sábado, 23 de maio de 2009

entre as cores caídas
da aquarela perdida
um cubo de penas perfeitas
paralizadas no ar
ali, no ponto, o ponto
em que o ângulo perfeito
se esconde do olho
e fita
as estrelas vazias
e na luz de ausências
o verde amarelece
e anjos esquecem seus nomes.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

terça-feira, 19 de maio de 2009

A esfera do crime e o tempo da dança

Tu viens d'incendier la Bibliothèque ?

- Oui.
J'ai mis le feu là.
Victor Hugo - A qui la faute?

O que difere Madonna e Beethoven? O que têm em comum? Como passear neste espaço em que o corpo se põe para além do corpo e que no final não interessa senão como o vazio de sua própria suspensão posta num amanhã que é o amanhã do dia para morrer? Em um filme, que não importa agora, a cena se arma na impossibilidade de dançar Beethoven. O personagem, que deixo aqui sem nome, afirma: Madonna se dança, Beethoven não. O que se quer aqui é pensar tempo, ritmo e movimento no limite do corpo, ali onde o corpo falha. Onde o corpo não se sustém. Onde a perna não sobe. Onde Nijinski se torna impossível como o cometa que anuncia o apocalipse. Never more. Não agora. Como fazer a dança como um cinzel de Rodin? Como capturar a possibilidade de falha onde só há falhas. E se o ballet não puder se deixar como pas de résistance em que toda pirouette à la seconde esconde mais que um verso e o reverso de um passo que só espera pelo próximo passo de uma sintaxe que é posta como fantasma no fundo da retina que detém todo o poder de uma verdade que não há no corpo que dança. Analyse this. Escrita em cores = escrita de luzes. Coreografia. Coro-grafia. I'm gonna break the cycle. O que resta é o choque de séculos como o choque do braço que cabe no seu movimento. Indigência. I'm gonna shake up the system. Impossibilidade retórica do corpo sem maquiagem. I'm gonna destroy my ego. A dança mata o corpo para no corpo assim capturado nos seus dínamos se suspender em arcanjos e impossibilidades líricas de violino pausado em passeios... en promenades. I’m gonna close my body now.

Post-it

Post-it

correspondência

palavras deslizam rumo ao centro
buscam pela casa vinte-e-cinco
vozes ideais, puro desejo,
sobras apimentadas num beijo.

domingo, 17 de maio de 2009

à savoir l'idée

A un poète aveugle
um mês antes de flaubert
(hélas, attriste ta maison.)
numa palheta de cores curta e asséptica
de estrelas opacas e negras de crucifixo
o corpo se deixou pintar
e assim, território de colunatas
sentado na beiradinha do mundo
no escuro átrio esquerdo
ao lado esquerdo do pecado
a matriz dessa mão sem dedos
entrelaça o próprio do desejo
fostes paras águas
sem a camisa
a marca de uma pele não-marcada
(ô toi d'où me vient mon bonheur !)
três séculos que se chocam no território em que apenas as pedras se sustentam
houve o desejo, os laços
e o não
o calendário pegou fogo
- penas de victor hugo -
bel ange, un joug te tient captive,
não são as correias deste impedimento
mas este fundo raso de espelho
que impele e insiste
ôh toi d'où me vient ma pensée,
cinzelado em verdes e vermelhos
na escolha da opção última
fort intimidantes
sem sorriso
só soluços

sábado, 16 de maio de 2009

Druida

na luta de palavras
as sombras que restam
não dizem e se calam
ali no centro do mundo
no centro da terra vermelha-roxa-amarela
sem leilões
cabe ao confesso olhar
um abraço de árvore encantada
sem duentes
com três quartos
de poesia
1/2 de vodka
alguns pedaços de distância
tudo para adivinhar um pouco
entre as vísceras do medo
o que resta do sonho
no labirinto da linguagem

Desejo

ao som de Mozart
o íntimo soluço da escrita:
um cartão-postal de Mallarmé
com um não, talvez:
encore.
dois traços perpendiculares de escrita
suspensos entre os andaimes gelados
pelo frio do corpo caído
linhas modernas e caixotes empilhados a um canto
o mundo em maquete dissimétrica
as cidades se despem de si
o morro abre as veias e diz
de si
o futuro residencial marcado pelas três linhas
escritas pelas fezes soterradas de algum homem
de sambaqui
e ali, no morro, o samba
grita
nas entrelinhas
as estrelinhas dos olhos meninos
vêem o que de perto não se vê
não se diz mais nada
exige-se o pincel suspenso
a pena suspensa
as marcas do corpo
o choro é engolido
o diário queimado

