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terça-feira, 12 de julho de 2011

“Pão com presunto e um suco de abacaxi”

(Por Rodolfo Previato)


Ele descia a rua de paralelepípedos diariamente.

No bairro velho da antiga cidade, com seus casarões quase caídos, suas calçadas péssimas, sua iluminação precária. Aquele cheiro estranho que dominava as esquinas, invadia os becos, controlava os moradores. Aquele cheiro tão diferente dos demais cheiros da cidade, aquele cheiro que dava exclusividade para aquela vizinhança. Nada no mundo era como aquilo. Alguns diziam que não, que toda cidade velha tinha um bairro como aquele, com um cheiro como aquele, com pessoas como aquelas que achavam que seu bairro era o único no mundo com aquele cheiro. E ninguém sabia de onde vinha ou do que era aquele cheiro. Era o cheiro do bairro.

E ele descia a rua de paralelepípedos, sujos e úmidos, escorregadios. Ele descia diariamente. Menos no domingo é claro, domingo é dia de descanso. Ele descia quase que diariamente a rua com seu terno de brechó, seus sapatos pretos de liquidação, brilhantes de tão engraxados. Seus sapatos eram seu orgulho. Com sua gravata listrada comprada na 25 de Março, ele descia para o inferno.

O inferno. Assim os nativos do bairro velho chamavam o resto da cidade, pois no resto, na parte nova da antiga cidade, onde as ruas não eram de paralelepípedos escorregadios, não havia paz. No velho bairro havia paz.

E depois de descer ele chegava onde os paralelepípedos acabavam, em uma esquina onde o cheiro do bairro era bem fraco. Lá na esquina estava o bar onde ele tomava diariamente seu café. Quase diariamente, domingo é dia de descanso, não de tomar café fora de casa. No bar ele sentava sempre no primeiro banco, encostado no balcão, perto da porta. Ele gostava de sentar ali para receber os primeiros raios de sol. O bar do Cardoso. Seu Cardoso vinha até ele e pedia ‘o que ia ser nessa manhã companheiro Gomes’. Gomes era o sobrenome dele. Cardoso pedia o que ia ser, mesmo já sabendo o que ele, Gomes, iria querer. E ele respondia sempre cabisbaixo:

– Um pão com presunto e um suco de abacaxi.

Nada mais dizia, a não ser o obrigado no final da refeição. E Cardoso já havia cansado de tentar puxar assunto.

Todos no bar se perguntavam quem realmente era ele, de onde ele viera, o que aconteceu com ele para parecer tão triste, o que ele fazia da vida, onde ele trabalhava. Todos queriam saber e todos já haviam cansado de perguntar. Todos no bar simplesmente sabiam que diariamente. Menos no domingo. Ele apareceria ali na hora certa e pediria a mesma coisa e comeria e diria obrigado e iria embora.

E era assim, diariamente. Quase diariamente.

Ele desceu a rua de paralelepípedos.

Já sabia de cor onde pisar, há anos fazia sempre o mesmo trajeto de sua casa até a repartição onde trabalhava. Descia até o bar do Cardoso, sentava sempre no mesmo lugar para pegar os raios de sol da manhã e sempre pedia:

– Um pão com presunto e um suco de abacaxi.

Mas.
Naquela terça-feira ele sentou em seu lugar e pediu.

– Um pão com presunto e um suco de abacaxi.

E olhou para fora, como sempre, para ver o sol.

Alguém não habitual entrou no bar. Todos se conheciam ali, era um bairro que quase nunca alguém de fora vinha passear, não tinha o que fazer ali no bairro. E o estranho entrou no bar do Cardoso e sentou. O estranho sentou ao lado dele, do Gomes.

Cardoso veio com seu caminhar devagar, coisa que acontece com a idade, e entregou o pão com presunto e o suco de abacaxi a ele. O estranho olhou para Cardoso e pediu:
– O senhor me vê um pão com queijo e um café com leite, mais café do que leite.

E Cardoso concordou e foi buscar.

E naquele momento aconteceu o que muitos chamam de mágica, outros chamam de destino, alguns chamam de predestinação divina. E poucos chamam de Sonho.

Ele, Gomes, olhou o estranho e reconheceu seus olhos, reconheceu sua postura, reconheceu seus lábios, a cor dos cabelos. Mas ele, Gomes, sabia que aquele não era quem ele pensava, pois aquele quem ele pensava tinha a mesma idade dele, e aquele estranho no balcão era jovem. Ele pensou por um minuto alucinar.

