sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

estrada

Del camino a mitad de nuestra vida
encontréme por una selva oscura,
que de derecha senda era perdida.

praticamente uma criança atravessando uma rodovia. assim o quadro pintado se borrava lentamente no vazio de um abraço. com todas as marcas e dores se tornar impossível ser esquecido, mas ainda assim o retrato insistia em se esquecer. a vitrola ligada. o vazio dos corredores, vazio de dor e fome. vazio de toque. sem corte, o sangue apenas escorria. um gato fluorescente brilhava em azul e lilás. sem surrealismos. marcando o compasso. tem cortes que não doem, há dores sem cortes. eu queria apenas que o quadro apertado no azul longíquo e de fala rápida não se esvaisse assim. que se suportasse ainda um pouco mais. eu, talvez, esteja destinado a cometer meus erros, sem pedidos de desculpas. o interruptor a direita desliga as luzes de fora, este aqui a luzes de dentro de mim. e assim o fantasma caminha pisando em cacos de cristais. as taças doloridas que guardei. um faquir dentro de mim. uma linha feita equílibrio para os passos postos em dança. um acrobata bêbado que se faz criança mergulhando em papéis. eu precisaria apenas daquele bilhete, aquela passagem. eu sinto, lentamente, com o rumor dos carros que a morte vem devagar, virando ampulhetas e olhos. sem grades e grandes esperanças. eu apenas espero. Penélope cega fiando o fio das Parcas.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A queda

Para Andrea e Aline, que me sabem ler.

“Vestimentum tuum candidum quase nix, et facies tua sicut sol”.

Meia-noite. O corpo dolorido, os sapatos, as costas, a superfície da pele, o profundo dos olhos. Um corte pendente na coxa esquerda, um hematoma nas costas. Sem marcas de unhas. Apenas o silêncio vermelho nos lábios. O desejo escuso mergulhando e lavando as mãos nos desconhecido. Sabia um pouco de matemática. Não que fosse necessário, não o era. Uma floresta crescia no lado direito. O labirinto se bifurcava. A dor tatuava em flor as cores escondendo as cicatrizes. Voltar atrás, permanecer aqui, voar para longe. O abraço amigo ainda aquecia um pouco, mas o verme escuro corroia dolorosamente. E de dor para dor, repôs os sapatos nos pés. Era preferível sentir o físico sangrar, e se sagrava muitas vezes, vendo os filetes vermelhos na coxa. A navalha oferecia uma ferida suportável no lugar daquela jamais vislumbrada. Não gostava das marcas definitivas, temia cicatrizes¸ mesmo as que não se podiam ver. Agora optava pelos oito centímetros de vinil preto. Escarpin. Talvez a tulipa solitária que pendia ao lado do livro que lia sobre a mesa de luz, sobre um desenho mal-esboçado, entendesse. Longas silhuetas solitárias. Traços finos de grafite como reflexos de corte quase que diamante. Gostava de tulipas: simétricas, magras, esguias, elegantes e somente intelectualmente feitas flor. Sem banho, sem maquiagem. O jeans feito dia na noite. Antes de cortar a madrugada precisava atravessar um limite. Sair do quadro. Atravessar o impossível da fotografia. Como desejar aqueles olhos distantes? Uma lembrança mentirosa, que nunca existira, fulgurava como botão flamejante. Não mais que um beijo, não menos que um abraço. Talvez pudesse ler nas entrelinhas o sonho impossível. Havia descido um andar, optou por voltar. Subia os degraus ainda como se descesse, voltava para seu círculo infernal. Cortinas cerradas. Sem luzes. Apenas o som dos insetos preenchendo o calor. Era preciso mergulhar nas trevas. Paratum cor meum. A porta cerrada. Duas voltas na chave. Tirou os saltos. As veias saltavam azuis. Sempre gostara de azul, talvez por isso gostasse do escuro. Um escuro fundo do mar ou de noite sem estrelas. Banho frio, violento. Uma noite para parar com as delicadezas. Queria estar longe, lá com a sombra distante que era apenas tornada voz. Sem torrões de açúcar, finos chocolates e champanhes perfumadas. Um caractere que insistia em não responder cartas ou postais. As cartas sempre voltavam. Não rompia os selos velhos, isso a faria se sentir como um dos cavaleiros do apocalipse. Não as enviava novamente. Acumulava, como as rugas no canto dos olhos, os papéis nos cantos da gaveta. Assinando solenemente com a grafia dura, simples e rija: o nome. Havia papéis que nunca chegavam a seu destino como nunca voltavam. Era assim. Talvez fosse um pouco de sorte. Mas imaginava demais, um beijo a mais. Sem excessos. Simples assim. Tocando longitudinalmente um rosto tomado pelos quilômetros. A distância pode ser estelar e precisa. O que faria ainda se estivesse aqui. Nua, corpo molhado, tirou os brincos de pérolas oblongas e oblíquas. Sacou a navalha da gaveta. Desenrolou-a do lenço de seda. Charles Jourdan, como os saltos. Não que isso devesse significar algo, mas poderia. Talvez até signifique. Seda e pele macia se confundiam nos amendoado dos olhos, apenas a navalha diferenciava. Cena em sépia com gotas rascantes em púrpura. Quase que azul. Talvez preto. O istmo de si se abria palpitante. Um nome posto na bandeja como iguaria rara. Um ás de copas explodia em fogo na mão de uma falsa cigana com espanhol de língua dobrada no andar de cima. No andar de baixo a morte optava entre o AVC e a parada cardíaca para uns 90 anos, sem nome e rosto. Apagavam-se os números. Um último recado. Aqui. Neste andar. Escrito rápido na fumaça do cigarro. 30 segundos. O cômodo não era cômodo. Sem tempo e sem pressa para as chamas e a escuridão se espalharem pelo chão e desvanecerem. 25 segundos e contando… cirurgicamente contornando e contando.