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Profa. Helena

na guerra da classe gregos e troianos se armam. a mulher mais bela do mundo. tem giz. tem pó. tem a arrogância necessária de um salto alto. a potência de quem se equilibra na agulha do mundo. detesta alguns mortais e no passo justo da saia justa. Chez Chanel. cabelo em coque alto. olhos de mar profundo e imóvel. olhos glaucos de quem insiste em lentes grossas de um mundo borrão. há o fundo da sala. o burburinho. a réclame. as pautas. as linhas. os caracteres. o que resta. pensa a vida última da sua biblioteca: duas dúplices bibliotecas de livros sem capas e com fios desencapados. odeia os risos de nada abafados atrás das portas e embaixo dos tapetes. falsiforme indecisão de quem muito sabe. arroga a palavra, alisa a barra da saia. cansada. despenca. um império se destrói. o que resta é o pó e o cálcio dos ossos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

vinho. água. sede. muita sede. tanta sede de mim. desta janela em que os carros passam convidativos. ao longe. três andares acima. tomando sopa quente. a sopa quente do inferno. um amigo insiste: há um caminho. na janela em que entreolho o poema, não há. há a esperança da força na sopa. algumas palavras. uma falta. a velhice que dói. a biblioteca que pesa. pesa muito e com força e raiva. de coxas fechadas. quase nu. escrevo da nudez da janela. soupe à l'oignon. água. sede. cães ladram as cãs e vãs dores prematuras da madrugada. sem ladrões. o cartão corre levando um nome e tirando todo o dinheiro. deveria ter dado uma resposta. mas ainda dói. o martini adocicou baratamente os lábios e sequestrou o desejo pelo par de óculos. a sopa queima a consciência do inferno. página eternamente em branco na procura do último suspiro de fuga. cigarro. fumaça. o que insiste dos pulmões contra o resto de brasa. brasa de quê? este fogo que se ausenta e se marca numa arquitetura que sem voz em um último momento fala. fala de mim p'ra mim. a voz que quero. como chegar até lá? os mapas se desdobram em filosofias de engrenagens. há a imagem do rosto. belo rosto. dor no peito. fumaça. martini. tosse. vinho. ardência na garganta. cigarro. cigarro. cigarro. a sopa esfria como a vida. corpo que se expõe na janela. nenhum carro. nenhum preço. a aurora luta com a estrelas - o anjo de jacob dá a última palavra. resta à espreita a espera do sono. o cadáver almejando um corpo barroco longíquo num tempo futuro que se aproxima.

terça-feira, 12 de maio de 2009

jogando ao violino

a Naruhito
entre sedas despertas
a borboleta imita a aranha
e tece no arco as teias
o coro em silêncio revolto
na grandeza de notas maiores
de um romantismo ocidental
a luz turva do sol
de um céu de alexandrita
verde e vermelho
Beethoven é um andarilho
de nove tons
a música adoça
o salão
onde samurais velam
espadas vivas
e sanguinárias
a orquestra ordena o mundo
em três gestos
simulados
sinfônicos
sintetizados no gesto
da nobreza que ressai
ao som e ao corpo
entre tom e notas
suspensa

segunda-feira, 11 de maio de 2009

murmúrio

דלילה
dalila grita na noite tramando as tranças do ódio com a carência de anjo estranho, os cílios alongados pelo desespero. as vozes em torno, dentro e fora ecoam - estrange - as luzes avermelhadas da retina cintilam oportunalmente em código morse. il n'y a rien que je veux mourir là! os pontos riscados num céu mítico. céu ao inverso: os códigos das portas do inferno. um golpe de dedos rimbaudiano sobre o tear vazio. nenhuma harmonia posta em colunatas de uma vitória vendida. como dizes, aceito. como fazes, eu passo. quando gritas, insisto. quando assumes, sumo. o pensamento se distorce, dispara. to a reason. dalila uma bacante de pratos vazios, insiste em banhar os cabelos perfumados nas águas de caronte. as vozes da clínica recuperam-se. precisam se curar, largar o corpo que as aprisonou nas paredes úmidas. decola. como olhar o vazio da vida na plenitude da obra. estiléticamente dalila escreve e se confunde: a orgia babilônica em ruas de paris (que se repeuple). no canal que liga sujeitos, o dente que dói, a nevóa que abre e irrompe da alma, cálice partido, fundido aos sujeitos e dentada de medos, corre e corrói. mas nua. nua com nervos nus. as estrias estiradas sobre a mesa. a força cilíndrica que torce e responde elétricamente. fibras de purkinji. a mulher que trai a lei, suprime o juiz, reescreve o código. a língua sob suspeita na saudade da flor.