Então Cardoso trouxe o pão, trouxe o café com leite e o estranho entregou a Cardoso uma foto e pediu se reconhecia quem era e disse um nome, primeiro nome, sem sobrenome.
E então Gomes ouviu o nome, estranhou, voltou a comer.

E Cardoso disse que não conhecia e o estranho disse então nome e sobrenome daquele da foto.

E Gomes levantou a cabeça. Involuntariamente. Gomes pediu o que aquele estranho queria com ele. E pela primeira vez em anos os clientes do bar do Cardoso ouviram a voz dele. E o estranho olhou para ele e disse que precisavam conversar. E Gomes concordou, ele conhecia aqueles olhos, aquela postura, aqueles lábios, aquela cor de cabelo. E Gomes e o estranho subiram a rua juntos, até a casa velha na rua de paralelepípedos.

Eles sentaram em um sofá roxo.

– Quem é você? – perguntou Gomes – Eu te conheço, não conheço?

– A mim não – disse o estranho – Mas conhece meu pai.

E Gomes então entendeu tudo.

– Então eu sei quem é você e sei quem é seu pai, e eu quero que vá embora agora! – Gomes levantou, falava alto como não falava há anos.

E o estranho sem saber o que fazer foi direto.

– Ele morreu.

E o semblante corado de Gomes desapareceu, seus joelhos não aguentaram seu corpo e ele caiu sobre o sofá. O estranho continuou:

– Ele me pediu pessoalmente para te trazer uma mensagem.

E Gomes derramou a primeira lágrima.

– Entregue então.

O estranho tirou do bolso um envelope lacrado e entregou. Levantou-se para ir embora. Gomes derramou outra lágrima. O estranho indo na direção da porta. Outra lágrima. O estranho, já não tão estranho para Gomes, gira a maçaneta. Gomes o interrompe pedindo que ele volte ao sofá. O estranho volta.

– Meu querido – dizia Gomes – Você sabe de tudo?

– Sim! – Confirmou o estranho se apresentando – Meu nome é Juan.

– Ele nunca me procurou, mesmo sabendo onde eu tento viver. – Mais duas lágrimas.

– Ele pediu para que você o perdoasse.

– Agora eu sei que tudo realmente acabou, e que ele não vai voltar, mas nem ao menos sei a razão de ele não ter voltado.

– Ele não podia, você não podia.

– Essa desculpa só valia para quando éramos jovens. – Mais lágrimas – Ao menos agora eu sei que tudo acabou.

O estranho, Juan, levantou. Caminhou até a porta, Gomes dessa vez não interrompeu. Gomes abre o envelope, tira o papel e lê. ‘Me perdoe, Eu nunca deixei de te amar. Era impossível quando nos conhecemos, tornou-se mais ainda com o tempo’. Juan olhou para trás, deixou cair uma lágrima, única. E foi embora. Gomes passou o resto do dia, no sofá. Lágrimas...

Eles se encontravam na casa de Rodrigo quase toda manhã. Menos na terça quando a mãe de Marcos o levava para a escola e no domingo, pois ambos acordavam tarde. Marcos batia cedo na porta de Rodrigo e a senhora Gomes atendia sempre dizendo que o menino já estava indo. Eles iam juntos para a escola. Eles se conheciam desde pequenos. Eles desciam juntos a rua de paralelepípedos até um bar que ficava no final do bairro, perto da escola. No bar eles tomavam café, eles gostavam de tomar café juntos. Rodrigo pedia um pão com queijo e presunto e café preto. Marcos pedia um pão com presunto e suco de abacaxi. Eles se conheciam desde pequenos, eles se amavam. E quando o mundo soube desse amor, tudo começou a desabar. Marcos foi mandado para o interior, Rodrigo foi proibido de sair de casa.

E o tempo passou, e agora grandes, ninguém mandava neles. Mas eles já estavam longe um do outro e o mundo continuava a odiá-los. Eles prometeram se amar e um dia se encontrar. E o tempo passou. E a vida cobrou resultados e eles se afastaram cada vez mais. E o tempo passou. E aquela dor continuou. E Rodrigo se afundou dentro de si próprio para fingir viver.

E o mundo matou aquele amor.

...Ele desceu a rua de paralelepípedos.