“Praebe mihi cor tuum”.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

do que retorna X

meio descartes
meio descarte
sem cartas
na literatura a admiração efetivamente desempenha o papel de prelúdio do amor.

do que retorna XIV

Sturm und Drung

werther ao msn – verte:
um mistério indecifrável
esta primavera que me aquece o coração, mas estremeço de frio
o jardim é modesto, foi projetado por um homem sensível
melusina, reponde
em nome do céu, amigo, mantenha-os longe
dou-lhe tudo o que pede
mas não diga a ninguém
coisa bem uniforme, a espécie humana
esse sentimento me acompanha sempre
sim, ainda leio homero
Wahlheim
um anjo, ora…
ao fazer seus desejos ele se aproxima dos amantes de penélope
não, meu coração não é devasso. é apenas fraco. fraco.
wilhem?
tens ainda a lanterna mágica sem luz?
minha força de expressão é tão insignificante.
três vezes comecei o retrato de lotte e três vezes me envergonhei do esboço.
fiz-lhe apenas a silhueta, tenho que me contentar com ela.
ora… sempre resta Albert
onde estará as pistolas?
o perigo nunca se deixa ver inteiramente
paixão – embriaguez – loucura
28 de agosto
como poderia a letra fria e morta reproduzir essa flor celeste da alma?
não há nada mais perigoso que a solidão.
o homem feliz é uma invenção nossa.
8 de janeiro de 1772
sim,sou um simples viajante, um andarilho que percorre a terra
21 de dezembro
o sono dos mortos é profundo.
seja homem e não me siga.

se me sabes VI

extreme makeover
todo carinho do mundo
se quiseres
bora pra ibiza comigo?
beijo

do que retorna VII

na pressa sou dado
como fácil
dadá
não gozo
cuspo palavras
em espasmos virgulados
auto-consentidos
no fim
o poema não paga
me dá três tapas
na cara
e me joga na rua
da amargura

do que retorna VI

é meio torto
à direita
espero na fila
minha bochechas ardem
não tenho como entrar
não há mais entradas

sem morrer sentes V

minha mente está terrível
andando de ré
esperava uma resposta
para uma pergunta que não fiz

do que retorna V

liguei para longe
acertando o jogo
de leques e sorrisos
perdi a piedade que pedi
em vermelho firo
fixo em papel
é teu corpo infinitamente que dobro
e destruo

se mal sabes IV

há dias em que apenas um abraço faria diferença

do que retorna IV

com parcimônia
de olhos fechados
misturo minhas doses de amônia
te arranco as cordas vocais
faço três laços
arremesso

ser mar sabes III

total.
dia estranho.
meu pé tá um lixo.
ainda dói.
não consigo dar jeito.
as coisas voltam.

