sábado, 22 de dezembro de 2012


você aprendeu com hollywood e é isto que se espera: que em um dia nublado, em que tudo parece estar dando errado, daqueles em que se acorda atrasado, que se derrama café na camisa aumentando o atraso, em que se arrebenta a alça da mochila, em que as sacolas rasgam... então você vai a biblioteca e sai carregado de livros, neste instante você esbarra em alguém e todos os livros despencam, o fulano em questão vai te ajudar a catar as coisas, olhos nos olhos, respiração, pulso descompassado e, voilà, príncipe encantado. mas a vida não é um cineminha água com açúcar e se a nobreza suposta te ver na saída da biblioteca vai de olhar de esguelho ou quem sabe até chegar na voadora. delicadezas da pós-modernidade. e não gosto da ideia de ter de caçar alguém, como se estivesse pela savana cercado de leões... ou morrendo de fome (esta fome sexual crescente a olhos vistos no fundo da retina das pessoas).  caçar... a ideia de que se alimenta do outro, mais do que se desfruta.  não se bebe mais do brilho dos olhos de alguém como se bebe um vinho raro, mas se engole, aos pedaços, se exige aos pedaços carcomidos estas migalhas de carinho agressivas que pesam no estômago, indigestas.  eu talvez, neste meu pequeno filme sem trilha sonora e com uma exigência de fotografia e cena, encontrar alguém,  no sorriso de alguém, um pouco mais de poesia... naquela dobra de esquina, um alguém que antes de tudo esteja disposto, bem alimentado, sem fúria, sem fome, apenas à espera... talvez um cinema (porque agora, aqui, o cinema se impõe como tema), entre duas pipocas e um gole de refrigerante, aquele roçar tímido de mãos, uma risada um pouco mais alta e um shhhhhh! desconhecido, uma caminhada na beira-mar de mãos dadas sob o céu tingido de vermelho. é tão difícil alguém que goste de pequenas delicadezas e queira vivê-las? aquele singelo desejo da surpresa quando em um dia de chuva este alguém bate a sua porta encharcado as 3 da manhã com a desculpa de que queria vê-lo porque havia saudade esmagando no silêncio dos cômodos?  e depois, enquanto você o despacha para uma ducha quente, para não resfriar e prepara um chá com algo doce para comer, e abraçados, deitados...  ou ainda,  ele vê televisão deitado no seu colo enquanto você lê um livro que precisa terminar com algum urgência (terminar de ler algo com alguma urgência é sempre o meu caso), então, sem mais de desejo, sem mais de preemência, adormecem e dormem para a poesia ainda maior: acordar juntos.

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