Sentou no mesmo lugar de sempre para ver os raios de sol. Cardoso veio até ele, mas mudou a pergunta:

– Me responderia algo se eu perguntasse? – A curiosidade de Cardoso foi alimentada pelo estranho acontecimento do dia anterior.

– Claro! – confirmou Gomes.

– Por que sempre o mesmo pedido?

– Porque era o preferido dele, pão com presunto e suco de abacaxi.

E Cardoso não questionou, mesmo sem entender. Virou-se e foi buscar o pedido.

– Cardoso? – Chamou Gomes.

Cardoso olhou para ele.

– Me vê um pão com queijo e presunto e um café preto, bem grande e sem açúcar. – Gomes sorriu, Gomes viveu.

Cardoso não entendeu, mas foi buscar o pedido.

– Cardoso? – Chamou Gomes.

Cardoso olhou para ele.

– Por favor, me chame de Rodrigo.

Gomes sorriu, Gomes viveu.

sábado, 5 de março de 2011

poesia de agora

Sabe quando você precisa se descansar de si mesmo?
Quando a leveza da alma é menos densa que uma lágrima.
Há horas que desaparecem até mesmo os abismos?
E um descanso que angustia...

Há horas que não queria pensar
Nem escolher o que fazer
Não sei se é melhor seguir em frente ou retroceder
Se é esperar ou fazer acontecer...

____

Por Augusto Jr.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Personificações


A minha filha vai se chamar Saudade. O meu filho chama-se Solidão. Minha mulher, grande mulher, me deixou. Saudades. Amizade sempre foi minha companheira, sempre esteve comigo, desde que sou me tornei esse projeto de Falido que sou hoje. Coitado...Cego...Esse sonho só te destrói. Continuo.

A vida tratou de levar Amizade dos meus domínios, tão linda, inocente. Se foi. Muito cedo, eu acho. Tenho certeza, amava Amizade e dedicava todo meu tempo à ela. Foram bons anos, ela deixou uma carta, começava com: "Lembrança...". E por aí vai...Eu li a carta e levei muito tempo pra perceber o quanto aquela partida significava. Amizade morreu. Amizade desapareceu. E com ela foi parte da minha essência. Guardei a carta, o que sobrou em mim foi essa massa negra, fria. Esponja que absorve sentimentos ruins.

Solidão agora me acompanha nessa jornada. Muito pequeno ele nasceu. Não chorava, não pedia nada, ia vivendo. Achava que ele tinha alguma síndrome, não se desenvolvia direito. Alguma coisa o amarrava. Amizade levou as correntes com ela, Solidão sentiu-se livre. Começou a crescer, grande garoto. Pedia tudo, fazia birra, chorava, Solidão se tornou um menino insolente. Pensei em matá-lo. Não consegui, ele tem meu DNA é parte de mim. É muito difícil. Continuo.

Conheci um novo olhar. Novo Olhar era o nome. Me mostrou um novo mundo muito diferente, nossa, como descobri coisas novas. Novo Olhar era inteligente, tinha lá seus problemas, mas sempre foi uma boa companhia. Andamos por muito lugares, fizemos muitas coisas juntos. Novo Olhar tinha uma beleza estranha, me seduzia. Suas mãos, seus cabelos...Quase perfeito. Faltava algo. Algo tão pequeno, como uma pequena frase, que nunca tive o prazer de vê-la saindo de seus lábios. Novo Olhar me ajudou muito, ajudou a domar Solidão, que tinha se tornado muito rude. Sou eternamente grato.

Distância. Novo Olhar escolheu viver com ela.

Novo Olhar pode não saber a dimensão da caverna em que entrei. Tão funda, fria e silenciosa, tão longe da luz. Meus pedidos de socorro só podem ser ouvidos pelas estalagmites, que insistem em crescer pontiagudas. Perfuram-me. Eu sangro. Meus pedidos de socorro se tornam ecos, pura ressonância. Uma folha caiu ao meu lado, trazida pelo vento. Senti que Novo Olhar tinha a deixado cair quando foi embora. Novo Olhar diria que é apenas uma folha, e era. Mas tinha um significado todo especial. A sorte tratou de trazer ela até mim. Eu sempre me acostumei a valorizar as pequenices da vida. Uma folha, um olhar, alguma frase. Novo Olhar sabia bem como fazer.

