ordenando novos desenhos as constelações. mas sabes o preço, assim, gemido num agudo lascinante de não poder, de desejar sempre para além da forma perfeita, o efeito pérfido da força que tange rompendo os músculos, sem dor, mas ainda assim em brilhos que fazem surgir a imagem do fundo do espelho. eu simplesmente acredito, neste lugar outro, do qual só tu ainda tens esperança.

sábado, 28 de novembro de 2009

a balbúrdia feito lâmina fere. abre o pulso. revejo os calculos.
armo a viagem. sei de que, não sei porquê...
a cabeça dói aberta na estrada.
engole a fadinha.
recupera a fadiga.
abraça este corpo.
sustenta esse sonho apenas um pouco mais.
um pouco antes do pó...
da ruína
e do pesadelo

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

debaixo dos trilhos

" Pêsames. n.b. acidente aconteceu. volte logo. af. G. F. Handel".

a trilha se perde. bússola na mão. o desejo diante dos olhos. ele exclama as horas de um dia nublado. não sabe, nem se quer se daria ao luxo. o telegrama sobre a mesa. as notações do dia sobre o piano cerrado. debaixo da cauda, o diário oculto.

...um dia qualquer...
tenho raiva das cartas que escreves e não me permite ler, dos bilhetes perdidos que encontro e te diriges a outro, e a outro, mais um, entendo as coisas numa linha que não me agrada. eu ainda assim preciso partir para me encontrar mais uma vez.

incompreensível a escrita disso. irrecusável o desejo. mas ainda assim, se não me dizes claramente, como eu o saberei. nesta carta vendida. assim, aos trapos?
queria aquele verso que deixaste oculto num dos milhões de de livros da minha biblioteca. eu não o encontro. nunca o encontrarei. assim. como marcar a página certa, como virar a vida ao avesso?
há os pêsames, bem marcados. lembro de quando te encontrei carregado de papéis, aliás você sempre andou assim, na londres fria, em plena estação victoria ou era oxford circus. não consigo lembrar. agora aqui, num verão estranho, você sabe como é o verão continental, bem diferente das ilhas, dessa tua ilha para aquela nossa ilha feita de trópicos e sonhos. mas e se eu me recusar a ir para esta ilha? ilhado eu me sinto desterrado. agora, aqui no labirinto da gare de lyon, aprisionado na saída da pequena ilha, do zero de mim. eu recebo isso. assim, cheio de flores murchas, como meus sonhos. eu quero te abraçar, mas não como um puro cadáver. assim... o trem vem, lanço as flores. cansei. quero voltar pra dentro daquele quarto, apenas, entre as cortinas vermelhas o peso desta coisa feita eu. talvez pensar em deus, uma única vez ainda à espera de algum milagre, a saint-chapelle tem as portas travadas, como meus olhos. eu só queria uma única certeza.
é o que me resta, na pena, ter de escrever em tua memória, com o resto de mim, esta lápide.

Copélia


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

será agora

quando eu penso eu penso, e apenas penso, penso em ti. tranço as mãos nos teus cabelos querendo assim saber de teus segredos. há um resto de vento preso nos meus olhos forçando a fonte amarga que mancha o espelho d'água com cores de melancolia. retiro, uma a uma, as dores ocultas no fundo da gaveta, afrouxo o laço de cetim das cartas não-recebidas. o que falar para não perder este vislumbre tão desejado... eu te queria e isto apenas. provoco tantas cenas e subo três tons que me penduro nos acordes num desvio, ali onde falha a voz, justamente quando... eu queria poder dizer. não sei se gargalhas de mim quando apenas passa. eu posso cortar as recordações, me perdendo nas lembranças e ilusões. há um charuto, um vinho encorpado, um bilhete oculto no bolso do paletó. as minhas pérolas, acabo de as perder num lenço de seda. não acredito na eternidade, os séculos pesam na minha idade. aprisiono estes cisnes e os afogo entre papéis, cartas, postais, diários, tanto pedaço de mim, talvez mais importante que este velho e suado corpo que insiste em gritar tão somente quando o grito não sai. minha ópera é desenhada nos passos nômades de uma cigana dançando, e na dança, inebriada de mistério, luz e fogo, castanholas tirititantes, se descobre sozinha numa noite em que a lua foge ao cenário, sem magia, restanto desolada no meio de vultos bêbados, continua a dançar, como se este último gesto pudesse ainda salvar a música, impedir o silêncio, invocar uma nota a mais, uma nota a mais, e mais... o instante cai como chuva. um dia é preciso silenciar. por isso fecho os olhos para sonhar, ainda agora.

crime

quando penso na escala e na escolha do tempo, eu sinto apenas algo mais, vibrando abaixo da pele, fazendo amor ao rés do delírio. pegue as malas e vamos. antes que os vizinhos acordem. desce os degraus. depois de tudo restaremos nós na estrada. as papoulas não murcharão na minha janela, mas não me importo, não estarei aqui. guardei este resto de luar apenas para isso. os portões rangem, cães malucos atacam o lixo da madrugada. talvez seja um pouco perigoso e estranho. mas, querida, não precisamos disso antes que como nomes tenhamos perdido os rostos que deixamos aprisionar num rembrantd ou velásquez. mas esta noite há apenas o caminho dos muitos caminhos. talvez, só por agora, pulando os interditos. (não esconda a angústia neste rosto rubro de medo, nestes olhos ansiosos e sem sono). talvez possamos ser livres só por agora, enquanto nos acorrentamos à esta escolha. vem, corre, o táxi espera no dobrar da esquina.

