sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

diálogos

personagem sem máscara roendo a unha do polegar esquerdo deitado na cama, livro de filosofia ao lado, hegel. ("estou ansioso, com medo. faz tanto tempo que não tenho um encontro que nem sei o que fazer ou como agir, sempre me sinto meio idiota. e tem a tensão de querer que as coisas deem certo, mesmo que não se saiba o que é dar certo. talvez dar errado também seja dar certo. mas eu sempre sei que as coisas nunca dão certo e ai não sei porque me frustro, mas eu me frustro, como sempre no correr dos dias. nunca sei o que conversar, onde pôr as mãos, se devo ou não tomar inciativa para um beijo. ainda mais sabendo que serei automaticamente comparado, posto ao lado, na tabela de bônus e pontos. se o outro tem a língua presa, eu tenho o cenho franzido. e já entro no jogo perdendo. quantas estrelas eu mereço?..".).

personagem ubíquo armado de um copo de vodca e escrevendo tese ("não tem que pensar nisso, o outro está sabe-se lá onde e ausente de corpo, mesmo que se diga presente, como diria a psicanálise, etc. seja espontâneo apenas, mas faça-o sem se revelar demais. teste se o garoto é falante, se foro, deixe-o falar mais. quanto a tentar beijar, intua pelos olhos. mas veja: não é por nada que ele foi ao seu território...").

personagem sem máscara roendo a unha do indicador esquerdo, ainda na cama, agora celular as postos, olhos perseguindo um pernilongo à meia-luz ("sou mestre de castrar o desejo alheio, ainda mais quando a chance me é dada. sou a histérica que joga com cartas marcadas. quando isso me envolve e a questão é causar desejo: fodeu! sou o obsessivo burro que se desvia do caminho e tropeça nas palavras...").

personagem ubíquo armado de um outro livro, copiando uma citação, beberica agora uma dose de uísque ("então imagina que o desejo está despertado e não castra. e tenta analisar menos e sofrer menos por antecipação e deixar as coisas irem..).

personagem sem máscara roendo a unha do anelar esquerdo, aquele dedo em que uma pretensa aliança da tiffany's poderia morar ("é que perdi a prática e tenho de rir com isso. e se fosse um livro ou tivesse um pouco de álcool no meio disso, não seria mais fácil? bom, veremos, veremos o que acontece...")

personagem ainda não identificado, quiçá intervencionista ("confiança: se não confiares em ti mesmo, não poderás concluir com êxito nenhum empreendimento").

personagem sem máscara com os dentes sujos de café ("foi. sem beijo. mas foi").

personagem distante, entre sol e praia, interesses escusos que não sabe muito bem o que faz por aqui, mas é fonte de segurança ("o que se fez?").

personagem sem máscara com os dedos de unhas roídas sujos de tinta ("comemos, bebemos, sorrimos, conversamos. o que me resta é sempre o mesmo papel").

personagem distante sabe se lá fazendo o quê, mas sempre gentil ("pára com isso, você é incrível, pare de subestimar, você é ótimo em todos os aspectos, pare com este complexo de inferioridade, você é ótimo amigo!").

personagem sem máscara escolhe uma máscara ("talvez eu seja apenas isso, alguém que sabe algumas coisas e serve apenas para isso, para ser um bom amigo").

Personagem escritor que visualiza a cena de fora ("câmbio, desligo!").

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