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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Longe sem sair do lugar

Di questa poesia
mi resta
que nulla
d'inesauribile segreto
(Giuseppe Ungaretti -
Mariano, il 29 giugno 1916)




sentado a frente do banco do brasil. espero ainda. na avenida diante dos meus olhos, não uma passante, mas uma multidão delas, já não faz diferença, destas que certamente eu não amaria. não quero os corpos, mas vejo as sombras. é mulher, carrega uma sacola, nem tem tanta pressa. mas o dia tem, como o rapaz de terno barato que quer o rastro do final da tarde. em minha são paulo noturna há os passos apertados, o assalto, as mãos gélidas. o que queria realmente o trombadinha quando suas mãos passearam pelo meu corpo procurando bolsos e neles o que ali houvesse? meu mapa não é o de roberto piva, tampouco o de mário de andrade. continuo minha cartografia em seus calendários. são paulo: rodapé em que disserto do teu e do meu desejo. os passos sempre apertados, meu olhar vago, de quem procura o horizonte, quem acostumado com o duplo-azul feito mar&céu, se perde e vaga. o metrô, sempre duas estações atrasado, sempre sem olhar para os lados. qual perigo se esconde na próxima esquina?


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

notas



preciso retornar para mais fotografias. esta fotografia é minha. na página que te ofereço não te li. aqui, oculto em algum canto eu compus aquela melodia dodecafônica pra ti. simples até. os estralos rompendo na pista. mas eu ainda não te conhecia. ou talvez já. ou talvez nem soubesse. mas eu carregava meus versos e meus fantasmas. meu cortejo em que se sentavam à mesa mário de andrade, piva, rimbaud... e tantos nomes no vazio do nome, no sem rosto da página. eu não tenho sono. não ainda. talvez precise um pouco. talvez eu insista em falar contigo de novo. mas você nem sabe disto aqui. deste outro. eu te disse que te escreveria, mas nem tenho seu endereço. daqui, eu apenas posso ver um lugar. tua cidade próxima, sem luzes, sem pousos, talvez com algum segredo. suspendo a literatura. sem arte, danço e me equilibro num meio-fio. qual a velocidade média do carro que não-vem? um táxi, o metrô. quantos minutos são necessários para te achar em meio à multidão. você lê e pensa que isto é pra ti, mas não é. é para o outro lado, pelo não-lido. entrega as veias. eu ainda preciso desenhar uma curva perigosa que a lente da objetiva não capture.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

la dolce vita


(ao som de “confesso” – bethânia)

no entorno da sé foi onde te perdi. tenho a fotografia datada. no verso talvez coubesse escrever teu nome. mas tu foi sumindo devagarzinho, virando as páginas, calçando os saltos, se afastando. se olhar direito talvez eu te encontre pendurado em alguma janela. tu não sabes do que eu sei. de chico, pernas cruzadas, cigarro ausente, sempre retirado de tuas mãos. (what would the community think). eu é quem talvez tenha abolido, no medo aberto, nossa vacanza romane em que tu bancarias gregory peck de lambreta e viria pegar para a fuga sempre aos finais da tarde. mas não tenho culpa, minha vida não tem um roteiro de wyler, por mais que as pérolas, os chapéus, as luvas... se acumulem no guarda-roupa e a mala quase nunca feche. você ainda é capaz de pronunciar meu nome?

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Notas rápidas de viagem

(segunda, 26)

a torre ao fundo dói e lateja. não sou uma criança tão frágil, mas precisava saber no fundo da gaveta o que se passa e o que acontece. ainda não dormi para evitar os pesadelos. a mala ainda está ali, ao canto, toda pronta. caso me chames de volta. caso digas não. caso se afastes dentro do dominó do espelho em chamas.

(domingo, 25)

a donzela fugiu do castelo enquanto o príncipe dormia, conta penélope assustada em sua trama. o tear maquina, à espera, ela sabe que ele poderá demorar mais do que deveria. onde andará ulisses? em quais mares ou corpos afoga sua boca ávida? os postais não foram enviados, a carta não foi entregue. ainda espero minha resposta.


(sábado, 24)

longa caminhada. os baforejos e as lentes. as pessoas estranhas. tanta gente. tantas bolinhas. bolinhas. petit pois. pois, então. o que dizer disso. eu preciso escrever a nota rápida, sem o gosto amargo da saliva. esquecendo os detalhes para que somente eu possa lembrar.