cabaré

o bar gargalha. prostitutas aos seus postos!
hei você, não abandone seu copo... siga o corpo.
nós queremos você sempre, e é claro, seu dinheiro. ou ele sem você. a ordem aqui importa.
siga a risca minhas regras ou saberá o futuro as custas de uma marca de batom na gola.
eu não serei seu amor, querido. não me faça perguntas. não desabafe. talvez eu não as queira responder, talvez não queira te aconselhar.
não! tire as mãos daí!
sente o gosto da dose de uísque... vem beber lentamente o peso dos meus lábios, delire nas flores, mas não toque nas minhas romãs.
gargalhe à vontade, essa noite é apenas um acidente no percurso.
não precisas saber meu nome, não me importo com o seu.
tocas apenas a moldura que aos seus sentidos concerne entender. para além da maquiagem, não conseguirias seguir meus traços de manequim volúvel que se vende com as roupas que usa.
aceno e sorrio.
deixe... deixe estar... até o fim da noite o saxofone vai te engolir e, por mais que resista, ambos sabemos que como o amanhecer você vai cair.

Andreas

«deux ex machina»

abre esta caixa! libera a pandora de teus medos!
legionário bárbaro, roma se entrega à tuas mãos, assim, meio turca e sublunar, numa xícara com raspas de limão.
esquece teus mistérios nórdicos, teus fantasmas, brancos e distantes, perdidos na amplidão de uma noite para além da soturna treva.
acorrentamos teu épico no fundo do museu britânico.
escreve com teus signos secretos minha glória latina e gaulesa.
ouve a força do mar.
força teu coração à curva do rio...
se os céus não desabam sobre mim, pequeno atlas, é que os sustentas e sabes se rir num acordo diplomático (bem tácito) de apertar as mãos.
reconhecemos diante dos olhos o desejado inimigo. bem comum.
essa tragédia não tem um drama moral, mas um dilema estético.
o quê enunciar neste discurso de intermintências?
abre a janela, respira. torna a fechar. esc-quece.
toma tua roma, ordena aos teus escravos a última decapitação.
expulsaremos platão de nosso Império.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

costurando linhas

há coisas que são bonitas, e só. e aqui, à espera do ônibus, resta a rua vazia. ouço gargalhadas de desprezo ainda assim. eu sei que não deveria. prega este botão. há casas distantes como no fundo de uma pintura. estes lábios franceses têm mãos que sabem caligrafar solenemente n'outras línguas e espaços. não quero os anjos! dobro lentamente uma peça de seda japonesa com flores de cerejeira pintadas à mão. não há mais o corte. me abraça bem forte? um abraço e isto apenas. eu te dedicaria uma galeria toda feita em versos de dolorosas constelações. te contemplo no que resta de tua voz em meus ouvidos. a pele ressoando... tambores orientais. é um mistério isto aos teus olhos. abrir o clarão do verso, enquanto clareira na mata densa, rompendo os elos do aberto do meu pulso. duas peças unidas, aperta os olhos, afina o olhar, vê as marcas da união. outros ônibus passam. outros caminhos ultrapassam. esqueço meus passos. é preciso saber que algumas coisas são bonitas, mas não só. minha escrita se desmancha no ritmo turbulento do não ter compasso. te faço piano num abraço. preciso parar. é minha a hora. e, isto, também apenas. eu não preciso de um último suspiro quanto de um primeiro sorriso.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

between velvet curtains

i would give you more than just a blow rose in flaccid muscles. you fall asleep, just in your corner, abandoned to night perpetration. i draw your impossible face in letter and i know you are angry with my silly expression in the mirror. i feel your cold breath in my neck. slowly to devour my bloodness heart. gently incise in my affliction with your silverware. i touch my ankle and i offer in the kiss (impossible to give you) my venom. it is open in the walls marked with hieroglyphs pearls and enigmatic petals: with pleasure i delineate with my teeth-trait upon your skin. the real blazon printed in your dulcet surface. I do not want this rough policies. the chaser ermine surrenders to the guillotine. hangman’s hands. but, i break my torment, as print, still life.
I'm sitting, nude, front, with large open windows, with wind whispering secret and banned words. it profanes my flesh (and i still think about you, my shining star) and some dream butterflies and shooting star courtains draws me. i, among fading violets, declare, more, even, i want you.

entre cortinas de veludo

eu te daria mais que uma rosa distendida em músculos flácidos. tu dormes, aí, abandonado aos crimes da noite. desenho teu rosto impossível no papel e te sei zangado com um gesto idiota que fiz ao espelho. sinto uma baforada fria na nuca. devora devagar meu coração imerso em sangue. corta de leve minha dor com teus talheres de prata. toco o tornozelo e sacrifico meus venenos no beijo que queria se dar, mas não pode. abre-se assim as paredes em suas pétalas feitas de hieróglifos de desejo que desenharei com os dentes sobre sua carne macia. te deixarei minha marca. o brasão estampado no doce da tua pele. eu não quero estas políticas estreitas feitas de pouco senso e direção. o arminho caçador se entrega ao matadouro. as mãos do carrasco. mas agora eu resto, como marca, último vislumbre, sentado nu diante das largas janelas abertas, com o vento violando minha pele (e penso em ti, minha estrela) e uma cortina de borboletas de sonho e estrelas cadentes me desenha. entre as violetas que fenecem, declaro, na respiração entrecortada, que te desejo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

TOUCHanging flowers

“the moment I wake up...”


crash the vase. the storm water needs to be cleaned and I solve things slowly as someone who methodically takes off his clothes against the mirror. hands desiring to touch even bones. there’s words that can not be spoken, others, however, are more than needed. three, two, n-one. these flowers of evil hidden in your eyes. the lonely counter-attraction of hours. as a shadow you dwell in my bed’s corner. remains to be-lieve in the embrace. the kiss, at last, always wakes (me). flesh raises bristly. I feel your face’s brush in this deadly dream. must release the butterflies in these roses in these artificial roses

A menina de Budapeste / Henri Michaux

Na fumaça morna de uma baforada, tomei meu lugar
Eu sai, não renunciei ao meu lugar.
Seus braços não pesam nada. Encontro-os como água.
Isto que é fenece disaparece diante dela. Só resta seus olhos.
Longas belas ervas, longas belas flores cresceram no nosso campo.
Obstáculo tão ligeiro sobre meu tronco, como tu te apóias agora.
Tu te apóias tanto, agora que tu não és mais.