domingo, 10 de maio de 2009

os livros saíam
da manga
e dos orifícios
com os ossos e folhas
d'ofício
e, coringas, encaixavam
um universo feito de
som, caixa, folha e eu

domingo, 3 de maio de 2009

telegrama parafrásico

a Mr. A. C. V.
Um coração em acidente, uma veia que estoura: xícara de chá vazia e nada mais. o café escoa ralo abaixo com as últimas gotas de esperança, abandono Poe: para nevermore... nevermore... há uma insígne dor de calo, calo de salto alto que insiste.I like Chopin, é o fundo da cortina. Todo o andar de bailarina com coque desmoronando. começo a ter um vazio de certeza. Um vazio que talvez diga não. Encho a xícara uma vez mais, nas longas curvas, os longos dedos de unhas roídas, ali onde se esquecem as fumaças do cigarro. Sarah me oferece um luck strick, há esperança neste sorriso horizontal e olhar que fura almas. piscadelas para afastar o mal. Onde estará meu whisky, reclama meus olhos embebidos na fumaça. Renegando cérebros ao rés de ti com todos os seus AVCs. É hora de queimar as crenças: bruxas destruídas sem sonho e sem nenhuma literatice. Há coisas que doem como o vazio, como resto de açúcar, resto de 3 cubos simétricos de ilusão. Quando o cansaço bate, esqueço, iria escrever em francês, mas digo não. A publicidade me destrói. Eu insisto no não, no nada. Não quero mais três goles azedos de leite. Tento avaliar no nível das palavras as coisas que me doem agora. Terá algo mais? A insistência me cansa: more, more, more, datilograficamente, more. Nevermore. Odeio as aves. Os cães do inferno me olham de lado, lambem meus pés com uma língua em fogo. A frase hermética seguiu como um telefonema anônimo, cartão postal para Sarah contendo uma ária secreta até para ela (não lê, todavia canta, degraus abaixo como oitavas acima, sinfonias em X maior). Recitando e conjugando as leis, mescla num sorriso um último gole de café com vodka. Três estrelas. Cinco: vendido! Nenhum diamante. Os corações jogados no lixo, etiquetas roubadas e lenços de seda. Respiro Armani. Vomito Le Grand Vefour. Sem abusos entenda. O telegrama está perdido. Diga que não entendes e morres. Simples. Vivaldi toca ao fundo. Aqui, a xícara, os cubos, eu... as letras e a certeza doendo como punhal.

sábado, 2 de maio de 2009

cliché

Dicton du jour : La danse est le langage secret de l'âme.
escrevo e escrevo e escrevo
como judeu errante
caminha e caminha e caminha

ritrato

tenho face
rosto desfigurado por algum
bisturi de picasso
machando em tintas e vernizes
escuros e simplórios
mas rápido
e capturado
por revelação fotográfica
para além de luzes vermelhas
tem momentos em que a crua sintaxe requer e detém em si mesma o nó, vulto de força, que nos prepara a forca, n'outros tempos, gira apenas como os elos de uma cadeia onde gemem alguns fantasmas e caveiras, de tudo entre maquiagem e tinta, pensa, pena.. retém. todos os dias as letras surgem como exercício, quebra-cabeças de impossível resolução, cujas peças são brancas e insistem em nunca formar um quadro maior e com alguma beleza. é apenas a solidão do jogo. jogo que se joga sozinho, para ninguém. como quem brinca de acender velas no escuro para queimar velhos retratos. a escritura nunca parece querer que se complete, assim, as palavras concatenadas sempre correm soltas. quando há filosofia falta beleza, quando simplório, um lirismo campônio é o que resta, quando nobre e resoluto, hermético, se sequer livre é texto prostituído. a escrita não perdoa, não tem moral, não tem ética. é crime violento. domina. requer. acorrenta. impossibilita a felicidade. um felicidade terceirizada em erros ortográficos que moem o estômago, em palavras sem sentindo, palavras supérfluas de dicionário. o poema é um diário demoníaco. acordos, convenções, desejos, insistência, beleza. tanto de gênio, tanto de musa, nada de eus. o sub e o sobre se escondem. comum é o jogo de pedir um café preto, um cigarro e olhar a noite. beber. beber. café é como rito desconhecido. essência que molha as palavras infundindo algum paladar, um aroma turco de mágica bizantina. palavras postas em mosaicos de perfil. as palavras se enrolam nos drinks. não perdoam. jamais perdoam. leis de cunho ditatorial. sem gramáticas. sem reiteirações. apenas dêixis de uma necessidade que ser quer marcar a todo custo a ferro, tinta, fogo, arquitetura. sem tradição. sem deuses. sem mito. a escrita dilui os mundos em máquinas de escrever que sabem tocar a música. a música daquele que escreve e executa a partidura suada de tecer em notas insonsas e insonoras o texto que apenas aparece, sempre aparece, como quem não quer mais do que se mostrar exibidinho, mas aparece, deixa-se ali... estar ali... sempra à espera, sempre feminino, para ninguém. silencioso e murmurante, seios fartos e vazios. faz tecnocracia de dois dedos, respira, resvala e deixa-se se apagar. nunca será lembrado mesmo.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

work in progress

o relógio bate o ponto
no ponto em que salto
engancha no ganho
de algumas notas
de aprovação
a passarelas das ruas
entre holofotes de negro
e lascivo pudor
em que as bochechas rosadas
de pó da signorina
-beladonna!-
se enviezam
e não barganham
o preço é o que é
sem juros
sem cartões
apenas desejo
serviço domestico:
cama, mesa e banho
o suor escapa
a sede oculta nas calças
e na fadiga
oculta da respiração
o poema revida
se vende
e se mata.