segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Personificações


A minha filha vai se chamar Saudade. O meu filho chama-se Solidão. Minha mulher, grande mulher, me deixou. Saudades. Amizade sempre foi minha companheira, sempre esteve comigo, desde que sou me tornei esse projeto de Falido que sou hoje. Coitado...Cego...Esse sonho só te destrói. Continuo.

A vida tratou de levar Amizade dos meus domínios, tão linda, inocente. Se foi. Muito cedo, eu acho. Tenho certeza, amava Amizade e dedicava todo meu tempo à ela. Foram bons anos, ela deixou uma carta, começava com: "Lembrança...". E por aí vai...Eu li a carta e levei muito tempo pra perceber o quanto aquela partida significava. Amizade morreu. Amizade desapareceu. E com ela foi parte da minha essência. Guardei a carta, o que sobrou em mim foi essa massa negra, fria. Esponja que absorve sentimentos ruins.

Solidão agora me acompanha nessa jornada. Muito pequeno ele nasceu. Não chorava, não pedia nada, ia vivendo. Achava que ele tinha alguma síndrome, não se desenvolvia direito. Alguma coisa o amarrava. Amizade levou as correntes com ela, Solidão sentiu-se livre. Começou a crescer, grande garoto. Pedia tudo, fazia birra, chorava, Solidão se tornou um menino insolente. Pensei em matá-lo. Não consegui, ele tem meu DNA é parte de mim. É muito difícil. Continuo.

Conheci um novo olhar. Novo Olhar era o nome. Me mostrou um novo mundo muito diferente, nossa, como descobri coisas novas. Novo Olhar era inteligente, tinha lá seus problemas, mas sempre foi uma boa companhia. Andamos por muito lugares, fizemos muitas coisas juntos. Novo Olhar tinha uma beleza estranha, me seduzia. Suas mãos, seus cabelos...Quase perfeito. Faltava algo. Algo tão pequeno, como uma pequena frase, que nunca tive o prazer de vê-la saindo de seus lábios. Novo Olhar me ajudou muito, ajudou a domar Solidão, que tinha se tornado muito rude. Sou eternamente grato.

Distância. Novo Olhar escolheu viver com ela.

Novo Olhar pode não saber a dimensão da caverna em que entrei. Tão funda, fria e silenciosa, tão longe da luz. Meus pedidos de socorro só podem ser ouvidos pelas estalagmites, que insistem em crescer pontiagudas. Perfuram-me. Eu sangro. Meus pedidos de socorro se tornam ecos, pura ressonância. Uma folha caiu ao meu lado, trazida pelo vento. Senti que Novo Olhar tinha a deixado cair quando foi embora. Novo Olhar diria que é apenas uma folha, e era. Mas tinha um significado todo especial. A sorte tratou de trazer ela até mim. Eu sempre me acostumei a valorizar as pequenices da vida. Uma folha, um olhar, alguma frase. Novo Olhar sabia bem como fazer.

Novo Olhar também não sabe, mas deixou um pequeno vestígio aqui comigo. Deixou um sonho. Gostaria de dar uma companhia para Solidão. Novo Olhar sem saber acabou me deixando marcas. Solidão vai ganhar uma bela irmã. Os dois brincarão juntos, crescerão juntos, serão minhas companhias nessa vida. Solidão & Saudade. Meus filhos. Salvem-me.

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São Paulo, 27 de Janeiro de 2011
(@uddg)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

baile das máscaras sem rosto

"dit dit dit dah dah dah dit dit dit"