(sexta, 23)

tomando um café com rembrandt. ele me olha. o fundo escuro. a tela escura. a luz oposta. os desejos opostos. as mãos simétricas, em curvas a linha deslocada. focamos a toalha, a natureza morta que devoramos lentamente. bebericando devagar o doce. o resquício de febre pede água. maquio os olhos, em quadros orientalizantes, meio egípcia, chinesa, talvez barroca. viajante misteriosa entre sedas e especiarias. sinta no ar meu perfume e me siga.


post-it

(pra Rê)


1,2,3... testando.
Não me conta nada de sumpaulo, besta.
O que acontece?
Tenho sauda'demais
bem merdelangue
e muita inveja do teu oiticica com warhol.
casa comigo?
Ain, pobrezin do meu bebê febril.
Então, como eu queria São Paulo,
ou Nova Iorque contigo.
Acho que estou com saudades de óculos valentino caminhando ao meu lado...


(quinta, 22)

É água, apenas água que escorre e escoa por mim. O corpo, que sei quente, se faz de deserto e não pensa. Sei apenas do (mais) quente lateral e do sorriso fechado, como o boquete de Marilyn Wahrol. Disponho quadrados, quadrantes, áreas. Sem medidas. Sem leis. O corpo suspenso não oscila, se esquece na queda para se encontrar sempre na aterrissagem. Giro e flutuo sem gás de descolagem, meus saltos não riscam o capô profundo de seus temores. Meu rosto agora desfigurado faz pequenas lições de piano, molto vivace, em teu corpo. Os endereços se enroscam como as ruas. Minha boca explodiu e perdeu meu sorriso numa febre rósea e lenta. Eu falo francês e tenho enxaquecas, mas me sinto leve. Sem água, sou ar, deserto. Poeira.

(Quarta, 21)

como lembrar? do que lembrar? a mochila, as roupas, isso que dói. os pés que caminham. mário ou piva? o que dizer escondido entre leques, olhando ao longe a avenida paulista. as meninas da gare são hoje os garotos da estação, caçando no metrô. não quero racionalizar, mas deixar a nota suspensa, como o corpo à espera.


(terça, 20)

sangue: um símbolo, ainda. o corpo quente. quente. como quem se acha entre triângulos e quadrados. eu esperei numa fila em silêncio, não rias. abri a nota. não dou mais que uma palavra que não seja fria. não sei mais de mim do que este nome. o peso do nome em silêncio. eu quero um abraço na sala escura ao som de jimi hendrix. diante da tela enorme apenas as fotografias passam. o tempo fora dos prédios. o tempo através dos prédios. não quero ser marginal. a função destas formas encaixadas apenas me faz esquecer apenas de mim. não quero montar quebra-cabeças.


(Segunda, 19)

Um dia entre trevas, um morto que rola sem luzes, mas quando se sabe que há a luz não precisa se perguntar o que é a luz, precisa? Eu sei que ainda nos meus quilometros. Não esqueço uma página, não esqueço um rosto. Nomes, substantivos, não se confundem com as coisas, mas enlaçam os traços de olhares ocultos. O corpo é vulnerável. Sem tempo para vampiros. Tenho frio e estou quente, muito quente. Preciso de água, tenho sede.


(Noite, Domingo, 18)

Quase não hoje e quase amanhã. Rápido, estranho. Talvez. O relatório exige a lógica que eu renunciei para continuar. O diário de viagem resta assim, aberto, folhas estanques e machucadas, mais uma vez. Há a luz, as estrelas, o vermelho e o verde, opostos cromáticos, quem sabem possam dar notas harmônicas? Do que dizes, do que eu não entendo. Sou muito literal algumas vezes e viajo quando as portas não podem ser abertas, tropeço em impressões, em códigos, mas ainda sei achar uma escada sem que me seja necessário indicar o caminho. Tudo é questão de vigas e alicerces, muito medieval, nada do meu século. Tão medieval como o incubo que abraçou o sonho da noite e com beijos róseos me abriu em febre o dia, o calor do corpo se fazendo quente, os tremores que não diziam medo, apenas estou aqui e me entrego. Fácil, mas espero.


(Domingo, 18)

Do que gira e se deixa enganar. De quando a música ruim de ontem apenas nos derruba na manhã de hoje na cama. Manhã. Talvez a última delas? Quantos dias ainda resta sem o gosto ocre de noite na boca? A boca. Ainda ela. Minhas calças sujas, o rosto suado, quase mendigo, nunca um príncipe. O corpo abandonado à espera. São Paulo é grande como um codex de devassidões, não obstante, apenas os prédios, a noite, a lua, o céu escuro e impossível de estrelas aparecem. Piva, Mário, quantos meninos ainda poderão ser vistos nestas luzes? A Paulicéia ainda regurgita sua ópera de pé quebrado. De olhar enviesado, um americamen vende sopas, atrizes, vacas verdes e orgasmos. Os acidentes impossíveis de se deixarem ver estão no sentido inverso, no andar de baixo, escondida na dobra da escada da exposição. Os monstros ainda habitam o fundo do corredor.


