terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dois corações em tempo de tragédia

Prelúdio [1]

a Andréa

o salão está vazio, nem os quadros o habitam. na vitrola um dueto, talvez, ainda queira ensaiar uma valsa de Stolz. eu não posso fazer assim se abrir a última rosa do verão, eu gostaria, mas tenho o coração cansado como os pés descompassados. eu sequer posso te tirar para dançar. o tempo da dança já passou. está também passando o tempo da música. cabe-nos observar o salão vazio. meio-dia. as cadeiras ao inverso parecem estacas num amplo cemitério. eu ainda quero meu cavalete. não tenho mais voz para cantar, tu bem o sabes que reneguei esta voz rouca aos testamentos mais velhos, dissidentes e dissonantes. eu talvez ainda saiba pintar. segura este copo d'água. pintar diante de teus olhos esta última paisagem, última biografia, talvez retrato, não, sente-se, apenas olhe como os traços dançam no silêncio. esta é a maneira de te deitar, com tintas, meu abraço.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

colando um abraço

ora, sol? o sol queima na pele, como queima os contatos. a pele friccionada contra a pele. tu ainda acreditas que estes brilhantes são verdadeiros? não te enganes, menina freudiana, fazendo vezes de deusa e mortal, tuas asas não são para voar. assim, joga a echarpe, descobre as tuas pérolas. não esquece a sombrinha: mesmo num dia de sol pode chover. eu te digo, tu não me ouves, não me escutas. eu te aprisiono no meu quadro. o cinema é um lugar vazio. tua cadeira está lá, na amplitude, como num cemitério. eu não poderia te guiar na escuridão. não acredito em fantasmas. não posso deixar este lado mefistofélico sem tentar comprar tua alma. eu sei, o preço que valemos. ao mesmo tempo, sabemos o que não queremos. como sair da vitrine? como garantir o sorriso ao final do abraço? como saber que entre os braços, num mesmo abraço, não restará o silêncio apertado num frio mentiroso, num contato forçado, tenso de 110 e 220 w. o choque. não. recuso este espetáculo, prefiro minha cadeira de balanço, a loucura frenética das minhas páginas, o abraço branco do livro que é labirinto onde me perco. tu és aqui meu fantasma. não posso não dizer que sei o que queria te dizer, mas estabeleco a resposta como um abraço. é minha única possibilidade. responder aqui é abraçar o vazio, que se faz quente, assim como os saltos partilhados. não afrouxaremos nossos laços, assim, as marcas de batom na taça de champagne. isso somos nós. marcas deixadas como uma mordida na pele: a lembrança que ainda insiste e que nem mesmo o espelho entende. desliga as flautas e os sopros, apaga a vela, fica no escuro. de tua treva distante, nem mesmo eu posso te salvar. mas ainda assim, posso dizer qual salto podes usar e rasante irromper no horizonte do dia.
_______________________
resposta a: http://esquecodemim.blogspot.com/2009/12/um-abraco-partido.html

ballerino

«quanto tempo dura o dia?»

os saltos na mão, pronta para qualquer assalto, os óculos embaçados, os pés nus no asfalto, ela caminha. queria ter pr'onde ir. uma direção. quereria talvez, saber-se no quente, para além dos lençóis. o suor se mistura com as lágrimas. sal com sal. o amargo de dentro com o azedo de fora. um gosto ocre na boca. os faróis passam através. as mãos doem mais do que os rasgos que o asfalto faz ao arranhar a sola dos pés. ela sempre soube como sofrem os pés. uma cicatriz a mais não significa uma dor a mais, muito menos ainda que a dor passou. uma cicatriz a mais é como um vazio a mais: um lugar de espera. o céu negro, sem nuvens. eu tenho me afastadado tanto da imagem, aqui resiste um sujeito que esconde uma lira estranha nos porões da casa. o que se pode esperar? nenhum táxi. nenhum verso. o demônio de dentro sobrevive às alturas, o coração acelerado resiste em queda livre. o bem, o mal - é tudo igual. depressa, na névoa, no ar sujo sumamos! não há motivos para insistir. o salto tem o bico gasto. ela se rebaixa aos cuidados com o que se vê diante dos canhões de carga dupla. os olhos ensaguentados em dor são míopes apenas. se tu quiseres desistir de mim, insiste ela, ainda tens tempo. eu gosto de ti como quem gosta e apenas. eu sobreviveria assim. certas dores apenas doem, mas não matam. há um dia horrível. os marcos da vida. se tudo der certo, apenas me espera, me acena, me dá o meu abraço. sobretudo, guarda os meus beijos. eu quero você tanto bem. eu não sei de deveria acreditar nesta latência de cores, eu não acredito. mas não quero desistir de escrever este romance como possibilidade última de ser postal. e nem podes me enviar o postal que eu desejo. há o baú singelo das lembranças no poluído dos ruídos. e eu nem saberia descrever o teu perfume. quem vem chegando? há um tambor rufando, pessoas felizes. mas do lado de cá a treva insiste. latente, debaixo do sol quente, das ondas do mar, o bucólico irrita, o lírico enjoa, o sem-nada oprime. há uma certa angústia premente. tudo parece tão simples, como o caco de vidro que acabara de lhe penetrar a sola do pé.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