do que retorna III

odeio as voltas do mundo
degraus de igreja
minha opressora política d’arte
regur-grita
teus últimos palavrões
indi-gestos e indie-gentes
resta apenas meu telefone
ocupado

só me sabes II

dores da madrugada
escrevendo ainda
ouvindo porcaria
venta muito
tenho fome
mas não posso

do que retorna II

odeio estes cabelos pintados
de louro
e óleo
se me metes uma arma na alma
lanço-te o inferno de dante
na cara

se me sabes I

dia horrível.
noite horrenda.
a insônia ainda me mata.

do que retorna I

aliso os cabelos
como verso
escovo devagar
e bem mais de perto
falo rápido
engulo minhas imagens
de som
sonhos de longe
(mais do que pensas)
que afogo num afago
quebro em mim o grito
da última palavra

au vermouth

Um desenho hoje fugiu da caixinha de sapatos. Entreaberto, feito lembrança. A luva jogada a um canto, agora respira, afoga-se em ares de realeza. É preciso parar. Os olhos encontram uma música desconhecida, assinada por Oscar Wilde. Eu nunca soube que tivesse isto. Quem m’o deu? A mente tece mil teorias, mas nenhuma satisfaz porque não há o ritrato da memória. Sair do inferno para perto das estrelas. Há alguma mudança de itinerário. O táxi na esquina, o bar no outro. Uma igreja no meio do caminho. A música bate estranhas, sem campainhas. Eu não sei quem eu queria que estivesse aqui. Não gosto dos fogos de artifício e martelo as paredes, para encontrar meu cofre. Aquele em que guardo o não-acontecido. A voz gruda no teto. O palato desaba, mas as pálpebras fixas na janela oeste não fazem acontecer. Eu não tenho uma sacada de onde pular. Minhas cartas voltaram, portanto, elas foram, não te encontraram e voltaram. Eu escrevi para mim. Preciso chamar a polícia. Caveiras à postos, good time. Sede e fome eu tenho. Todo o lixo das lembranças ontem. Os velhos diários, não existem mais. Eu os deixaria, como prelúdio, mas não. Chega deles. Ampulhetas terapêuticas para nada. Cansei. De órbitas vazias, sobre a mesa, o crânio descansa. Dentro dele, uma vaga luz de inseto passeia, sem idéias, apenas 24 horas de vida.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Breve Relato


Sob séria influência de Dalila.