____________________


La jeune fille de Budapeste

Dans la brume tiède d'une haleine de jeune fille, j'ai pris place
Je me suis retiré, je n'ai pas quitté ma place.
Ses bras ne pèsent rien. On les rencontre comme l'eau.
Ce qui est fané disparaît devant elle. Il ne reste que ses yeux.
Longues belles herbes, longues belles fleurs croissaient dans notre champ.
Obstacle si léger sur ma poitrine, comme tu t'appuies maintenant.
Tu t'appuies tellement, maintenant que tu n'es plus.

t(r)ocando as flores

«ao acordar...»

quebro o vaso. é preciso limpar as águas da tempestade e resolvo as coisas tão devagar como quem se despe metodicamente diante do espelho. as mãos desejando tocar até mesmo os ossos. há coisas que não podem ser ditas, outras, no entanto, são mais que necessárias. três, dois, nenh-um. essas flores do mal ocultas nos teus olhos. o solitário empuxo das horas. como sombra ocupas o canto de minha cama. me resta ser e acreditar no abraço. o beijo, ao fim, sempre (me) desperta. o corpo acorda, eriçado. sinto o roçar de teu rosto neste sonho fatal. é preciso liberar as borboletas destas rosas destas rosas de plástico

domingo, 22 de novembro de 2009

comentário ao coração esquecido

bem à Mme. B-Ovary

acho dolorido o espaço aberto no rompante do bisturi, assim, submerso na imensidão disso. imagine: médico vedado, um acaso. assim, coração na mão, palpitando e não mais. essa dor gelada que desce a lateral do peito e tange para as mãos vazias. algo resta para além do seco vazio. do murmúrio inventado do último segundo? nada importa, apenas isso, como post it que se cola como um sorriso parasita. e ainda assim deseja.

acordes

habitas o fundo espelhado das águas e não és sereia. como tocar a imagem desejada, assim separada, ao revés pelas correias. faço um brinde e esqueço o salut-ar. e soluço. te vejo assim, em meu sonho, nu de braços abertos e sem aperto. achado em preto-e-branco: um corpo feito linhas que saltam na escuridão do quarto. o sonho não poderá vir se o sono não vier, mas talvez o sonho tenha vindo antes do sono. mas, sim, só talvez. alguém ainda hoje ressaltou a cicatriz que se abre na pele pelos travesseiros. ah, o anjo travesso da marquesa de santos. sim, eu sei. mas não o toquei. eis aqui teu nome oculto neste sorriso lateral e explícito que me quer mal, muito mal. eu sei disso. impossível escolher quando nada se põe à mesa. quando no jogo as cartas são todas desconhecidas e presas no envelope se dão às combinações impossíveis do silêncio. como se as velas não soubessem armar traições. insisto em não escrever isso, mas lembrar do peito largo, da tez solar, três signos boreais de sedução postos para além da pele. poderias tencionar os meus fáceis e frágeis rastros. sei que não é isso que queres. nem mesmo d'um bilhete último cheio de sóis sois capaz. e te fazes nesta jaula de miragens ressonância consoante de minhas vogais coloridas. e isso é dizer tão pouco, tampouco és isto que insiste nisto que seus dentes escondem. eu que nem poderia dizer nada de minha noite passada. eu que não gostaria de narrar minha manhã (mal)passada. me faço em manhas e dengos para talvez resistir ao desvelo e desvio da palavra que eu sei que não faz eco. o eco se dirige, estas se prendem assim, no vão dos dedos. amorosamente. eu ainda reescreverei aquele grande poema que te dediquei no sonho, mas que é impossível de palavra, que se faz apenas no roçar das peles, no eriçar dos pêlos selvagens, assim, sem champagnes e sem requintes, sem monstros e sem grandes navegações. a bússola sempre sabe o caminho da deriva. apenas espero que estejas lá, na hora marcada, assim que os dados caírem.

raphaël sanzio

"visão de um cavaleiro"

sei que te ocultas entre uma ou duas cúpulas, entre as asas de um anjo sorrateiro, entre o cinzel que lhe escapa das mãos. sei que esta forma apenas ofende. sei que não te serás capaz de reconhecer aqui. mas ainda assim, a tentativa. um punha que risca o fundo do olho. eu tento não dizer eu, para dizer de ti. mas sou apenas este eu que diz de ti enquanto dormes em teus séculos santos. tuas madonnas são outras de desejos domados. dizes azul onde eu vejo em preto o gesto que se faz em mil e quinhentos sonhos. o preço da água sobre 15% em Paris hoje e é quase meio-dia. eu não sei de tua tristeza. abriga-te em teu manto sem segredos e sem códigos. eis o meu pequeno quadro, o retrato do meu estado. deixas me no estrado, assim em uma cena siena e sem idealismo. sem luzes. desenho aos poucos teu presente que não me saí, nem mesmo com as notas de um violino amigo. o arco preso a mão não me abraça em um tom, mas faz sutenido de meus temores. e aqui, nada resta daquele que fez temer a natureza dos degraus latinos e que de um ladino em pedra ausente se transpôs e que fez de cor apenas uma mesclado de sorriso e nada mas tem de mim, contigo.

