domingo, 27 de junho de 2010

RESTOS

Isto é uma página de diário e não apenas um golpe de página. Apenas uma pessoa tem a chave, as outras podem espiar uma fechadura especular. Particularmente, gosto de ti. Não me acreditas. Não me creditas. Sou escorpião, ascendente em escorpião, lua em escorpião. Procuro minha casa 10. Respira e exige. Estas letras que deixo são como as sementes e flores, aqui me descubro Clarissa Dalloway. Escrevo das serpentes impossíveis que se enroscam na imagem. Daí que sou nobre e tu conheces apenas a voz rouca dobrada. Falo muito. Escrevo muito. O que é ser bom o bastante? Seria ser o suficiente? Não gosto deste adjetivo. Não gosto de medir o impossível. O que se exige? Será que você me lê. Como será que você me lê? Minha imagem palpita. Melancolia. Angústia. Suporto meus erres, na impossibilidade de mudá-los. Eu queria poder encontrá-lo. Você fechou seu palco. Eu cansei de Pirandello. Não conheço todos os personagens. Meu cinema é tecnicolor. Audrey Hepburn, entre diamantes e amantes. Diz Sabrina que só um jeito das coisas serem e não serem, por isso desenho. Meu passado: eu tenho? Escola, ballet, patins. Tenho uma cicatriz no joelho esquerdo e um dente quebrado: culpa de uma gentileza e de um golpe de dança. Coração: eu preciso descobri-lo. Alex Delarge é meu melhor amigo, mas não sou Beethoven, sou mais violino e cravos. Eu tenho uma coisa com quem compartilho genes. Meio vida-loca qualquer coisa. Por uma pronúncia poderás contar com a breve ou com a longa de meu nome, adequando a métrica, o verso, o meu lado aberto. Nunca escrevi e nem sei se escreverei o meu grande romance. Talvez meu livro seja esse diário impossível de ser livro. Eu não sei amar. Eu não sei se sou capaz de grandezas. Eu sou isso. As mãos são as marcas de um cavalheiro, porém eu castigo minhas unhas com os dentes. Ansiedade. Eu sei esperar. Eu aprendi a esperar. Eu sei ser essa coisa desajeitada que dança demais, pensa demais, algumas vezes bebe, dorme de menos, dorme demais, escreve e tem crises profundas. Não consegui aprender italiano e nem sei direito como aprendi francês. Vem roçar minha pele para além da fotografia prometida? Vem me tocar para além da aquarela que te devo? Não sei por onde você andou. Tenho tantos medos, tantos. Não gosto de filmes de terror. Resta em mim sobreviver aos meus resquícios Greta Garbo, sem injeção letal… I want to be left alone. O corredor largo do Grande Hotel. Como segurar metal quente com a mão sem se queimar, sem morrer um pouquinho naquilo que escoa entre nós dois? Meu coração está partido, pode sentir? Explica-me tua cegueira? Lembro de um clichê húngaro, entre ciganas, que o destino fatídico nos faz correr estes perigos, nos perder nas estrelas, mas nos faz sempre voltar. Eu pinto no impossível das palavras. O significado foi vedado pra mim. Vejo os astros, os signos, significantes. Sonhei com um beijo cruzado numa fonte clássica, entre deuses gregos e egípcios fascinados com o humano da pele. Lembro o que senti. O texto que me deu ainda não é um texto meu, não carrega o meu mal, não carrega meu nome, a fraqueza deste destinatário. Penso em ti. Apagar, escrever, parecer, exagerar são movimentos. Meu gesto entre luvas e maquiagem, tão século XVI não entenderia outra passagem. As mariposas em torno da lâmpada lembrar alguma cúpula de um teatro de Veneza. Espero, mas insisto em saber se posso usar esses dados que não são meus. Apenas um resquício de perfume.

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