gemido

assim, um copo a mais, um palavra de menos. engole no seco esta lágrima perdida no infímo do silêncio. assim, não se pode dizer assim. como se faz, como se gira, como se entorna a bebida. esquece as páginas. elas nem sequer foram tão importantes.
ele, usando os sapatos da mãe, passa o pó diante do espelho, rímel, lápis, escreve na pele aquilo que não poderia ser dito de outra maneira, ainda, talvez, assim se sabe como se pode. o personagem salta no palco. tem fome, outras fomes ainda mais.
o labirinto é perto. o espelho é confortável, algumas vezes. silência com um gole de uísque ainda. o pé sangra. sangra como se fosse um rasgo aberto no externo. o peito palpita. anseia por um não mais.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Alma

Um pouco mais tarde, então quando eu estava na escola e possuía algumas noções de cosmografia, tive da alma a representação seguinte, da qual sabia que não era senão um puro fantasma, mas que não estava localizado indissoluvelmente à idéia que eu fazia desta entidade: de uma parte e de outra atravessado por uma longa agulha vertical, um desses feitos leves e secos chamados “colifichets [1]” que se inserem entre as barras das gaiolas para servir de comida aos pequenos pássaros.
É mais provável que esta imagem me tenha sido dada pela seguinte experiência, descrita por um livro elementar de geografia e que transcrevi aqui no que ela chamou [a atenção], sem me inquietar de verificar se a reproduzi exatamente ou não; uma massa de óleo estava em suspensão em algum liquido, atravessa por meio de uma agulha [2] que se anima então de um movimento rápido de rotação: entrando através da agulha a massa de óleo inicia um pouco de pressão esférica, súbita a ação da força centrifuga e se aplaca ligeiramente, fenômeno gracioso aquele que nós podemos conceber este que se produz na terra, que não é rigorosamente esférico, mas deformado de uma maneira análoga àquela em que se deforma a massa de óleo, por efeito de sua rotação autora dos eixos dos pólos; se a rotação da agulha vem a ser muito rápida, a deformação se acentua, pois parte da massa se separa e forma um anel, assim como ocorre com Saturno.
Esta identificação da alma com um colifichet – ou ainda com um crepe de Chandeleur, atravessa de uma mesma maneira em suas partes – reposto, acredito bem, acerca da minha crença na existência substancial de minha alma, eu que não poderiam me imaginar como um corpo sólido feito de uma matéria pouco consistente enquanto isso, e de uma forma rígida por vezes irregular – sólido aninhado talvez em uma ondulação qualquer de meu crânio mais essencialmente aéreo ou sem gravidade, em relação com os pássaros (colifichet) ou os morcegos, e se pode fazer saltar num quarto escuro [3], isso se reproduz – perto do negro do forno, da fumaça grossa e das sombras - como sorte de vôo mal feito comparável ao bater de asas estrábico desses mamíferos noturnos.
_____
NOTAS

[1] Colifichets são pequenos biscoitos leves que se dão como alimentos aos pássaros, não encontrei equivalente em português.

[2] em alguns pontos a descrição, embora distante e díspar, parece apontar para o fenômeno de funcionamento de uma bússola.

[3] Optei pelo sentido dado por Renée Descartes, quando alude a ele Delacroix, uma vez que o uso dado a poêle por Michel Leiris dá abertura a um jogo semântico de nuances variáveis: sendo ao seu turno a frigideira, o crepe mortuário, etc.