inter(re)ferências

"em o tempo e o vento, encontrei um certo capitão rodrigo"

eu preciso achar um jeito meio de lado de te chamar. escondendo assim o teu nome num sinal. numa senha de roçar a pele. eu queria ver teu rosto, aqui, tão próximo. hálito rente a pele. esfriando aos poucos o desejo que se aparece em quadro. realidade. as coisas não se encaixam. eu poderia ler pra ti as minhas fichas, os meus encartes de obras raras. descobrir no sexto livro, o rodapé do abraço que se desfaz nos meus cubos de açucar. o lábio pode ser doce, mas ainda o será também o coração? ora, não te faças assim meio de godzilla na casinha da barbie. eu li num lugar amigo sobre os corações... não gosto das necroses. mesmo das que se abrem em flor. eu sei que gostas do verde que não suporto. não direi o teu nome agora. o nome que te dou entre as minhas constelações. espere, saiba do grito o momento certo. assim, me abraça, querido, dorme comigo... me pega no colo, caso eu adormeça entre os livros.

coxas nuas

a cabeça abre um rombo no travesseiro. difícil manter os olhos fechados diante do escuro tenebroso. fácil crispar os lábios e segurar um grito de dor. e essa mancha rósea que dispara de um fundo branco? o vislumbre do desejo se faz na pele. no desejo da pele. minha ciência sem príncipios não põe meias e não se traveste de príncipe. tem assim, nas linhas, o abandono solene e sonolento na cama, após as devidas vírgulas, pontos e travessões. a exclamação ficou ali, sus-pendida como um pêndulo. homem na forca. homem sem forç a. judas sem dono. sei que me engano entre estas penas de ganso. ou cisne. renuncio à alergia para toda a classe. o sortilégio não me afeta à distância. sabes onde encontrar o corpo? o avesso que talvez queiras do corpo? a armação está pronta nas rendas. unhas longas e dentes afiados. segura mais esta, querido. te protege, mas vem assim. de lado, do meu lado. dúvido da tua força. não creio no teu tempo. abro as torneiras e saio correndo. um traço azul marca na perna um longo descaminho. bem no meio. ao redondo. tranversal. como os pulos de hidroginástica marcados por canetinha hidrocor. hidro. nas águas resiste a hidra. corte psicótico de carnificina, mas cheio de porcelanas azuis. pede logo o bife! não resiste. não insiste, mata a fome com os dobrões roubados. a galé fica no meio da galeria. a vênus amputada abre no mármore, fácil, as pernas. perscruta-lhe as coxas, descobre a senha. o sinal... tatuada nas costas há a origem (em plástico) e as palavras de agradecimento.

sábado, 21 de novembro de 2009

xícara de café

"com muitos erres. todos os erres. para todos os erres."

abro a porta. a porrrta. se te ligo insisto. no teu r. voz lânguida deixada embaixo do travesseiro. docemente sem travessuras, toma o doce. este doce. um beijo de bom dia e um pirulito roubado. sem duplos sentidos. encontre o terceiro fechado na palma da mão. e agora? um cruzamento com um plus a mais. uma freada brusca de menos. liga os faróis e corre. fala comigo ou falo com tua mãe. bem simples, quase funcional. assim, com jeito. sabes que sei ter o jeito sem jeito de não ter jeito, mas com o qual sempre me ajeito. ruim, mas altamente sugestivo. ainda. quem falou que estou brincando? queria você aqui. entre meus papéis, imerso no café quente, de gosto quase lascivo. na ascese o café só poderá ser o primeiro e único prazer intelectual, platônico, senão homérico. imagético sorrindo e dizendo vem. o café entre-cigarros. nem sinto teu gosto perfumado. como te esquecer? comporta-te. aquieta-te num gosto forte de vodka. café russo. me encontra depois do último capítulo. depois do fim e antes dos créditos finais. eu ainda (só) quero o (meu) beijo (que me deves).

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

recorte

há uma linda mulher sem seus saltos lacerantes, sem os cílios longos e negros, sem um bom corte ou um bom penteado. há a mulher com seus jeans e seu batom tímido. o perfume diário, quase que imperceptível. amadeirado. os cabelos armados por um coque travado por um lápis ali esquecido. decidiu não ter mais esperanças na superfície esguia dos dedos finos de unhas roídas. claramente sem nenhum esmalte. tentativa de não se esquecer aos desejos, mas sub-traí-los. o corpo quente queima sob o sol. camiseta branca. sem estampa. sem manchas. talvez nova, mas não de todo. o sol acentua-lhe as rugas ao maquiar a pele. gostaria, por vezes, algumas vezes, nos saltos, atravessar o salão no horizonte dos olhares. renuncia. ou antes disso, fora do tempo, atravessa o salão com outro rosto, feito origami. feito trama de papel. cheia de si quanto merteuil. cheia de medos quanto bovary. mas cheia de modos neste seu aspecto único. intransitivo, direto. todas as noites quando se esquece nua na banheira e no frio escuro dos violinos de seu gramofone, atravessa as manchas de tinta dos dedos, as linhas das palma da mão se apagam, os papéis esparsos, os pés mal-cuidados, cerrando os dentes vê apenas isso. não quer os efeitos para além da dor nas costas, a angústia que lhe infla os pulmões de ais silenciosos em agonia, o calo no dedo mínimo do pé esquerdo. o efeito é, ao máximo, a água quente a torcer-lhe a sintaxe das idéias, ao mínimo, o vento frio do ventilador que lhe arrepia a pele depois do banho. sem nenhuma história. sem nenhuma grande história. o mote de vida empilhado entre os milhões de livros de sua mesa de trabalho. as outras dores ocultas nas páginas rasgadas que jazem no lixo. o manuscrito não escapa impossível aos olhos que renegam todas as lentes. espera o correio. postal. mas o carteiro não vem às 4 horas da manhã, vem? não, creio que mesmo que venha, ou possa, ou poderia vir, aqui não virá. aqui não. assim, resta nua, sem os jeans, cabelos úmidos na temperatura abafada, ouvidos surdos pelo ventilador, no ermo de uma cama de solteiro, de lençóis amarfanhados, abandonada à luz indireta e fria entre o cigarro e o café.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