Creio retomar o clichê ao evidenciar que algumas coisas marcam algumas gerações. Vinte e dois anos e quem poderia crer que ao ler um texto amigo, muitas coisas poderiam se retocar e ser retomadas. Tal como a autora deste texto, ainda em construção, ao qual tive acesso depois de muito perturbá-la, comecei a pensar. Tal como ela eu também atravessei o clássico curso de datilografia, do qual resta ainda hoje minha Olivetti portátil abandonada na fazenda, aos barulhos mágicos e das dores de cabeça da tabulação. Mas o objetivo imediato não era o curso em si, mas aquilo que poderia advir do teclado. O contato com a possibilidade. O computador, mais velho que eu, do qual poucas vezes eu poderia me aproximar, enquanto pai ou mãe usavam a máquina. O estranhamento dos disquetes bolachões.Se alguma criança hoje parece incapaz em pensar abaixo dos gigabytes, que aconteceria se caísse, por acaso, em suas mãos um disquete em que poderiam conter alguns bytes. Ou ainda, em plena era do 3D, se voltasse para aqueles gráficos paupérrimos, mas que nos deslumbravam em jogos poucos elaborados. Um diálogo possível, seria hoje, de uma criança que já sabe fazer os seus downloads na rede e escolher de um modelo de desktop até suas funcionalidades, ao se deparar com um disquete e perguntar ao pai do que se trata, este poderia muito bem responder: “filho, na época em que os dinossauros dominavam a terra e o homem habitava as cavernas, existia algo que possuía apenas 720 KB”, a high-tech-child poderia indignada perguntar quantas músicas de seu Ipod caberiam neste estranho ‘artefato’.Assim, meio que sobrevivendo a esta pequena Matrix sem dimensões, em que o tempo ocupa as noites, em que amigos se cruzam, em que as distâncias parecem tão mínimas, a mensurabilidade dos passos a um clique se torna crucial. Quem já não teve amigos importantíssimos que surgiram da rede, dos contatos, ou mesmo DRs infindas por conta de um recado estranho no Orkut, Facebook, whatever….Aos poucos, não apenas da silenciosa substituição dos talões de cheques por cartões de créditos, da profusão mágica dos celulares, das potencialidades2 de que dispomos ao alcance da mão. Todo pesadelo estranho de captura se torna diáfano, ou ao mesmo passo verdade, não que isso seja bom ou mal, é. E apenas isto. Afinal é inegável o quanto dependemos da internet e ao mesmo tempo o temor que ela causa em alguns (para aqueles meio- esquecidos basta lembrar o caso Bug do Milênio). Na realidade é impossível dizer onde quero chegar com isto, supro apenas a uma demanda, de fazer um paralelo, de caminhar ao lado, li algo, gostei, impossível um poema agora, mesmo que se dissesse eu, não seira um 'eu' tangente e talvez 'latente', mas que talvez esta experiência (de escrever aqui por trás de outro texto) possível de filhos do século passado, crescendo junto com uma máquina e, ao mesmo tempo, nos descobrimos, descobrindo-a, e sabendo-a variante e potente. É esta a nossa mágica, diferentemente dos pequenos gênios de agora, que já nascem com fones de ouvido e wirelles integrado, nós nascemos com este elemento estranho, assustador e fascinante.É para fazer jus a esta possibilidade que publico meu texto em meu blog. Impossível esquecer este detalhe.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Observatório

Como um livro que foi devorado em chamas, uma estrela sabe de seu destino na dor do escuro que a circunda. Os presságios não dizem as verdades eternas, giram e rondam as possibilidades de um sonho. Não há batalhas para ganhar, não há um corpo desnudo a descobrir. Não há um herói, Nero correndo com arcos e chamas, isto é tudo. O que caí é mais que as folhas das árvores, é o que insisto em não pressentir. O que se arrancar não são os olhos, o que palpita não é apenas o resto de vida. Nas páginas que se com-vertem o que jorra é além do doce do vinho. Um grito agudo sabe onde encontrar um resto de fôlego para um sonho a mais, mas um sonho não pode salvar. As mãos giram o relógio, forçando os ponteiros para trás. O que o fundo dos teus olhos podem escondem.

Um tabuleiro

"...uma luva foi lançada como duelo..."

Tudo não passa de um jogo plausível. O cavalo movendo-se rapidamente esquece seu cavaleiro. Não posso acenar. Não posso borrar o rastro cego. Minha dama à espreita tem as mãos manchadas do sangue futuro. Quem desiste primeiro, ao primeiro passo do pesadelo. Trocamos as luvas. Quem vencer poderá romper o silêncio. Talvez seja justo trespassar seus tímpanos com minhas derradeiras palavras. Jogando as cartas na mesa. O pôquer civilizado: passando o batom nos lábios, empoando as faces, como quem sabe e segue o roteiro. Minhas torres estão vazias de fantasmas. As casas não se preenchem de letras oija. Dê-me seus olhos ou apenas uma certeza. Meu jogo matemático não quebra regras, sabe que os brilhos e o tempo giram. A cada turno o fim final está próximo. A cada jogada suspensa, a cada peça que não moves, eu movimento três outras em outros três tabuleiros impossíveis de se sustentar. Tudo se enche de pó e terra. Faltam poucos palmos para os sete e o decreto final do vencedor se selado. O tempo que temos é o tempo de tuas respostas. Não sei se algo ainda pode ser feito. Tu ainda podes jogar as fichas antes que a roleta pare. O tiro não é a pior parte, pior é para quem vive que terá que limpar os dejetos e esconder um corpo. Há ainda sobre a minha penteadeira uma garrafa prometida, cheia, limões e sal. Talvez um convite em letras douradas. Clichê e brega. Dançar também é jogar. Eu te aponto as minhas pontas prontas como lança. Consegues me sustentar no ar por mais tempo que teus braços, supinando minha respiração, suspirando entre explosões de cometas. Minhas peças estão no ar. Espero seu movimento. Eu lhe entreguei meu rei, cabe a ti o cheque-mate ou a complacência de um último primeiro lance, para sair do jogo e fugir da moldura.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Um guardanapo