Novo Olhar também não sabe, mas deixou um pequeno vestígio aqui comigo. Deixou um sonho. Gostaria de dar uma companhia para Solidão. Novo Olhar sem saber acabou me deixando marcas. Solidão vai ganhar uma bela irmã. Os dois brincarão juntos, crescerão juntos, serão minhas companhias nessa vida. Solidão & Saudade. Meus filhos. Salvem-me.

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São Paulo, 27 de Janeiro de 2011
(@uddg)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um gole de cerveja lento, uma pitada no cigarro, um sorriso largo, espontâneo, gargalhada alta, daquelas sem vergonha dos que estão ao redor. Do outro lado goles rápidos de uma caipirinha ou outra bebida qualquer feita de destilados, gestos rápidos, palavras jorradas, histórias, risadas. No meio um sentimento: uma amizade simples, pura, sem muitas complicações ou pretensões... Livre, assim como os espíritos dos amigos.
Começou sei lá quando, em sei lá que lugar. Foi aos poucos. Duas pessoas com amigos em comum, se conhecendo, se estranhando, se admirando, jogando conversas fora. Hoje o seu sorriso me faz sorrir e suas histórias me fazem viajar. Aquela conversa gostosa, sobre qualquer assunto – o preferido? Hummm, só coisas boas! – e sem hora para acabar.
E hoje eu espero o próximo gole para continuar com as risadas gostosas e as histórias fantásticas deste ser barroco, desejando que noites como estas nunca tenham fim, apenas finais felizes.

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Jaraguá/ Florianópolis, 26 de janeiro de 2011.
Talita Ewald Wuerges

Joyeux anniversaire


O que me atriu de primeira foram as longas mechas, aquela estranheza de toda estréia, que ele nem lembra. Os pés esticavam ao infinito sabor ballet, abraçado no cara errado, e eu roubava a bebida aos pouquínhos enquanto conversa com o escudeiro.
Me atraiu da segunda vez o Mário, de Andrade, resposta da minha segunda pergunta, O que você pesquisa?
Daí vieram as conversas fora de hora, o papo furado, o barroco, as inseguranças, os conselhos, as teorias malucas e uma inclinação natural, ou melhor, uma tendência a desempenhar o personagem da vítima.
Tenho que dizer que aprendi a gostar dele e muito, Ev é meu crush francófono e meu melhor amigo da madrugada, não importa há quantos anos, nem por quantos anos mais. Importa a madrugada.
E com todo o “quê” de Diva dos 60, celebra aniversário e fica mais charmosa, ninguém se importa mais com a idade depois da terceira taça anyway.
E agora só restam meus apelos darem resultado e ele também se tornar meu professor de francês, e a vítima de sequestro, que já solucionou meu crime, mas aguarda meu resgate.

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Calgary, 26 de janeiro de 2011.

Lennon Mota
Por muitas vezes pensei em te dizer ‘eu te amo’ mas não soube quando nem como.
Pensei em te dizer o quanto você é especial pra mim e em logo em seguida ficar com a maior vergonha do mundo por ter dito isso, mas pensamentos são apenas pensamentos.
Um abraço, um beijo. Momentos como esses, por mim, poderiam durar toda a eternidade.
Segurar tua mão, ouvir tua voz: isso me conforta de uma maneira que com palavras eu não consigo explicar. Nesses momentos o ar parece rarefeito, e meus pés parecem não tocar o chão.
Sonhos e noites mal dormidas com a cabeça no travesseiro e a mente loooooooonge, pensando em você. Não queria que sonhos fossem somente sonhos e pensamentos, somente pensamentos, mas eles nunca são demais.
Quem sabe algum dia, eu te fale tudo o que eu tenho pra te dizer?
“Eu te amo” três simples palavras, mas tão difíceis de serem usadas corretamente. Apenas três palavras que não só são para ser ditas com a boca, mas também com o coração. Três palavras assim como “eu te odeio”, mas ‘eu te odeio’ pode ser dito com facilidade... Mas afinal de contas, construir um castelo de cartas é inúmeras vezes mais trabalhoso e difícil do que derrubá-lo, não acha?

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Campinas, 26 de janeiro de 2011.

Gabriel Furlan

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

quando eu tinha um aninho...



então, blog crescendo e envelhecendo...
há um ano atrás, graças ao @assuncion ele tinha esta carinha que segue aí abaixo e que muitas vezes infernizou muitos de vocês.
agora, com o empenho do @uddg ele vai de livros, audrey e a florestinha meio-macabra...
e é esperar o que o novo-ano nos aguarda.
sempre sem promessas....
mas sempre à espreita.

beijos.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Escrever um texto para o blog dos outros, nao atualizo nem o meu!