eu e o poço.
no fundo do poço.
no poço não poço.
não mais, talvez ainda.
me abraça?
a velocidade do pensamento não é a velocidade da iluminação.
Mas sim a de quando fala, falta e falha a mão.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

recuso a escritura. o corpo dói preso num aquário. ainda tenho que escrever sobre ele. o lindo aquário de fitas e cetins. perco a cabeça, erro as linhas que se contorcem no torto das minhas retinas. retinto os cílios. um gole amargo. deixa o pulso se esquecer. a máquina. a dor. o fundo dos olhos se perde no mínimo da escuridão.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ode ao Pianço

dueto com Aline Natureza

corpo suado
mão trêmula
não é amor, meu amor
passa com uma dose
de aerolin

terça-feira, 10 de novembro de 2009

cacofônia. o tropeçar das palavras empoeiradas. o francês saí arrastado. levemente atado, de olhos fechados. não saí: voz muda. não muda o tom, mas a altura. assim. do jeito que observas não vai. dê uma chance. não toca minha mão. não se pode. não dá. eu tenho rente a pele, atada a coxa, uma adaga fina e afiada que perfura lentamente as dúvidas. abre isso e escreve seu primeiro bilhete. larga a caneta depois do testamento. o codicilo inesperado numa lágrima que não veio. assim reprodutivel e facilmente imitável. cheio de clichês e maquiagem vagabunda. assim. meias rasgadas, saia curta: pernas saltando aos olhos.um fio de sangue na gengiva. raiva e fúria. deverias entender, mas não sabes ler, não como eu te ensino, não como te faço crer e ver que não há nada aí a não ser o muro. não salte o muro, depois dele há outro, e outro, e outro, e outro. assim, tantos e impossíveis como estes assim. resta uma caligrafia. calígrafo calma que se abafa na noite, com uma lua recoberta de burca, olhos misteriosos, calando fundo na escrita. um nome em sangue. dragão aberto, insígnia dos teus desejos platinados. os rostos que passam. as coisas que não acontecem. tudo arrancado e pegando fogo com os jornais e diários. tudo. até mesmo isso. sim. não reclames. tu já sabias. era assim que tudo deveria restar. restando no eco o fantasma enquanto desenho animado. caricatura com dor de cabeça. maquiagem borrada. não me importo com os desenhos nas capas. abandona teu missal. a água lustral banha o corpo com outro corpo de pecado. resta assim. só. a palavra e o eu. nenhum e sem direções. vontade de. e não mais.
eu esvazio a minha garrafinha d'água. lentamente como quem respira um pouco mais do que deveria. a torção e a tortura: água. tudo que molha o corpo, molha nas marcas. vem aqui eu te mostro o que tu não deverias. eu sei. pinta o quadro e sorri. é monalisa.o quadro: um dos leonardo. ele preso. atento. que e olha e geme devagar. preso na capa de mil revistas. um olho mecânico me mira. devagar e me despe. nus corremos. presos em números e sistemas. assim, não esbarra neste zero que eu sou teu um. vamos?
não me aperta. não me toca. não abraça.
mergulha em alcóol os teus segredos preservados...
uma pedra de gelo é sempre segurança latente. o bolso cheio
de fotos 3x4 velhas
como as rugas
que carregas
lentamente
e se descolam
e se apagam
frisando em gesso e mármore a sombra, o teu súdario último em pedra.

domingo, 8 de novembro de 2009

panfleto político AA

difamando o poeta:
não discursas
às portas da cidade
quando te restam as pedras
que fazes e refazes
nos passos
da paixão
não evite os acidentes
mesmo os em ão
mas não reduntas no gesto
nada
entende a metáfora
não queiras apenas o código
destas letras grandes
garrafais
o amor que é o amor
não rima com as gerais

entre o estilo e o espaço
sempre resta o estilete
para os pulso

repuxos ao gosto C.D.A.

há gestos que se abrem como um ramo de flor
assim, meio mina
meio selva
meio gruta secreta
o poeta observa calado
suas cálidas pernas
não pensas, Antônio,
e te fazes santo
o poeta precisa de um copo a mais
para um verso a mais
uma poesia a mais
não tropeça na esquina, menino,
vira logo
o copo
e as certezas
antes que te descubras,
na orgia,
posto entre uma sepultura e o aslfato
que lateja
o coração é sombra e sobra do relógio
grite e corra
leve os brilhantes roubados
os jornais não lembrarão teu nome
e não contaremos
a ninguém.

um chá

ele sabe ser indiscreto, diz o coelho pensante.