«não sei se sei ou se posso dizer seu nome»

Não é preciso crer. Poderia começar escrevendo que, na verdade, não havia te visto no primeiro movimento ocular. Esse sussurro não é meu. As pálpebras meio cerradas disseram não. Agora o corpo arde nas extremidades. Tu não vês. O suor escorre devagar encharcando a madrugada. Ouço a porta de um carro bater e uma mão de encontro ao vidro da janela. Os mosquitos me atordoam. Três primeiros traços: esnobe, inteligente, fútil. Talvez, só talvez, estejas certo. Uma mão insiste batendo e batendo como um inoportuno convite a um velório. Tenho punhais guardados em cada bolso, mas não te ataquei. Não dei as quatro estocadas que dizes que dei. Quando o faço, ainda que sem ser cirurgicamente, sem manchar minhas luvas de seda, sou eficaz, rápido e fatal. Está quente, mas isto não é o suficiente. Eu te queria aqui. Ainda. Querias me lançar andares abaixo. Agora: eu queria esbarrar em ti. É o escuro dos teus olhos que faz sombra no vazio de quem não veio. Não são apenas as cortinas do carnaval e meu dominó multicolor que fazem dos retratos meus próprios retalhos. Queria apenas saber o porquê de não ter, destilando as cartas, descido os degraus. Mergulho fundo no único sonho que tive e no qual tu estavas. Ralo de signos e sentido, apenas presença. (E ela disse: o jeito que tu olhavas pra ele!). Acho que isto que importa. Como encontrar alguém diante das prateleiras que se desmoronam, enquanto se pinta um rosto, faz um verso. Sem suspenses. Como manter ainda aqui, sem algemas, sem prisão, desejo ou sadismo. Apenas aqui. Dois, sem se confundir, mas dois que podem e tentam vivre ensemble. Eu apenas te quis, não num quarto velado à meia-noite quente de um céu sem estrelas. Sem bucolismos, não limpo a boca com palavras tortas e frases obscuras. Mas no convite que fiz. Triste, sério, sempre na defensiva: seria este o segundo olhar? Eu apenas te quis, aqui, comigo. Talvez fosse simples demais, sem comer algodão doce, acordando na boca a ferida velha do rolo de desespero no parque infantil ou o marfim feito poeira no ballet (histórias que tu ainda não conheces). Sei que consomes cautelosamente, não sei se digeres isto, mas embora não precises comprar, eu ofereço. Um presente. Também um agora. Sinto os calos no peito dos pés. Suportei. Ou ao menos tentei. Eles sabem, eu sei. De alguma maneira a história continua, mesmo quando não há peça. Não sabemos implorar quando os livros se encharcam e as tintas caem. Eu implorei. Meu banquete não tem pratarias ou mesmo um gole d’água fresca. A mesa lívida e lisa de medo sobre a qual eu me deito. Corpo à devora. Tantos dias em que as coisas não se aparecem e parecem frases com o mínimo de direção. Não há inocência em suspender um ponto com uma vírgula. Deslocando a tônica, mergulham-se os dedos em gim e respira-se. Duas vezes ouvi sua voz e não deveria pensar tanto assim em ti. E, não obstante, continuo pensando. Eu penso no gole quente de tequila, o sabor oriental posto nas palavras que eu penso que te diria, mas sei que não diria. Eu tentei teu rosto. Feito nas linhas da mão. (guardo os lápis, folhas, tintas, à espera, o esboço ao vivo talvez venha, melhor e mais fino que distância). Não desejo nada menos que um abraço, um café e um sorriso. Não deve ser difícil. Espero que me ligues ainda. Meu táxi me chama, tenho uma catedral para visitar. Não me importa se são quatro horas da madrugada ainda. Não caço borboletas, mariposa noctívaga, não sente perfumes, percebe e se entrega. É preciso aprender a nadar. Esse desconhecido que se afronta diante de mim e me seduz. Eu quis tocar teu rosto e tua saliva oriental com notas de pirâmide e mistério ostrogodo. Bárbaro desenhando capitólios em meu sonho. Sim, eu me importo. O brilho que dizes ter vislumbrado no meu rosto, antevi no teu sorriso. Pode ser que chova a manhã toda, depois faça sol e, tu, depois de um longo tempo acordado, venhas falar comigo. Talvez eu me divertisse trocando os copos na tua frente. Sem raios, sem dores, sem queimaduras, a linha do horizonte desenhando o mar. A cada gole um segredo. Eu ainda quero estar contigo, me deves isto. O sal marinho, o limão e o fundo do copo. A garrafa que te devo. A luz vermelha acendeu, é preciso deixar o recinto. Ainda aguardo.

