segunda-feira, 30 de novembro de 2009

cinema em sépia

uma valsa abre a cena. em neve, seu rosto gélido se arma. eu aqui escorro, lentamente, com meus sonhos. água. uma torrente de água me atravessa. minha maquiagem sem selo de 24 horas, sem fadas e sem sinos da meia-noite se desfaz, manchando a página, o rosto. eu queria poder acreditar no que diz. eu queria saber que me entendes. sem mãos na testas, sem me pôr no limiar da espera, sem escutar com copos atrás das portas. sem carregar junto ao peito a chave para aquele baú que eu sei que tu não desejas. me desculpe, eu não o sei com certeza. tenho um último aviso. me traz um dose forte de uísque, conhaque, qualquer coisa que me tire este gosto azedo de champagne. eu não quero mais o fino das taças, as bolhas, as cortinas. eu quero o papel velho e úmido pregado as paredes deste submundo. uma cena em vermelho. acho que esta na hora de uma triste despedida. nossos relógios são díspares. eu sou tão francesa, nos saltos, nas rendas, nos leques, tão século XVI, feita em molière e ondulada por vivaldi. tu saís meio à byron, cacofônico, inglês... sem tanto refinamento, eu diria americano, com um sotaque obscuro, de gueto... bem vadio e cheirando à rua. minhas cenas são quadros armados e assinados por gênios tão grandes que teus salões não saberiam o valor. tu te constróis na cópia, na sedução alucinada que não difere uma conta de uma pérola. eu queria poder um pouco mais apenas sobreviver ao contágio, a este contato que fere minhas luvas brancas. eu quero minhas poltronas tão intocadas quanto minhas cortinas. tudo é essencial ao meu cenário, não apenas o alvo de um sorriso. não apenas uma palavra que tu não sabes o que significa. o que apresenta, o que representa este meu gesto tresloucado de lançar minhas porcelanas azuis de encontro as paredes... ora, eu que me empenho em estar à altura das minhas cortinas e de meus rodapés. meu sapatos doem... eles nunca doeram assim... minhas carruagem afrouxam as cordas, meus violinos arrependam como meu coração. as notas se perdem... não é possível salvar nada, nem mesmo meu busto para minha lápide que outros olhos jamais entenderão.

Um comentário:

  1. nossa gente que melancólico... um achei melancólico e apaixonado.. um pouco de ser verdadeiro sendo falso..

    humm interessante...

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