Passaporte
(sábado, 17)

Para Andrea, como sempre.

Não sei foi um mal ou bem, não sei nem o que se passou entre os pêlos e os copos na parede. O corpo não saberia dizer de outra maneira: ao esquecer-se foi do espaço, do fora-do-tempo, não se deixou capturar. Não havia um fora para olhar, não havia quem olhasse. É, talvez, um pouco doloroso. E não poderia ser menos que isso. A névoa confunde os olhos, as identidades. Este não pára, vai direto, mas para onde? Minha fotografia está manchada. Eu não tenho motivos para não crer e aceitar, todavia, gira e lateja, entre as jóias sem valor, os saltos carcomidos pelos passos. Tudo o que era o teu todo amor. Quilômetros de silêncio: eu errei sim, mas fostes tu mesmo o culpado. É mais do que o espaço de segurança que é (ainda) preciso. É este lugar de conforto em que o reflexo do vazio não chora. Existe ainda, n’alguma gaveta, uma primeira pedra guardada? Os olhos doem pelo gesto não realizado, nesta escuridão, sequer o vidro devolve alguma imagem. Imagem baforada. As mãos pedem álcool e assepsia. Dor da minha cabeça: esquecer, lembrar. Qual o código desta área? Os satélites que observam? Eu ainda verei teu rosto? Sem precisar procurar teu rosto numa terceira ou primeira alucinação? Eu não vendo bem minha paranóia. Não vou sangrar um delírio numa banheira e eu sequer sei cantar para contar alguma história de amor. Lembro coisas sem datas. Eu esperaria apenas um sinal a mais. Mas sinal do quê? De teu silêncio? O silêncio é o lugar fantasma roubando covas, significantes e talvez aquele elo que faz “Ele”. O sol não deixa as linhas neste inguiado de faces recusadas. Preciso reorganizar minha constelação, para um novo desenho. A minha noite, como meu tempo, não dorme. Eu apenas espero aquele abraço. Tu o sabes, como ninguém, que eu quero, o que quero. Sem águas doces. Eu comi sem fome. Ainda tenho mais meio caminho. Dá-me a mão Beatriz, minha terra tremeu. De resto, eu terei aquele chá real para beber silenciosamente, como teu solene sorriso, na minha ilha distante.


Iansã

(Sexta, 16)

De que me cercas, entre as estrelas, do que devolves nas mil faces do meu espelho. A tempestade que não inunda o mundo faz raios partirem o que há dentro de mim. Afoga e soluça. Eu tenho teu cheiro. Cavalgo o mais impossível dos ventos, domestico pensamentos. Ser açoitado por uma brisa feita dor de fim de tarde, sem romantismos, não estamos no verão. Não me pergunto se o sol virá, prefiro não. Eu tenho um banquete impossível, cedros, amendoeiras. Eu devorei meus mirtilos, doces encantos que daria àqueles lábios. Eu preciso saber que horas são. Eu exercito as mesmas palavras há longo tempo. Combinando os arranjos e concordâncias. Eu não preciso de um poema. Eu não preciso de uma longa novela, de um quadro, duas árias magníficas ou um estojo de maquiagem. Eu tento capturar sua face. Meu vento volátil e selvagem grita, sacode e esperneia. Estou aqui, nem chovi hoje, nem trevoeei hoje. Meu voou foi calmo. Minhas trevas longas. Meus trovões afogaram as sereias do meu caminho. Perdi a voz. Apenas isso. Te oferto um coração seco e velho pelo vento deste deserto imenso e imerso nestes olhos de cerâmica bárbara, sem máscaras. E isto apenas.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

cântico sem voz

olha as flores, é Maria das Dores
quem canta no silêncio deserto
samba no tormento
abrindo o mundo em cores
girando, as escadas, o santo,
não há quem não se encante
o silêncio te escande no reflexo
dos olhos pisca-piscantes do antro
na cama aberta do amante

Itinerário

Para os meus bebês (Lu, Rê e Lee);
Rafz, Bruno, Dan, Rick;
& outros vultos.