De uma coroa

“O que possuem os reis que os súditos não têm, […]”.

As unhas roídas, os pés descalços, o calor e o suor. Sem cena trágica ou dramática. Apenas o vulto declinado com as luvas nas mãos. Um Shakespeare impossível de nobreza. Não é possível ir além do detalhe. Do traço negro sobre a pálpebra, da dor. Uma pérola a mais como um peso a mais. Um nome feito geografia na pele. O vulto do espelho desdenhando uma ruga a menos. A cabeça pesa para um dos lados, talvez para a esquerda. Tom sobre tom. Uma nota acima e um deslocamento na voz. Meu medo é uma ilha negra sem mágica, sem magia. Não é preciso que os olhos vejam. Só queria poder ver seu rosto ao longe diante da lente do meu telescópio de estudante. Uma estrela a mais no céu desnudo. Eu te abraçaria no fundo do reflexo, abrindo mais que a sintaxe. Bem melhor é perceber no caminho dos astros o reflexo luminoso que cega. Eu não sou outro, ou um outro. Espero. Mas não sou também ninguém ainda. Uma vida coberta de lama, acima das nuvens, medieval. Os machados e elmos destroçados por um tempo em queda. As minhas sedas machadas, o mínimo de classe, uma taça de crista trincada. Abro meu mapa sobre teu corpo, e meus lábios são o astrolábio que tenciona te guiar por estas águas inquietas para amanhã. Minha corveta não tem armas, eu sei que esqueces de mim. Enquanto o mar bate nas costas, na tua pele-areia, os lábios rosados onde distendo apenas um segredo que não posso dizer. Lanço ao mar minha garrafa com um grito preso. Gim e piratas. Meu palácio vazio e quatro metros quadrados de angústia por uma esperança, por um acaso, eu ainda te espero, antes que as flores queimem. O tempo aos poucos congela a sombra do meu rosto. O futuro será apenas um busto de gesso observando a porta por onde deverás entrar.

Bilhete

Eu queria poder imaginar com segurança, sem me fazer Ticiano. Eu não gosto de tintas amplas e de pouca verdade. Desfiando as teias de meu tear. É o que posso. É isto que posso, que tenho desejado, que posso apenas te oferecer. Meia-noite, a esquina, de capuz e tremendo de medo apenas. Uma mão branca vai te acenar, é tu quem deves escolher.