______________


Tradução de um fragmento de L’âge d’homme, de Michel Leiris.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

PES-A-DELO (ou: pas au-delà)

(o relógio do coelho pensante parou).

a cabeça tem um abismo. prende estes cachos ruivos teimosos. uma condenação sanguínea atravessa em sonhos os olhos abertos. a nuca ressente uma mordida vazia que nunca houve. os cabelos, no barulho terrorista do ventilador, parecem pétalas úmidas se desfolhando ao sopro sedutor. isso se chama insônia. isso se chama rasgo de cafeína numa noite. abaixo do arco-íris a minha própria íris me engole. o buraco. ela se sente doente, o corpo morto mal (se) movimenta (n)os dedos. nua na cama, a pele ainda molhada pelo banho gelado, faz tremeluzir a silhueta à luz das velas dispostas em um canto qualquer. o canto do demônio devorador dos papéis raros. o vento gelado no seio alvos endurece os mamilos, o róseo das coxas se perde num gemido. há uma cicatriz no joelho esquerdo. assim como há também um tapa de um cafajeste suspenso na cara (isso faz algum tempo?). olho o agora. ela insiste dentro do vidro, o caixão de cristal rumoreja. a bela não dorme, por mais que queira. as cores não são mais propriedades, mas efeitos lisérgicos no astigmatismo que se prende nas retinas. ela se afoga. nada comeu. nada bebeu. põe o dedo na garganta, precisa vomitar. como tantas outras coisas, não consegue. todas suas velhas cicatrizes marcadas no globo velho de sua sala-de-estar doem angustiosamente. uma num tubo de ensaios. outra entre jornais. outra num labirinto sem alçapão. e tantos outros roteiros errados. ela quer se vestir com as páginas, insiste, empilha os livros, dispõe arquitetonicamente dos volumes. rejeita os dicionários. ela que sabe ter toda a compostura e feita musa, mais que uma estrela, ela que ainda precisa durar. as roupas desmoronam ao chão. restam os óculos como máscara que ela tateia à procura. entre sedas negras e fios dourados, ela beija sua própria mão. é sua dama, seu próprio cavalheiro. sem desejo. ela não é mais esta carne. está além do último círculo concêntrico racional. a matemática não contempla mais sua lógica. nem se poderia chamar de lógica este sentir. ela quer ainda assim tocar o ar. procura no escuro das chamas a sapatilha, mas apenas o pé dói. mas o coração perdido, bem lírico, dói mais. só restam os livros e a fúria tenebrosa batendo em um piano com as unhas longas. e batendo e batendo como sinos da madrugada. será um resto de relógio preso na garganta? ela tenta pedir ajuda, mas o aquário é mudo. bate uma nota a mais, segura o pedal sinfônico, mantém em sustenido este sentido na direção do teu grito de desejo. há calores se abrindo como péroladas serpentes no umbigo. é indefinível o vulto invisível ao espelho. eu quero ter teu beijo. um universo cindido em dois. ou mais, ou apenas, ou ainda mais. daqui eu seguro teu sapatinho de cristal e cuidas do meu pequeno de rubi. encontro no meio de um parágrafo. a datilógrafa suspende um soluço em busca da solução. uma aspirina: solução química. mas nem você com suas leis aparece. ou mesmo você que carrega livros entre os arranha-céus. ou tu que querias apenas estas mãos. o mundo se abre no fundo negro e refratário de um par de olhos. linda e selvagem, com toda a classe tornada salto-alto, ela se levanta, ereta, sustenta com equilíbrio a própria dignidade dos séculos. está sem os saltos, se dá conta. recompõe o cabelo. uma fivelinha com um pequenino diamante (presente de um amante, pudera....) prende as labaredas. os cavalos relincham à porta do quarto. o mar, aos poucos, inunda a noite. ela perfuma delicadamente o pescoço e os pulsos. morde os lábios para devolver um pouco de cor a este quadro velho. ao alcance de sua mão (o arsênico?) envia colibris com mensagens para além da fechadura. nua, se duplica em duas. senta-se diante de si, vulto recortado na escuridão de pedra, para jogar um xadrez musical. sente-se, ainda, doente. eu preciso insistir daqui mais uma vez e soprando deixo tuas velas no escuro. ela deseja um corpo distante, talvez deseje seu corpo. o signo do esquecimento dói obliterado no cravo seco dentro do 3º romance, 7ª prateleira, balzac. respira, ainda vive. está acordada. é preciso implorar, por favor, Alice, dorme logo, meu bem.

Arquivo do blog

Seguidores