vênus assombra, tão perto. tão ali ao alcance da mão com o o pomo dourado. o enigma. que desejar? o que escolher. a luz pisca designando o impossível do desejo. um sempre menos na presença. um sempre ali, tão distante. um sempre não estar. mas não faz diferença. as verdades que não existes estão proscritas. alice quer escrever o seu romance. alice já tem 18 ancos. alice... tão em nada ingles com seus livros debaixo do braço. e sabe, afirma, são 7 horas em paris. e o que mais importa se não for o correr para encontrar páris em paris. tomando um café e fumando. tão francês... e tão bárbaro com sua barba malfeita. assim, homem, feito homem. nem mais nem menos. homem num terno que é à sua medida. homem recortado à imagem clássica. impossível de representar. toque esta pele. meu corpo vibra com notre dame. eu te levo comigo nesta fumaça...
o corpo quente, sereno, dobrado. três esquinas no largo de mim. escondido à nuca teu perfume. o brinco de pérola. o anel de noivado. como? alice deixa cair as cartas roubadas. seu baralho é feito de postais não enviados. fraca. mulher fraca e assassina de uma amor que não veio, nem virá, não pode vir.
resigna-se a este lugar no canto esquero da biblioteca, no banco do carona. janela aberta, vento afogando as vozes, explodindo nos ouvidos. anda. apenas. aqui cavalgando a escrita deste sonho enquanto não dormes, mas deveria. corre e percorre o teu corpo, simplesmente é teu corpo e nada mais. esqueça de rezar à cabeceira da cama, uma noite ou duas, para manter a sanidade. saiba que é preciso.
aos 18 anos, alice, muita menina já sabe maquiar os olhos com devidos segredos e mantendo a malicia bem longe da ponta dos cílios. é sempre necessário uma nota de malícia a menos. assim, desejo, as meias. todo o requinte esta num depois. corre alice, não esquece os diários.
me telefona.
cuidado com os círculos de paris. a cidade é a devora. guarda bem o broche que tua vó lhe deu. ele é único e só teu, como os sonhos. sente o perfume. deixa-te prender no livro que te leva. e vai. toma o chá e acorda. mas sempre tão tarde. e voltas a dormir.
eis o segredo. ali. três alíneas pra cima, naquele par de parenteses que só teus olhos serão capazes de ver. não morde a boca assim. não esqueça, criança, você já cresceu.

sábado, 7 de novembro de 2009

há um gosto estranho no ar. abro as cortinas, a luz beija o corpo nu deitado ao largo da cama. recluso nas palavras perfumadas de sonho, eis o que resta. o corpo e a luz. conto um segredo, assim de leve, como quem não sabe o que diz, mas diz a verdade última. preciso correr, o trem. aberto nas páginas que não sabes. não entende o múrmurio de minha língua impossível de jornais. te peço, não tentes. aquilo que sabes, que pensas desvendar, só tu tens a chave. agora saibas o porquê na última alínea de certeza. preciso correr, escolher terra e mar. a lápide gravada com apenas um desenho estranho. o aberto de mim para o nada. aqui resta, no fechar das cortinas, no corpo vestido de trevas.
o corpo evapora. devagar. com certo vagar as vagas constituem o vazio dos reflexos. abre as coxas vadias. voas nestas setas japonezas. abre as cerdas deste coração seco. das folhas secas, das páginas do diário, resta fazer o chá. alucinando assim, escrita abaixo. esquece as fachadas, abre o átrio amplo e largo das incertezas. que rompa os laços a gôndola do desespero. as correias de uma sintaxe impossível aprisionam a possibilidade deste perfume. esta imagem que aparece diante dos teus olhos nada mais é que sua própria miragem. este corpo que te toca o rosto e lhe dá conselhos vagos com ares de superior inteligência um dia se desvaenecerá. não altere o ritmo das coisas. não force as correntes. a ferrugem ataca máquinas e que será deste fantasmas nestas engrenagens?
o que você quer? pronto, diz-me. grita esta tua verdade. finge que sabes algo de retórica. este silêncio absurdo. estas dores sem razão. escondes, sombra, escondes este teu enigma que não há. nunca caístes no abismo. nunca te levantastes. eu sei que tu não há.

Mehr Licht!

chove através dos livros. abraça-os, menino, n'uma magreza filosófica de não-poder. no fundo dos óculos embaçados habita a dor revirada dos olhos sem fim. quê fazer quando nada resta. quê fazer quando a rua vira água. a dor no centro deste eu é puro vazio significante. tudo se constrói numa paisagem sincopada. o francês escapa por dois dedos. a chuva nem molha mais que a melancolia na qual imerge o corpo. a dor é de uma apagar das cores. a dor colada no fundo torto da retina descolada. a mão desenha no papel algumas letras. a gota fugidia escapa na fronte. a vida (a)posta num tabuleiro de xadrez. ele mira lentamente atira a pedra certeira. os gritos. o corpo calado à espera dos cães. a morte se ausenta da cena na soleira da porta. podes dizer? os fantasmas é que gritam. o pensamento é fino e escoa por um bueiro da avenida. não há motivo nenhum para salvá-lo. para prende-lo aqui. biscoito fino dedicado ao bolor dessas paredes. que sobrevenha a meia-noite. o inferno. tudo como um borrão de acaso se desfaz diante dessa realidade. chove através dos livros. o sangue que escorre do peito é tão barato que pinta uma linha última de destino.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

relevância zero. a dor na garganta. o ar condicionado. três abertos no pulsos. ela olha a tv. a tv engole o corpo alheio e se fecha em luzes. condicionadas. a sintaxe condicionante. o condicionador que não destrói. o hidratante e o hidrante imersos em água. nenhuma palavra. afundando nas almofadas, a morte.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