Mas ta, ta fazer o que, a gente tenta aqui pensar em algo, idéias eu tive mas esqueci junto com as cervejas e tequilas de ontem.

E também meu blog é uma grande inutilidade, escrevo a cada 10 anos e para alguem ver eu tenho que ficar floodando e pedindo “leia!”. Gosto quando leem e comentam algo completamente longe de “ha, gostei” ou “eh ficou bem bom cara”. Nao descarto essas demonstrações de que se deram ao trabalho de ler mas qualquer coisa a mais que isso significa que algo eu acertei no texto.

Blogs são para quem escreve e nao quem lê. Se o cara escreve o que quer a opinião de quem se submeteu a leitura nao importa. É mais uma terapia da escrita, gastando a sua criatividade ou tornando util 1% do tempo que se perde no computador diariamente.

Adiciono que estou escrevendo esse texto na casa de um amigo fora da minha cidade, enquanto ele tenta dormir num dia quente. Predição: O texto vai ficar horrivel, mas eu tentei...

A quero acabar mas está tão pequeno, nada veio, talvez venha, posso deixar de molho entregar em alguns dias, posso mandar assim incompleto e dizer que está completo.

É fecho com: Poderia ter feito melhor.

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Florianópolis, mas de algum lugar entre BH e São Paulo, 20 de janeiro de 2011

Leonardo Lopez

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ao puro de coração

Não tem brilho nem estrelas. Deve ser por eu te ver como poucos: simples, seco, sem frivolidades. Vai bem além do menino minado que se esqueceu de crescer e ainda diz: “eu quero mãe, e quero agora!” É o intelectual forte que te permite errar um ou dois argumentos, mas depois de esmaga, sem crueldade (mas com sarcasmo), com o peso infindo dos anos de leitura.

O que nós sabemos o que eu me permito saber, é que as borboletas no estômago foram devoradas pelo suco gástrico e que a grande maioria das pessoas não sabem esperar as coisas acontecerem. E como um cisne negro que chora lágrimas de cristal, você dança por entre as tristezas tirando delas o que ainda é concreto e depois renasce como uma fênix talhada em outro e pedra.

Que força é essa que na simples menção transforma a escrita e traz palavras que, quiçá, vão permanecer para sempre? É a força que nos eleva num espiral vertiginoso e depois nos lança fracos e nus sobre as ondas do mar. Força essa que nem depois de oito estações perdeu o ímpeto de revelar e iluminar.

Quero que prossiga não em pessoa, mas naquele que você representa. Um pacto de sangue negro e azul; a dança da bailarina cega sobre uma corda num penhasco. Prossiga aflito nas nossas mentes nos inquietando com seu discurso: “já é madrugada! Acorda, acorda, d’accord, d’accord...”

Et une jour sur un portrait noir et blanc, je vais ecrit: “no coração fiz um amigo e para vida o cultivei.”
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Florianópolis, 19 de janeiro de 2011.

Vinicius Neri

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Meu caro Welsts (posso te chamar assim?),

Peço sua licença pra macular seu espaço com uma prosa bem mundana. Não sou versado em poesia. Quem me dera ser um bom contista, ensaísta.

Você tem apenas dois aninhos e já é denso e complexo desde o primeiro instante.
Ou o tempo de um blog passa mais rápido que aqui fora,
Ou é aquilo: "Tal pai, tal filho".
Ou os nomes tem poder? "Dor do mundo".

A dor faz parte da vida, pequeno blog. Mas não precisa definir uma vida.
Não posso evitar que você sinta dor. Mas posso te estender a mão, fazer olhar pro outro lado.

Muitas vezes não te entendo mas reconheço e admiro a sua beleza e riqueza interior.
Admiro e me encanto como alguém que contempla o nascer de um dia.
E você está justamente aí, ainda nascendo, com muito a viver.

Então, viva muito!

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São Paulo, 17 de janeiro de 2011

Ricardo Matos

Do quinto andar.

Era preciso muita preguiça para subir todos aqueles degraus de elevador.
Passar pelo corredor sem cantar ou sem saber que a porta poderia estar trancada.
Mas eu subia as escadas em silêncio porque meus pensamentos agitados
esperavam te encontrar.
Naquele quinto andar.