de vários particulares não se faz um universal. o salão está vazio. os instrumentos tombados. a cidade rumoreja. retiro meu esquadro da bolsa: redesenho um triângulo. é pitágoras quem reafirma o trivial em eixos de 3. lógica simples:quem és diante dos espelho? os pés dançam que dançam e cansados se retiram dos calçados. você escolhe cara ou coroa? todo rei é um fantasma que assombra uma multidão. todo homem é um selvagem. eu dei um pressuposto insustentável e leve e dito e sentido.
senta direito à mesa garota, sabe a ordem dos talhares. não marca a taça com batom. ereta. pescoço longo. marcado. não amarrota o vestido. você precisa sorrir, mesmo que o salto aperte.
o garoto à esquerda toca o lenço. codificado. pistola no coldre. é medíocre e usa meias palavras. gasta saliva com o velho lero-lero comunista de saloon.
três pontos. três traços. três pontos.
não tenho alma para ser salva.
eu não tenho raiva. tenho explosão racional racionada. o foco do olhar destruindo o objeto.
um carro freia. três vultos de capuzes negros. você estaria entre eles?
você não entende o sistema deste jogo.
procure os pontos, não as pistas. não saia da pista, mas acelera rasante nas curvas fechadas.
decifra meu código enigma. você sabe que não falo inglês. não com a falta de acentos dessa língua.
seu almirante arma um pano de prato em que traz bordado "das Rudel". silêncio mecânico. falha mecânica. silêncio inumano. falha humana. sem tragédia. apenas a comédia burburinho pequeno burguesa continua e continua e continua e continua.
você não é capaz de sentir o fio da faca.
retiro a maquiagem com a navalha, algo da pele vai junto, mas o nome se apega aos ossos. ele é um fantasma yanomami: sequer existe.
não designo. não lembro.
é a vitrola que ainda toca, com a luva sobre a cauda do piano.
há o punhal sobre a mesa cravado numa maçã vermelha como sangue.
talvez o fim se aproxime com a aurora. sem sinos de guerra.
assina teu nome e foge. sem tempo para caçadas. sem tempo para fronteiras.
é hora de fechar os olhos para algum sono sem sonhos para não reconhecer os crânios sob as colunas de teu palácio de vidro.
o salão está vazio. os instrumentos tombados. a cidade rumoreja e acorda. visto meu paletó e sento à maquina. o que tens para valsar hoje: carta ou procuração?


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

letras amanhecidas

(se bem decodificado, parte disso poderia ser um e-mail)

andromaque, je pense à vous... mas são 6 horas da manhã, já passadas, aqui neste lugar que não é meu com este calor de verão, com seu horário de verão... mas não quis, não poderia te acordar. talvez seu silêncio diga e insista. você ao menos consegue dormir como um pequeno anjo barroco numa cidade perdida. desculpe pelos meus black-outs. aqui os fantasmas embebidos em cerveja dorme. queria poder dormir, quem dera poder sonhar. um pequeno luxo destes que não pode ser comprado, que farmácia alguma compensa. você pode comprar o remédio para dormir, mas não um bom sonho. pensei em te escrever isto, mas... porque perder tempo com meus pequenos anões de jardim assustados?
a velha paris não se compõe e ganha forma, muda e depressa no meu coração assustado. é a crise. a poeira da rua me engasga. o futuro posto entre o nada e o vazio. eu não sei, não há a minha certeza. nenhuma mão desluvada sabe de meu suplício. eu errei. acho talvez, e feio. os meus dados eram todos viciados.
e eu me pergunto repetidamente, a mim, procurando em mim, alguma resposta: "Eau, quand donc pleuvras-tu? quando tonneras-tu, foudre?". acho que me descolei de mim. sou a sombra de um corpo perdido. quem poderias dizer que viver, simplesmente, viver daria nisto?
eu tento escrever sobre um pequeno poema. não meu. não escrevo poemas. jamais serei poeta, nem mesmo de um poema só. eu finjo que sei escrever e acabo acumulando letras, as pessoas que passam não lêem, mas acreditam que escrevo e que isto diz alguma coisa. mas nunca pra mim. chacal diz em algum verso que o corpo sabe letras com gosto. minha mente é que estuda e pescruta e prescreve letras. quem se importaria com um pequeno plágio? ou nem isto, uma citação, sem exigências de gênio... eu não me importaria. mas conheço quem sim, até demais. mas não, sem agradecimentos, sem estes meus pequenos post-its. eu deveria ter tentado ser estrela ao invés de noite escura. não nasci para a luz. nem mesmo de lua cheia.
é uma dor que dói, entre as narinas, apertando os olhos e obrigando aos longos respiros.
eu sei que você não entende o que lê, procura o que não pode achar. nem mesmo aqui.
mas como escolher, entre ficar e partir? partir para onde? partir como? não sei. não quero abraçar uma língua que eu não falo, mas leio e penso que falo com todos os meus acentos de latino-américa que se diz intelectual. meus estudos em filosofia tropeçam na minha lógica. preciso melhorar minha matemática. e pergunto mais: aonde andará o poeta de pijama que escorrega e cai, enquanto distraído sonha um mundo de estrelas? (é piva, você reconheceria?). já não há céu, nem solo firme. por favor, segura minha mão, me silencia, evoca a eutanásia de sintaxes desconhecidas porque sigo as labaredas memoráveis de um dia que apenas reencontro em luto e melancolia. não sei dizer da tua troca entre paris e nova iorque, mas ainda me dói. tanta coisa inexplicada que dói. tanta coisa não esclarecida que volta. não deveria ter sido assim, mas foi. não me abraça, não agora. meu corpo sua. sua com o calor. sua, a musa que mente e troca as letras. insisto no que não faríamos jamais no frente a frente, derramando as palavras, tentando dizer com os olhos (mas os olhos não falam), do silêncio que não pode ser mudez. eu preciso mudar. eu preciso dormir. não confunda quem assina isto. é o outro. sem sombra, sem sombra de dúvida. o que você sabe sobre os espectros? és capaz de encontrar minha cor preferida em pura referência numérica... nos nanômetros de minha incerteza....
não caibo em mim, mas não estou em mim, não quero ser isto. mas... é texto cifrado, datilografado e com toda a sorte de grampos. fecha os olhos, sombra, diante do espelho: o que você é capaz de descobrir, enquanto o dia clareia, através das pálpebras vermelhas neste escuro fabricado?