o homem dos livros

há um retrato de freud ao revés do homem dos ratos. a biblioteca define. papéis amarelos. livros abertos na profusão de pensamentos que se entre-chocam. ele choca de leve uma idéia preciosa. capas de muitas peles. n'um canto um crânio ritual. n'outro a caneca de café e o cigarro. ritual. uma dor que cresce devagar. do edíficio antigo mergulhado estranhamente entre os prédios. ambos solidários. solitários. tão humanos e deslocados. não sabe se sente saudade. aqui está seguro. entre uma vênus de milo, máscaras incas, ídolos celtas, budas, tapeçarias persas. o mundo que cabe n'um cômodo. ali. submundo da cidade. 3 andares entre milhoes de andares. degraus para o inferno. um quadrado dentro de outro. malinovski. olha timidamente o stradivarius, queria tocá-lo. não deve. as grossas lentes, já não tão grossas. talvez derivadas de um novo polímero, não sabe, não s'importa realmente. funcionais. não vai ao museu das novidades. o amplo templo de corpos expostos ao sacríficio do tempo. de perfumarias apenas, de fato, os perfumes de sua requintada toilette. sem entrar no mérito da questão. um dia, meio sem querer, leva o dedo à boca, à saliva, vira a página. torna a repetir o movimento nunca antes feito. risco. arisco. arrisco. um gosto de estrela lhe atinge o paladar. sedução de um coração-corpo-mente assim esquecida. lentamente, como quem prepara um filho para a devora, rasga o canto de uma página e leva a boca. o canto das sereias. ulisses e o cometa. cometa o crime. come-esse-caminho. viciosamente começa a correr nos círculos secretos da biblioteca, como se tivesse muitas línguas e bocas, páginas são destrinchadas e cruamente engolidas. de gourmet á gourmand. a língua passeia como lesma pelo salão. viscosa a mucosa se abre em flor. até que... cólicas. obsesidade. ânsias e vômitos convertidos num mesmo caminho. fuga. que fazer? o medo se apodera daquele corpo-caractere. um corpo folhado no silêncio abismado do caixote século xvii entre os prédios tão modernos. and clean. em meio a dor só consegue um resmungo de pergunta, assim com os olhos ansiando por um apoio celeste na cúpula repleta de anjinhos: senhor, ajudai-me, não importa o que restará de mim, mas apenas o que sairá através de mim. o quê? céus...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

a fuga da caixinha de música

j'oublié ma recherche.

sentada de pernas nuas ela observa. deseja desvendar o que se passa ali. no crânio do outro. a cabeça encovada dele se faz com cenáculo sagrado. cinematograficamente não diz. ela abre um botão do vestido nacarado. a pérola salta sobre o busto tímido. os cabelos curtos. os pés alvos. a mão na braguilha. os olhos disparam as setas. o corpo se faz todo em desejo. há um frio que sobe devagar a nuca e que como punhado de areia desliza sob as ondas de perfume deste corpo. sem nome. um assassinato. sem número. 37, diz a cinderela. tem jeito de querer um cigarro. bebe no puro cristal dos pés. o ventre palpita. o pezinho sangra em vermelho nada ponderado. extravagantemente real na cena em sépia. é preciso terminar o espetáculo diante desses olhos desejosos de meu fim. o perfil anguloso dele, à sombra oculta, finge que não observa. nem lamente. finge que não sabe que ela abrirá todos os botões do vestido e se descobrirá nua e sem amarras por debaixo dele. obviamente ela não fará isso. faz parte do sincero personagem que desempenha. deixe meu dinheiro aí, ao lado das flores que eu mesma comprei. o ventilador faz um barulho seco. sozinha. um jato frio no corpo. água com a temperatura cadáver do dia. encontro, enfim um cigarro. queria um charuto. gostarias, talvez? quebra uma unha por pura raiva, sem histerismos. sabe gostar dos tons de azul que despontam tão verdes dos braços. as poltronas vazias em torno. a passagem comprada. where will you go? de olhos fechados. to hell, of course. de olhos ainda fechados, nem sequer sonha, não se pode deixar cair neste luxo, em pé, fumando solenemente, nua, insiste em lembrar que os diamantes lhe machucaram as orelhas. o roxo de uma mordida anônima no seio esquerdo faz sinal. um suspiro fundo. o cigarro acaba. na última baforada como o real mais tangível desse 15º andar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009


roman à clef

no key's novel.


meu rosto coça. os animais não falam. sinto o calor roçando a pele. queima. arde. confessa. é doloroso. meu rosto como plástico, enruga. deforma. queria pular. de um prédio a outro. isso é uma resposta? o cheiro de canela me invade. sempre forço e erro a mão, mas perco o pé. gosto de sorrisos abertos como asas de anjos. volta aqui. sei que não deveria sentir falta. seu silêncio. sei que precisava te dizer. alongo os sonhos e os cílios num desejo incolor que retiro de um frasco caro de rímel. deus proíbe que se diga tudo o que pensa. o elevador chegou. faço você ejacular, mas não dentro de mim, diz a puta loira dos cabelos desgrenhados. há um telegrama silêncioso. rock. empresa falida. pó. há alguém mais longe ainda. isso é estranho. ainda. e se você conseguisse pegá-lo? meu peito, é do lado direito que dói. esse é meu lenço preferido, é seda, sabe. a banheira, creio, é de estanho. a puta ainda grita e geme dentro de um carro roubado. estou começando a... e... eu sei que meus pincéis estão trocados. a máquina de costura une lábios. tu falas sério, formal demais, com palavras negras como este seu terno barato. luto prête-à-porter. as pessoas de meu país não entendem meus erres. roubei minha língua num roubo bem inocente. quase que angelical. sutil. de leve. como uma mão que roça um rosto que dorme sem sonhar. o dedilhado do piano diz que queria que todos nós fôssemos felizes. não quero chorar, não quero ficar feia. um torrão de açucar a mais, uma lágrima de menos. preciso de minha caixinha de música com minha bailarina. morde a maçã, minha princesa, e dorme. nem todos os roubos são ruins. a gente rouba beijos e copos. esquece o corpo perfumado no fundo da gaveta. no fundo do banheiro, no escuro do cômodo, no raso da banheira os olhos se fecham num poema. não insiste no grande segredo. apenas se esquece e dorme.
the novel with a key.