A voz se prende ao concreto mais material do além do corpo, bem indiscriminadamente na curva latente, quase máscula, dos cílios longos de rímel. No fundo do palco eu te ouviria dizer algo, só pra mim. Tramando as tranças de mil fios de ódio. Não há nenhum santo para cada dia da semana. Apenas ela, uma santa bárbara, armada de dentes e unhas. Pensei que encontraria a possibilidade transtornada de ser, mas houve, enfim, como chegou em mim, ao fim do roubo. Havia deliciosamente os pratos postos e as postas de salmão nacarado cercado de flores de laranjeira. Como um balanço velho a dor doía bem, indo-e-vindo, (de)terminando os desejos, as alianças, fazendo promessas. Caminhando com as malas, os pecados, os silêncios e os vazios que pesam em ares de pura arrogância deliberada. É isso que tu queres? Não me pedes chorando o meu caminho, meu mapa é uma ligação em suspenso. O aparelho roubado não faz as pontes e os aprontes de meus passos lerdos, com dois dedos machucados e perguntando sobre como perder a poesia. Ou ainda, como ganhar da poesia. Talvez ainda, esquecendo a poesia. Uma escrita triangulada entre três santos que recitam o alfabeto impossível de um livro apócrifo deixado cem anos à frente, para além do futuro possível. A morte como mote de uma herança determinada. O outro, o bem amado, grita de alguns quilômetros. Eu só pediria desculpas na noite do adeus. A voz que eu deveria ouvir eu não ouvi. O decote rasgado em branco e preto. Os botões abertos em preto e branco. A sandália relembra o mendigo de uma Jerusalém latina, na direção do pôr-do-sol, meio andaluz, entre os prédios, na chuva. Nunca pensei que sentiria saudades de casa. Não da casa, mas minha coisa feita casa. Casa das minhas coisas. Sem nome ou privilégio. Bem feiticeira e mesquinha: a malha abre a linha, o ferro a polis. Uma escola de costura, a clínica central, as tantas árvores e tantas mais, as doses cavalares de café, por acaso, compra, vende, troca. A estação me devolve Rimbaud, a cidade me faz Baudelaire, mas de mãos nuas e cortadas, ofereço nada, nem mesmo flores, nem perfumes, mas essa dor, essa gana que lateja naquelas estátuas de mármore fino, plástico encarnado e pedra-sabão. Os vultos que me cercam e prendem e pedem. De novo, só peço desculpas. As cordas me enforcam e são puxadas por tantas mãos. Eu moro na filosofia descontinua do meu (não-)desejo. Castrato, roubo as páginas raspadas dos livros, peneirando os sonhos, os teus com os meus. E pelo resto, as desculpas retém revendo e manchando a prataria e quebrando o espelho. Por tudo suspenso no aberto da mão num aperto de mãos, marcando os rostos na memória, que se esquece de lembrar. Abre a rua, as subidas e descidas, um gargalo: não se preocupando nos casos de ter, mas fazendo ver a lua, diante dos olhos, no retorno ao lugar do castigo, ao som de três apitos.

Cenáculo

Sobre o que desejas, eu posso escrever. Ainda assim, não se diz e não se pode. As coisas que acontecem e que eu insisto no longe de mim. Meio de lado, meio assim, deitado. Meio caveira, meio músculo e meio carne. Como se o corpo devolvesse aquilo que eu não posso te dar aqui e agora. Eu sei que não quero você, sequer também poderia. Eu sei que já repeti isso em algum lugar, mas isso não é importante. O tempo não importa para além do agora. Isso que eu desenho agora neste espaço improvável. O espaço aberto como lacuna na pele. Aqui onde os pêlos se fazem através para desenhar o que não se queria. O meu silêncio não vale o teu silêncio. Os meus machucados se fazem marcas na chuva que ardem. Esta viagem inútil, mas necessária. O que eu abri aqui me ensina o caminho pelas minhas catedrais: toda cúpula de anjos tem do lado de fora as gárgulas sombrias do medo. E se como eu quisesse te dizer de um algo a mais. Um gole forte de café pra sustentar o corpo, surtir o medo, surgir como corpo forte diante do aberto em pó, larvas e concreto disso que eu não quero pra mim. A minha cartografia de horizontes largos lavra seu espaço sem se derramar. Odeio perder a mágica da profunda grandeza das gargantas que abertas eu armo no meu círculo: espetáculo vendido, bem romano, bem pão, salgado como moeda de escravos. Eu queria incluir uma terceira pessoa na cena: mas ela não se inscreve. O eu paira soberano sobre o império ruído dos signos. Apronte as flores do medo, os cristais de desejo. Isso tudo como se faz. As linhas que eu tomo sem destino deste metrô de linhas turvas que me oprime e me dá medo, mas que eu venço, mas também não queria. Assim como ser abandonado por dois apêndices que arrancam as páginas do meu itinerário. Há pessoas que se merecem. Há pessoas que apenas merecem. Eu, sobretudo, pereço no texto epistolar (bem poroso, castelo de areia com três versos sem chave). Ainda quero o meu postal pra enviar sem endereço para o porvir como abraço ao desconhecido.