Era manhã bonita de quarta-feira e o sol se escondia entra a letra A e B
e eu escutava batuques ritmados sem perceber que era hora do almoço
Aquele ar me fazia esquecer do dia a dia com cara de final de semana.
E de longe eu sentia você perto
Naquele quinto andar

Era difícil aquela língua diferente, aquela cidade nova, aquela carteira usada
Respirar cultura empoeirada sem ter noção do valor da traça
Aquele teatro histórico, a biblioteca intitulada, a dança moderna e clássica, o título engraçado.
e você sabia com maestria tudo o que me encantava.
Naquele quinto andar.

Era dezembro e eu não fui a praia.
Esperei o sol chegar para eu ir embora sem ter coragem de aceitar uma nova estrada.
Aquela vontade de me dividir em duas e deixar minha caneca naquela geladeira.
Como uma forma de dizer: “ainda estou por aqui”
e eu escolhi seu desenho pra te levar comigo.
Naquele quinto andar.

Crescer
Voltar para uma casa que ainda não era minha.
Esperei fazer anos, ganhar dinheiro, andar de metrô sem garoa nos meus olhos apesar de toda a saudade.
Assim como eu, a caloura eterna,
assim como tu, meu veterano amado,
assim como seus escritos, angústias sábias.
A gente se joga de salto alto, mon amour.
E voa.
.
.
.
.
Não precisamos mais andar.
_____

São Paulo, 17 de janeiro de 2011

Natália Sanches

No labirinto infinito

Nos olhos sem brilho
O veludo vermelho
Chame a polícia
Já não há por quê
Isso é tudo que tenho
Isso é tudo que eu tenho pra te dar
Mas nunca é o bastante
Chame a polícia
Retalhos
Costuras
Perdi a mim mesmo
Telhado de cartas
Não há mais saída
Você era o único
Estou cansado
Vou fechar as portas
Eu sou o meu dia
Você era o único

_______
Blumenau, 17 de janeiro de 2011

Karina Zendron da Cunha

Mem.ó.ria




Escaneio meu toc
Com ou sem toque:

Letras, com letras, e pelas letras.
Doçura? Amargura?

UFSquê? NELIC.
Bazzinga!

En Français? S’il vous plaît.
Ballet? Mallarmé!

“Garoa do Meu São Paulo”
Com que Mário? O Luigi!

Libra? Libre! Cuba Libre!
Mas Scorpio, sempre Scorpio.

“I could have danced all night”
entre Dior, Valentino e Chanel.
Valentino Dior? Miau!

Meu nome é Ev. Evandro é apelido.
Mas também pode ser Holly Golighty.

___

Detroit, 16 de janeiro de 2011.

Juliana Bittencourt

sábado, 15 de janeiro de 2011

São Paulo e algum caso de amor.

Para: Cidade luz por direito.
"Eta vida besta, meu Deus"
(Carlos Drummond - 1930)

Você tem um dever a cumprir. Consulte sua consciência.

Ele não saiu naquele dia. O cartaz foi colado no muro de casa. O Brás estava agitado, operários parados, as janelas tornaram-se palcos. Nunca houve tanta fofoca e boatos como naquele dia. Ao pequeno bambino só restava ajudar a avó a costurar as roupas da vizinhança. Gostava de costurar. A avó era seu porto seguro. Os irmãos mal lhe dirigiam a palavra. A mãe reparava, (com desprezo), seu singelo jeito de segurar as bonecas da prima. O pai mantinha-se ocupado em operar a máquina da tecelagem. Vivia sozinho, no seu infinito.

A cidade é infinita.

O menino perderia as primeiras aulas de ballet com a delicada instrutora, (como gostava de ser chamada), a pequena professorinha possuía uma escola de dança no centro. Alemã, fugiu de uma pequena cidade próxima ao Danúbio. Foi difícil. A cidade sempre lhe pareceu grande demais, monstruosa. Instalou-se. Casou-se. Feliz. Ser professora nunca foi seu sonho. Lago dos Cisnes no Municipal, sim. A vida acabou lhe reservando outros planos. Passou a adorar aquelas crianças. Ela amava o que fazia. Ela ensinava arte.

A cidade é cada história dessa gente.

