sábado, 27 de junho de 2009

Paris, 27/06/2009

a Charles.


querido, eu ainda penso em você, enquanto essa chuva
minguada e melancólica das tardes me abraça e reflete
a imensidão das águas de dentro de mim que em ondas dobra minha fácil majestade
este sujeito falador que não escreve de coisas grandes

e a chuva chora e alimenta minha memória que insiste em se esquecer
como o atravessar dos passos vagos um arco de triunfos esquecidos
a cidade, é Paris, tão eterna e tão pincelada de não-mais
a forma de horizontes mutáveis como as cinzas d’um coração mortal

não vejo mais os campos de batalha ou os campanários destruídos
esses capitólios que dentro de mim se arrombam e abraçam Paris
como erva mágica, de grandes blocos de sonho e fumaça
e brilhantes olhos maliciosos de papoulas à espanhola desenhas em vitrais

e a vida estrala um dia como um cristal partido
e vejo, na manhã chuvosa, passar d’entre as nuvens sem sol, no céu
a sombra silenciosa destas mãos cujo trabalho é a escrita
manchas frias e claras de algo que se deixa apagar

os pássaros não fogem da gaiola, a chuva se converte em cela
e dessa fronte que esquenta aos calores de um corpo que morre
sem a branca plumagem da folha, tela de versos e vertigens,
tão próxima daqui, desta fera afogada no mar em que se banhava

e quando tu irás parar de chover aqui? Quando tornarás ao fundo?
o banho diz do cisne, da sapatilha e da idade
e do ballet que era mais eu um belo sonho de natal
e nervosamente recolhe-se debaixo das unhas da ponta perfeita de um pé

assim vejo no palco, na cidade, o mito estranho e fatal
vertidos de um céul qualquer, d’um Ovídio que quisera Shakespeare,
irônico e fatal e cruamente cruelmente azul
sob o tendão convulsivo deste pulso que observa e não tem a miragem da torre

mas em resposta a um deus sem nome a cidade não muda
e muda, no silêncio de um postal, deixa se escrever
na minha melancolia de chuva não se embebeda
nos seus palácios novos e de velhos burgos que se recompõem neste gesto de alegoria

restos de maquiagem misturados com lembranças de velhos lords
e eu penso na caixinha de música com seu cisne aprisionado
nos meus gestos loucos, e exilado, ridículo, sublime, nas trevas claras do espelho
ruge diante do Louvre e todo o peso da cidade me oprime

com seu rumorejar de desejos na treva que nos corrói,
e querido, estrelas de braços caídos, besta vil que se esconde no fundo do velho Sena
e com suas de siena e carvão captura um rosto soberbo curvado em seu próprio êxtase

e assim, entre o cachimbo derridiano, a garrafa deleuziana e o pêndulo de Foucault
as sombras caminham e a cidade, Paris, se arma musicalmente
com seus cílios gigantes e sotaque coquete diante da imensa muralha do tempo
e se perde e se acha nas unhas longas de seu corpo, nos lábios venenosos de sonho.

deixa se ausentar d’Africa e procura, perigosamente, no seio, aquele nunca e jamais
que insiste na chuva e faz chover ainda mais, marcando-se lentamente como doce dor.
grito no escuro de um quadro impressionista. Paris entre destroços alemães...

e Paris se cala, espreita NY, como um velha e vaga lembrança de um retrato
e na floresta, os pássaros se agitam como livros numa biblioteca, e pesa, e pesam
o espírito exilado se esquece numa gôndola sem direção e soma a plenitude
da chuva, os olhos marejados por um inferno. E encontra o jovem Arthur que também

escreve a sua carta para mim, em Paris, e respondo: magro Orfeu sem cor,
e penso nos esquecimentos da cidade e no que guarda ainda enquanto falta
em mim o seu espírito francês. e todos se ausentam e me esquecem aqui cativo de mim, para o bem dos outros, ainda.

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