Nota mental

Eu esperava simplesmente isto e não mais que isto. Torno-me repetitivo com as coisas que não acredito e tu me fizeste pensar demais novamente. E eu penso pato-logicamente. Agora, meio cego, quase no escuro, escrevendo um rascunho num papel navalha, simplesmente esqueço. Aritmeticamente, tenho os pés mancos. “Quando?” é a pergunta linear que fica. Como não restar referência, aturdido entre a chama e o álcool. Odeio esta dor de estar sozinho. Sobrevivo aos fantasmas que retornam. Preciso aprender a dizer não, para dizer sim. Mais um logro trágico. Há o momento em que se suspende o tempo à espera de algum deus que ressurja de fora da cena e instaure o marco final. Mas não restam deuses ou mesmo homens. Nem eu. Talvez um brinde à Narciso, o último e único possível, enquanto flor que devora a si mesma, sem luz e sem reflexo. O que dói não é ausência, nunca estivestes aqui, mas o que ainda sabia olhar o relógio e suportar os giros, sustentando nas mãos a xícara de chá vazia enquanto mais um metrô deixa a estação.

Voyage

Mediterrané. Je parle un peu… ouis, très bien. Moi, je suis capitain de yatch. Un petit Rimbaud. C'est les vacances avant la saison. Tu as bien de la chance, donne moi un rayon de soleil. Seulement un? Aller 2, fais trop froid ici. Même pas un ours polaire aimerait etre dehors. D’une îlle pour l'autre. L'eté il fait 30 degres. L'hivert 10. Pas bien de fumer. Tu connais Slimy… tu as un aire avec tes lunettes. Si tu le dis je veux bien te croire. je vais vite prendre mon billet d'avion. Je suis sur que un va te plaire: beau brun avec beaucoup de classe, tres tres bon gout vestimentaire. J'en suis jaloux. Je vais passer 6 mois las bas, entre Cannes monaco st trop et la sardaigne. je vais chercher un bateau, bastia, un petit voilier, c'est un bateau a voile pour faire des courses, des regates. Aller avant que je parte. n'est pas du tout mal.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

o raso dos olhos

eu tenho apenas uma fotografia. talvez precise de um pouco mais. talvez não. escrevendo para afastar os fantasmas e males. mas não há nenhum mal. qualquer demônio atravessa a porta. não obstante, desenho, e desenho teu rosto. tento ao menos, capturando-o para que fiques aqui, no fundo azul sobre o azul dos olhos longíquos. não sei se voltarás ou como chegarás. apenas. medo apenas da faringite. não te assustes com os saltos no armário, eles não andam sozinhos. abrindo as coxas nas esquinas. não. e isto não apenas assalta no pesadelo pleno de figuras de baralho.
é no raso que te encontro, como quem procura pérolas num lago de sonho.
talvez encontre, talvez não.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Quanto vale um não

resposta rápida batida junto com a maçaneta girada rápida e a porta fechada. 06h57 da manhã. a vida poderia ser tão higiênica quanto uma noite num quarto de hotel. 200 euros. eu quis, talvez e esperei. poderia não tê-lo feito, mas criminosamente fiz e não ganhei. nem sequer um abraço. eu não poderia pensar de outra forma, não suspeita. a gente nunca corresponde exatamente ao traço de maquiagem diante do espelho. não há como apagar as linhas amarfanhadas dos lençóis insuspeitos e fazer o que deveria ser feito. sequer sei o que fiz. é um lugar de precisão. a gente ainda conversa: um tipo de não. inocente, deveras singelo. meu corpo não pode ser tomado na bandeja. um poder público que se ausenta num único gesto não-nobre e não-delicado. a garganta dói enquanto a pele queima a poeira de um azul imenso e profundo no escuro e na silhueta recortada numa luz televisiva. somente os fugitivos se vestem à sombra. é trágico fazer um mapa e trazer consigo. mas tem coisas que são precisas. minha mente lógica desenvolve o logaritmo. ainda há um resto de café da manhã e um banho a ser tomado.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

codicilo

“esperando flores”