Rua São Bento, esquina. Facilmente identificável. Quinto andar. A escola recebeu poucos alunos no início. O medo era quase que generalizado. "Será que isso fica de pé?". Bobagem. Ele erguia-se no meio do outros art-nouveau, que antes não passavam de 5 andares de altura. Olhava a cidade em sépia, tomada pela névoa. Ele sabia de tudo. Seu olhar via os homens de chapéu, que mantinham o passo apressado no Anhangabaú. Suas janelas enquadravam as mulheres, poder do Número 5 subia até a cobertura. 30 andares. O Martinelli. Ele foi o primeiro. O mais importante. Inesquecível.

A cidade é cada construção.

Tiros para o alto. Um deles atravessou a janela do 2º andar. Correria. A Galeria Prestes Maia servia de esconderijo. A multidão incontrolável. Cavalaria. Do alto, as ruas tingiam-se de verde, os soldados tomaram as avenidas. Não se via mais chapéus, o cheiro no Número 5 não fazia mais efeito. Cheiro de sangue. Os combatentes viram o sonho se distanciar. A cidade continuaria sendo apenas um motor. A vida no Brás continuaria sendo regida pela máquina. Procurando paz, imigrantes continuariam vindo. Gigantes continuaram se erguendo no horizonte. O status quo seria mantido.

A cidade é cada um deles. Homens, mulheres. Soldados.

A vida besta nunca lhe pertenceu. A vida de pormenores só pertencia às casas da Mooca. Ilha como tantas outras, pessoas cercadas de pessoas por todos os lados. Ilha como não há igual. Sem pontes de ferro que não ligam nada a lugar nenhum. A falta de sentido nas coisas é o charme da sua existência. Às vezes expansiva, às vezes introspectiva. Mão de obra altamente qualificada, metralhadora de conhecimento. Burra, como uma porta. De concreto armado, suas linhas se mostram frias, insensíveis, retas, calculadas, técnicas. Por fora, apenas. Por dentro, seus contornos assimétricos, parecem resultado de uma explosão. Difícil de entender, um mistério, um deleite. Um convite à descoberta da sua essência. Só para corajosos. Emocional, frágil, roller coaster of love. Amour. Amore. São Paulo, eu te amo.
De um Paulistano, apaixonado.

____

São Paulo, 14 de janeiro 2011.
Otávio Melo

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

dois anos são, aproximadamente, 730 dias, 11 horas, 38 minutos e 24 segundos.
são também centenas de textos, uns milhares de frases, outros milhões de palavras, e bilhões de caracteres.
tudo isso costurado por imagens, desenhos, sentimentos e coisinhas bonitas, feias felizes e tristes.
são coisas dele, minhas, nossas, de cada um que lê.
são coisas.
belas. sujas. puras. oswaldianas e horizontais


Flores Horizontais
flores da vida
flores brancas de papel,
da vida rubra de bordel,
flores da vida
afogadas nas janelas do luar
carbonizadas de remédios, tapas, pontapés,
escuras flores puras, putas, suicidas, sentimentais.
Flores horizontais.
Que rezais?

Com Deus me deito.
Com Deus me levanto


_________

Florianópolis, 13 de janeiro de 2011.

Lara M. Guimarães

Florianopolais

J'adore, eu poderia lhe dizer
Mas é amor que sai dos meus poros
Je t'aime, então. Je t'aime!

Sua descrição é impossível:
as palavras são poucas
as imagens distorcidas
Nem o francês lhe alcança
Nem Monet lhe contorna
Um continente não lhe é o bastante
Mas uma ilha o cativa
Tenho vontade de tornar a gritar: je t'aime!
Mas meu grito se soma a tantos que, involuntariamente, entoa um canto, formando um coro

A harmonia, então, se instala
Os pares são feitos
Dois é seu número
Biênio é seu tempo
Duplamente qualificado: beleza e intelecto
Mas continuo só,
a despeito do dois
a despeito dos dois
Querer e poder
Nunca apenas querer, nunca apenas poder

Em duo eu começo: te amo
Em duo, finalizo: Evandro Brèal.

____

Recife, 13 de janeiro de 2011.

Cláudio Fazio

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Cartão

De Rafz

Que a espada de Oyá te ajude a cortar todo o mal e as adversidades que encontrares no meio de teu caminho
Que o vento de Oyá te ajude a trazeres para perto de ti a realização de todos os seus sonhos, desejos e objetivos
E que a sensualidade de Oyá te ajude a encontrar a felicidade do coração e da carne
Epahei!