paradoxo

quem é capaz de suportar
um coração
que insistente
ainda
bate?

isto importa?

eu comecei um romance, não um real, mas talvez. rosto e nome descobertos. o que se faz? há a agonia, a noite, o dia, co-significando luz-&-sombra. sem colorido, não adormeço. não me pela para te contar meu último conto de fadas. eu não sei me valer de metáforas, mas disparo na língua como ninguém. sou insuperável no descontrole: minha atribuição errônea sempre acerta, mesmo quando não penso no erro, meu estopim narrativo sempre se fecha sobre si e minha livre associação é treinada e muscular. não escapo ao teu divã. tive conversas estranhas hoje. tive silêncios estranhos hoje. tive isto. anotei o muxoxo de canto. tive o vazio futuro por perto e você nem soube me perguntar como eu realmente estava, mas onde você estava mesmo?
talvez eu devesse realmente aceitar a proposta, fugir, duas horas daqui. suspender o centro, a braxília fugaz. eu não sei o que esperar de teu silêncio. eu penso mais do que eu realmente consigo escrever, acredite.
5 horas da manhã. eu desabroxo meus paradoxos. não vou escrever sobre eles. estou muito à friedrich schilling, que você não entende, certamente, você não o conhece....
meu corpo está quente, confuso, quente.... não desliga a máquina que não dorme.
"...vem dormir comigo, me abraçando no escuro, afastando os fantasmas..."
brinco de estrela-do-mar enquanto durmo. agora penso que deveria escrever um bom conto de porn-art. é mais fácil entender as coxas contra coxas, o beijo, o vazio dos nomes, os encontros furtivos e fortuitos.
eu desenho pra escapar ao pensamento.
sou o contrário do personagem que invento. a cacofonia não é intencional, é eco.
eu me perco e não me acho.
que sou quando retiro a maquiagem diante do espelho?
você seria capaz de manter a carta que te envio cerrada para abrir só daqui uns 50 anos?
que me diz?
...
talvez seja rude, mas seja simples assim. sem sucesso, obviamente.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um gole de cerveja lento, uma pitada no cigarro, um sorriso largo, espontâneo, gargalhada alta, daquelas sem vergonha dos que estão ao redor. Do outro lado goles rápidos de uma caipirinha ou outra bebida qualquer feita de destilados, gestos rápidos, palavras jorradas, histórias, risadas. No meio um sentimento: uma amizade simples, pura, sem muitas complicações ou pretensões... Livre, assim como os espíritos dos amigos.
Começou sei lá quando, em sei lá que lugar. Foi aos poucos. Duas pessoas com amigos em comum, se conhecendo, se estranhando, se admirando, jogando conversas fora. Hoje o seu sorriso me faz sorrir e suas histórias me fazem viajar. Aquela conversa gostosa, sobre qualquer assunto – o preferido? Hummm, só coisas boas! – e sem hora para acabar.
E hoje eu espero o próximo gole para continuar com as risadas gostosas e as histórias fantásticas deste ser barroco, desejando que noites como estas nunca tenham fim, apenas finais felizes.