sábado, 31 de outubro de 2009

os pulmõs pesam e pensam. desenho na fumaça o teu rosto. a nicotina eleva. gozo. o típico prazer deixado no fundo do copo. sujeira de café. o pó. sobre as mesas. dentro das gavetas. adianta tentar sobreviver. adianta adiar a morte. adianta querer sem saber direito o caminho. não sabendo, mas fazendo, lendo e deixando o mundo assim meio parvo. meio de lado diante dos vícios. dessa maneira que eu sei que tu não me lês. do jeito que não me entendes. do jeito que eu sonharia, se assim pudesse. eu tenho vícios. meu estilo é o erro com que acordo e o corpo me junta os dedos e me esquece. assim eu erro e circun-escrevo tudo o que não devo. vejo as pernas verdes. o mundo mágico tornado torto. goles largos de café. assim aponto o lápis. os dedos. aponto os pés. seguro. seguro no mundo. seguro o mundo. assim . bem assim. como quem crava os dentes num corpo alheio. que crava as unhas vazias em olhos vazados. assim. assim. bem assim. eu sei que agora entendes. eu sei que sabes o que eu quero. eu sei. tu também, não? acho feio perguntar. mas foi o que me restou. preciso desligar logo. me esconder. você sabe onde me encontrar. terceiro corredor. 34 - Z. no meio do deserto, pronto pra morte. estante número 574. terceira prateleira debaixo pra cima. 2459 de cima pra baixo. o quinto livro no inferno. capa preta. sem letras garrafais douradas. apenas um arranhão. de unha maldita e marca de batom na gola.
15 chaves
sim
porquê não
olha disjunção na dobradiça
dá logo um abraço
pula as velas
não, olha o pulso
vira melhor
quebra este espelho
libera o fantasma
devora teu rosto
escreve
desliga
corre
corre
ainda mais
corre
aqui
praqueles braços
p'ro vazio aberto
salta os andares
mergulha fundo
neste sonho secreto
de-canta sua voz desafinada
e grita
o último grito da verdade.

maquiagem

ain. há um problema. o salto engancha nos degraus. a passarela se fecha como selva. e dói.
salto. saltito três notas. mi. ti. si.
envolvo em cortinas de seda.
três goles de fino champagne.
o que resta nestes meus degraus.
no vão da biblioteca.

tudo o que se pode dizer e não se diz. num encontro rápido. entre fogo cruzado. eu aqui. tu aí.
eu espero. assim. tv ligada. som ligado. música ruim. escondendo os ruídos da vida lá fora. aqui. o corpo afogado na banheira.

- hey, mão, pega a máscara na gaveta...
- hey, boca, engole estes comprimidos de uma vez...

não digas que exclamas quando nada podes. assim, a janela faz paisagem. o espelho faz paisagem. nada resta. o ventilador ligado. o ruído insiste em desfazer as teias de aranha.

- alô?
-alô?
- alô?
- nada nem ninguém, apenas tu.

a vida é um círculo fechado. foice alguma pode. ou quer. a mão, a maquiagem. brincando de magia. um post it.

"desisto. nada mais.
não posso. mas queria.
meu rosto desconhecido
por sobre a máscara
é o que te dedico".
ele abraça ele. tão literatura. assim se faz. olhos encontrando boca. mãos e pés. tudo assim. entre o liso e o dobrado. entre o lado raso e o fundo do travesseiro. ali as peles se trocam. tão feito papel fino, de escrita fina, nas finas linhas. a seda desliza. é cabelo. é o gelo do toque das pontas do dedos. assim. de lado. assim meio de frente. assim encarando o rosto do medo. o próprio do pesadelo. assim, meio poesia proscrita. assim abandonado ao desejo. assim ao encontro de si. no silêncio.
é o que resta. sempre resta. assim. as pessoas atravessa a tela. fazendo sombras onde não pode haver. ali, no centro da história. a mancha aperta aperta o vazio. sempre ele. o retorno. e nada mais. e fico aqui. tão século XIX. e pensando. não mais naquele. nem neste. mas nesta luz elétrica que rebrilha dos bondes na rua. daqui. londres, escrevendo. de paris escrevendo. de qualquer lugar. morrendo, devagar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

axioma-espelho

Por que preciso sempre saber o que pensas?
assim, toda essa reflexão
este corpo posto
refletido
o pensamento que atrevessa
e cai
mas sempre
Por que preciso sempre saber o que pensas?

roteiro

(obstinadamente) para andrea.

aqui
paris
ny
london
moscow
l.a.
bangkok
roma

se me entendes
dobra
a coisa, esta,
que sabes que há neste aqui
neste desejo compartido de dois
de um, e muitos
assim
palavras dadas
olhares escondidos
na redoma
sobrevivemos
apenas
sem silêncio
sem rés-piro
as cartas se põe ao largo do corredor. o espelho velado olha e não vê. não pode. a imagem feita na tela às pinceladas sutis que insistem num tempo dentro do tempo. um tempo mais rápido, feito turbilhão. uma onda explode em cores. em brancas cores. a cor que abre no fundo dos olhos é feito o desejo da pele. o desejo que arde devagar na ponta dos dedos, nos lábios. no vazio. as coisas rodam. rodeiam. aprisionam. assim. lentamente pego de surpresa por um envelope fechado. a escrita suspensa nos cortes bruscos de uma mão bárbara. bem germânica. não sabe destrinchar a coisa delicadamente. o faisão se faz ovo frito. o champagne é água. tudo gira e redunda que meus torrões de açucar não se firmam. há uma corda. para pular. corda bamba. onde todas as palavras babam bambas e sem corpo. as cartas, no entanto, restam intocáveis em seus envelopes invioláveis. até quando um envelope poderá não ser maculado por estes dedos de facão? não insisto no desenho. coleciono as cartas. todas fechadas enquanto espero aquela cartada final. que se abre sem juízo, pura alucinação, no fundo negro do céu nas profundezas do mar.