quinta-feira, 26 de abril de 2012

branca de neve digere a maçã
(larica de pó branco)
cinderela usa all star
bela adormecida toma rophinol pra dormir
a bela passeia com a fera na coleira
dominatrix
o espelho é uma webcam
a bruxa aplica botox
o príncipe é transsex
pocahontas partilhando um baseado
o caçador tem uma arma pequena que há muito tempo não dispara
fadas madrinhas com cartão de credito
zoofilia na corte
canibalismo na plebe
cartomancia no clero
histórias de ninar substituídas por gemidos comerciais de uma transa rápida
(non sense)
gozo de ectazy
el dorado é um beco sujo mal-iluminado por lsd
contos de fadas pós-pós-modernos
morde devagar meu lábio enquanto com a mão espedaça meu coração de cristal
minha maquiagem borrada não vale um poema
a verdade entope o ralo do olho
nao choro enquanto deliro
durmo de calça jeans
(apesar de que um garoto me ensinou que toda calça jeans tem um zíper)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

estou aqui, lençol de seda rosa, os pinceis na bolsa, mala aberta. decidindo. meu pescoço dói. vinda rápida à fazenda. sou sempre aquele que escuta, e isto apenas. chovia há quinze minutos, não chove mais. cansei de ser aquele a quem enviam os emissários para pedir ajuda. recupero uma imagem: pitonisa delirante, virgem solitária de delfos...
tentei recuperar a máquina de costurar de vovó, mas algumas peças estão enferrujadas. o que fazer com isto. preciso fazer algumas escolhas... correr... andar ainda mais. não aguento mais. este silêncio eterno. esta falta eterna do meu lugar. este desencontro de mim em mim. este sono que não vem. as dores que encontro a cada passo. eu sinto como se meu corpo estivesse falhando devagar, mas acumulando nas dobras e dúvidas, nas articulações interrogantes, este tempo de melancolia, que pesa, me arrasta, me força, como se correntes prendessem... talvez o mundo seja hostil. talvez eu não saiba mais nada. eu só queria me esquecer um pouco mais de mim.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

em termos de relacionamento, sinto como se eu não fosse uma boa carta, aquela que dá sorte e faz crer numa boa jogada. desenvolver esta minha metáfora me leva a termos mais sutis: não sou uma carta na mão, não posso e não quero ser uma carta na manga, não sou uma carta na mesa. não valho um coringa pra um jogo sujo, não ocupo espaços vazios, não emendo o jogo. não sou uma carta impossibilitada no morto. para os mais requintados não contribuo para um royal flush; para os menos elegantes não faço vezes de gato e comigo nunca dá pra pedir truco. afinal, que nasceu valete não se mete a rei, o amor não vale trinca. não sou um ás indomável, nem mesmo uma falsa dama ou um renegado nove de paus. sou, neste jogo, a carta fora do baralho, embora, em tese, qualquer carta pode somar 21.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

21/01

...( é nestas noite em que meu corpo esgotado não consegue desligar, apesar do cansaço, e gostaria de acreditar, mas é um luxo que não consigo suportar. e tudo dói. o silêncio, a solidão, o abandono... sobretundo os pensamentos. na ânsia de quebrar o silêncio, já que não seria de bom tom cortar a madrugada em um grito, não se deve acordar os fantasmas, nem os vizinhos... grito um grito seco e abafado, sem voz e escrevo. apelo a um outro, a alguém que rompa a cadeia, como uma algema, berloque precioso, recoloco o problema do desejo. mas como num delírio num movimento sádico nunca poderei saber se o outro está lá, presente, na ilusão solene de uma resposta ou na conjunção banal de alguns caracteres. e a dor irrompe, engulo o grito, mudo o conceito: solidão > solipsismo - para manter alguma resistência. coloco o ponto final. opto pelo inesperado e pelo silêncio. tão mais penélope de ítaca que helena de tróia. cuidado jasão. cuidado creonte. medeia ainda escreve.)...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Promenade

Não posso dizer de outra maneira, nem mesmo desta maneira. Meu pedido de socorro deixado de lado, os bilhetes que não poderiam ser queimados… sequer existiram. Tu não passas desta sombra que desejo que assombre estas palavras. Olho o dia como quem observa uma janela, aprisionado entre os fones de ouvido e as páginas de um livro. Eu não te ouço, eu não te vejo. Sei que passas apenas. Desvio. É apenas um cruzamento, um sinal amarelo, eu de um lado da rua, você sentado em algum café tomando algo gelado. Faz calor… Grifo em amarelo umas duas linhas de Merleau-Ponty (“Os filósofos, dizem ainda os inéditos, é alguém que perpetuamente começa”). Gosto da frase, mas ainda não consigo avaliar sua dimensão teórica. É preciso saber impor o movimento, um além do ponto final. As unhas roídas que observo são as minhas angustias que me devoram a partir de minha boca que aos poucos se destrói. Oroboro. Quis deixar as garras crescerem, tentei recomeçar um romance… quantas páginas se seguram ainda? O peito sobe e desce, sem arpejos. Há quanto tempo eu venci meu corpo? A linha fina e segura do ballet prescinde do corpo, alonga numa harmonia com o horizonte, integrando a paisagem, fazendo do gesto, do andar, este estar sobre o mundo para atravessá-lo. Talvez por isto todo ballet seja um drama impossível de final feliz. Tanto tempo que não encontro um trevo de quatro-folhas, acho que perdi o vínculo. E se eu voltasse? Mas não sinto nada além deste vazio que me atropela. Meto a mão na mochila, saco um livro, leio rápido, tenho contas pra fazer, tabelas e gráficos para terminar. “será que erramos de novo? rimos menos e menos, ficamos mais tristemente sãos. o que queremos é a ausência dos outros. até mesmo a música clássica favorita foi ouvida demais e todos os bons livros foram lidos” – Bukowski. Eu queria acreditar que acredito, mas na mecânica dos dias minhas apostas foram à zero. Quisera não ter passeado pelos corredores da biblioteca alguma vez,quisera não ouvir o que me insiste pelas tangentes. Meu tiro sempre sai pela culatra e se prende no quadro diante de mim. La bella dona com uma bala presa entre os dentes. Não consigo terminar, não sei escrever. Um delírio me atropela em marcha ré.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Talvez seja hora de recomeçar a escrever, retomar a sintaxe fragmentária e obscura, embora nunca possa saber ao certo se um complemento ficou pendente ou não. É engraçado pensar nos caminhos que as coisas podem tomar, nas trilhas, no aberto, como circulação sanguínea, as palavras tem seu próprio circuito. Pensei em dar algumas diretrizes a este espaço… mas nunca consigo defini-lo em sua própria captura. É, não sou essencialista. Quando penso em desistir, deixar as palavras nos bolsos, nas mangas, ocultas debaixo da língua… os repentes acontecem. Eu gostaria de tentar escrever sobre algo ao certo, uma diretriz menos autobiográfica, menos sobrevivente, menos aterradora… talvez precise de um pouco mais de tempo para pensar para além desta voz egocêntrica que narra silenciosamente as mesmas histórias, sem alterar nem tempo, nem personagens. É a mesma cena congelada pela janela tantas vezes. Quem sabe possa encontrar ao menos as minhas perguntas.
sou o garoto dos teus sonhos
disfarçado de amigo.

estou aqui para além do teu corpo
apenas espera.

eu estou aqui
entre os pesadelos vividos
e sonhos não sonhados.

é no real que tropeço.