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Jaraguá/ Florianópolis, 26 de janeiro de 2011.
Talita Ewald Wuerges

O retrato de dois anos

(esboço de aniversário)

O interessante deste blog que ele nasceu como um relato, para aceitar a demanda de uma escrita que se dá ao desconhecido. Terapêutica? Não sei até que ponto. Numa constante ebulição liberada pela catarse e pela necessidade de limpar a ponta dos dedos, de limar o pensamento, de aceitar alguma coisa. O blog nasce no mesmo momento em que entro no mestrado e preciso pensar um pouco mais, afinar, sintonizar e perceber problemas. Ao passo que aqui o problema é centrado num eu, num olhar, na necessidade de um caminho que é sintático. Um caminho que tem como saída a palavra. Na origem ele não era pretendido dialogo, afinal, quem ler qualquer literatice ainda nos dias de hoje? Quem persegue algum espaço que não preenche o tempo e mesmo que sejam chamadas de inúteis, não dá uma informação sobre as Ladys Gagas da vida? Pois bem. Não posso dizer que não seja uma experiência e como tal singular. Não sei dizer do que ela me afasta ou do que ela me aproxima. Sei que as letras encontram uma direção ao se combinar, é o fluxo não-natural da língua que se encontre sentido neste corpo, nesta pele que cede ao desejo e ao tato. Mas e quando não se pode tocar o corpo? E quando se erra o nome? Quando tudo que resta é o logro, a mentira e o paradoxo? Como exigir o mínimo de poesia? Como procurar este saber-ver-e-olhar. Não, eis a questão, é o espaço do cérebro suspenso em que quem se entrega é o corpo, neste pacto unilateral, pacto de certo rebaixamento e por isso pacto de sujeição. Alguém tem de se entregar. O corpo domesticado ou a língua assujeitada. É batalha no limite do corpo e da língua, da língua do corpo e da língua posta pra fora do corpo na morte. Talvez sem grandes filosofias, mas puro registro de tempo, do meu tempo, das minhas velocidades. Espaço rodeado pela minha constelação de mitos, que volte-e-meia aceita visitas e se dedica a alguém, a um ou outro ser especial. Não sei se gosto de seres especiais como estrelas cadentes, elas perdem o brilho e nos abandonam. Não gosto do sem rumo, mas não gosto do destino prévio. Não quero os textos longos. Agora, quero a companhia de uma boa leitura, de um bom encontro ou desencontro. entre Florianópolis, São Paulo, Brasília, Fortaleza, Rio de Janeiro, Recife…. tantos outros pontos no interior de um mapa que fui descobrindo afeccioso… e que se abria também noutros limites maiores: Brasil, Estados Unidos, Canadá, Portugal, Indonésia, China… e noutros e noutros. Como um jogo de espelhos. Mas no fundo, a missão era simples e egoísta: era o meu território que esta ali para ser desvendado, os meus limites… sem provas, sem exigências, mas à espera. Não devo insistir, mas cada companhia, cada leitura, agita novos fantasmas destas letras e por isso meu obrigado. De resto meu obrigado e minha gratidão aos que aceitaram minha intimação….

Abraços
Espero que continuem aparecendo

Evandro Brèal.