Não há fogueira, nem mesmo água, mas é preciso atravessar o deserto. O fundo de mim se abre nas flores murchas de teus olhos e tudo o que sinto é o que dói em mim através de ti. Não é como se estivesses aqui. Tenho medo e isto apenas. Minha cabeça gira, violões respiram e transpiram as mágoas da madrugada. As garrafas são selvagens e giram no chão. O corpo nu confrontando as estrelas. Os pés em meia-ponta tentando manter o silêncio e ignorando o peso que há na atmosfera. Os ponteiros não dizem nada, nem mesmo os luminosos ao longe. O deserto é posto no centro da cidade. A Cosmópolis ruí e ruge na sua intermitência. As últimas cartas de amor talvez nunca sejam escritas, não se escrevem mais cartas. É preciso morrer um pouco mais, sempre. Eu não sei o que vi, mas esta manhã quando o sol não nasceu não poderia dizer que a poeira não fazia sentido. Os livros caídos, a umidade nas paredes pondo medo nos retratos e mofo nas memórias. Como sobreviver ao frio da matemática? Minha lógica não me devolve alguma esperança. Tudo o que vi não vale grande coisa. Tu não entendes minha pontuação Morse. É preciso tentar estar aqui comigo. A televisão ligada. As batidas na escada. O tempo não pode escapar. Tudo seca devagar. Obliterando tudo como foi mal. Dedilhando mentiras doces e te dedicando uma página de versos. Meus castelos de areia não são feitos da mesma substância que os sonhos. O suor que escorre nas minhas costas por correr e tentar sair do labirinto, faz menos sentido que o martelado dentro da minha cabeça. Queria apenas saber como esquecer. Não espero mais. O trem já partiu. As coisas sempre partem no seu devido horário. A planta dos meus pés não sabe mais o caminho. Queria apenas fugir a isto, meu caro Shakespeare, a tequila te derruba devagar. Seu rosto é apenas um rosto que dói por detrás de minha face e dos meus espelhos de mil facetas. É trágico, mas Narciso acha feio tudo o quê não se faz espelho. O deserto é um grande lago sem água, mas nunca é algo lá, inscrito no mapa, talvez seja por isso seja necessário um pouco de tristeza para escrever um diário, que um dia será teu.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

nada é preciso, mas as gavetas vazias ajudam a ecoar os passos dos ponteiros dos relógios vagarosamente pela casa. descer as escadas. apenas isso. esquecer a comida no fogo. aquiescer lentamente com o improvável. só e o espelho. esperando os correios devagar. sempre. é, querido, maquiando a paisagem, golpeando os olhos, atravessando ruas, rios, mentes e memórias. não podes dizer nada, eu queria te encontrar, para um café numa dessas tardes. silenciosamente e sem guerras. socando o vazio do ar. pintando meu último quadro. eu te vi como tu não imaginas. mas abro as portas, janelas, que venha a chuva. não quero me proteger, as calhas fogem ao controle. a mão cortada. a cabeça afogada. não corra. fica apenas e espera.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Perseguindo estrelas no meio da chuva, vá devagar. Sempre poderá haver na curva um segredo. O céu se abre em nuvens de ácido sulfúrico, ao final da tarde. O tom lilás que persegue no impossível de teus olhos não faz desenho. Duzentos e vinte e setes dias. Um dia maior que um ano. O navio róseo e crepuscular abre na madrepérola dos teus lábios um sorriso dolorido. O coração posto à sombra palpita em ondas de 460 graus. Os ventos que varrem as páginas não constroem épicos dragões. Não mostra tudo o que há aceso dentro de mim. Voando como folha, borboleta com 320 quilômetros de vida. Suave pelos mares incandescentes. Esculpindo os signos futuros e repetindo sempre que o fato de ninguém te entender não te faz um intelectual ou um artista. As conchas que se abrem a partir do que não diz não devolvem pérolas, mas rasga apenas o quadro em manchas brancas e negras. Um lamuriento Dominus Tecum não faz sentido. É apenas necessária uma palavra feita tempestade tropical. A luz queimando a ponta dos dedos enquanto apenas resta um rouge a mais nas bochechas como que esperando um acidente vascular. Toda estrela tem um fim futuro.