segunda-feira, 12 de abril de 2010

De um quadro anônimo

É apenas o vazio dos olhos, o que se vê. Sem nomes, santos ou cores. Táctil o que dança é a música. Eu odeio jogos. Os esbarrões são possíveis e não improváveis durante as noites. Poucas vezes o meu camundongo violento enfrenta a serpente faminta e saí do labirinto. Ele não tem medo da morte, tem medo da dor. Não sou bacharelesco, minhas idéias é que são antiquadas. Minha sintaxe é larga, rompida, como uma estrada aberta, cortando os vales, fazendo sulcos nas páginas. Não deixo as coisas pra depois, eu apenas deixo o fluxo das coisas. O tempo acumulado em cada palavra é o tempo-coringa de sua certeza impossível e de uma validade repentina. O que eu não recuperei? A tela rasgada da Gioconda quanto vale ainda? Somente Rembrandt, entre cores e sombras, pode pintar um Rembrandt, então não me preocupo com essas falsificações. Depende de ti, pincel e página. Comprei carvão e espaço. Rompendo estrelas, sem luzes, sem anos, sem deslocamento. O que resta é vazio impossível do som da galáxia. O álcool não tira meu ritmo, é como carro envenenado. Gas. Gas. Como fazer ser perfeito aquilo que nunca se fez? And he hit the gas. Não gosto de acordes e acordos lineares. Minhas árias e melodias são impossivelmente surdas, agudas, gritadas. Mergulhadas em vinho, algemando o próprio do ser, fora do espaço. Insólito para mim são os crimes, não gosto de foras-da-lei. Os quadros não tem valor de moeda, não são cinema, não assim, isto que pensas em metes em cunhas e valores. Unitário é tão valor, tão moeda, tão rua. Tão não isto que apelo como vida. Não se invade meus pinceis a custo módico. Desenhando em papel-moeda. Sem ser fiel a nada, nem à tinta. Não coloco pra fora dores. Não rogo aos deuses ou céu. Enfio meu estilete nos mitos… cortando cartões impossíveis. Meus quadros são presentes, não postais. Bolsa de valores sem significar ações, é o que resta. Sei que absolutamente não entendes. Bem sei. Não desloco palavras, combino forças. Não peças desculpas pelo que foi feito, as coisas não se concertam. Um vaso Ming jamais será o mesmo depois da queda. Recomponha a arte, reencene. Abra as cores. Venha ao meu labirinto e se perca nos mares, tintas, caravelas, ossos, frutas. O corpo glicerinado não se esquece, mas não lembra. Sintaxe e arquiescultura. As formações antigas eram mais trabalhadas. Como exaurir o sem fim, fundo ou fonte? Sim, ainda lembro, tenho um retrato seu pintado entre néon e fumaça. Não sei se realmente me vio sorrindo. O quadro é o que resta. Sem vestígios. Fundo branco de la Fontaine no banheiro publico, fumando placidamente um cachimbo.

Não sei quem assassino ou como assino.

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