para quê servem estes pincéis diante de teu corpo desnudo. um meteoro risca o céu. eu queria apenas este céu e seu. eu não posso, não agora, não assim. eu apenas te olho. queria tanto. mas você, aí. aqui apenas o silêncio, a tosse em nada romântica e os delírios. como será meu bebê? como escrever ainda aquele outro poema? promete não me deixar aqui, ainda nesta torre, meio princesa, meio em marfim, quase caindo no abismo. há dor. mas ainda há este movimento. o relógio distante dizendo que sim e que não. você vem? você virá? tão incerto. mas há sangue na cena, sangue quente e palpitante em mim. desenho o fundo do teu olho, ali onde este aqui reflete e grita. eu digo e repito seu nome. preencho as lacunas. o que é um nome? quem é você? quem é você para mim? o que faremos amanhã? te encontrarei mais alguma vez nestas linhas. como se diz isso em italiano. como lembrar aquela palavra, aquela, sempre primeira, sempre esquecida. lembro de um romance de Jacques Chardonne, 1937, você não deve ter lido. O importante é sempre este título, mais do que suas imagens. L'amour, c'est beaucoup plus que l'amour. você entende isto? não consigo sair da biblioteca e penso em ti, penso em francês, mas penso em ti tanto e ainda. L'amour, c'est l'âme qui ne meurt pas, qui va croissant, montant comme la flamme. Guérin. poderia ensaiar um movimento para além da minha filosofia, mas meu pé dói, não consigo dançar e sem voz não posso cantar. escrever é a única possibilidade, sem garrafas ao mar. não sei se gosto de Lamartine com seu Détache ton amour des faux biens que tu perds. eu preciso disto ainda, deste sussurro ainda. desta força. me sustenta num primeiro beijo?
quarta-feira, 30 de junho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
Um beijo
- Jogando amarelinha com Cortázar-
Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.
Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.
para Olívia Pacheco de Souza
meu bebê
eu sou você
linda, morena e nos saltos
eu assalto
-sem perigos-
armada de d&c
Paco me diz e me fala no ouvido de seu novo perfume
armado de Armani
eu tenho o segredo da vitória.
você sabe. ainda.
não?
rasgo a maquiagem
(ambos deciframos o código
é sim
e é não)
como?
eu delinear os olhos
pintando os horizontes de fera
o roxo que ainda não tenho
na face
tudo tão preciso
na ponta de um salto
fino
Lanço os últimos papéis na bolsa
qual delas?
quê importa?
a rua, cidade aberta,
aperta.
é preciso correr ainda.
domingo, 27 de junho de 2010
RESTOS
Isto é uma página de diário e não apenas um golpe de página. Apenas uma pessoa tem a chave, as outras podem espiar uma fechadura especular. Particularmente, gosto de ti. Não me acreditas. Não me creditas. Sou escorpião, ascendente em escorpião, lua em escorpião. Procuro minha casa 10. Respira e exige. Estas letras que deixo são como as sementes e flores, aqui me descubro Clarissa Dalloway. Escrevo das serpentes impossíveis que se enroscam na imagem. Daí que sou nobre e tu conheces apenas a voz rouca dobrada. Falo muito. Escrevo muito. O que é ser bom o bastante? Seria ser o suficiente? Não gosto deste adjetivo. Não gosto de medir o impossível. O que se exige? Será que você me lê. Como será que você me lê? Minha imagem palpita. Melancolia. Angústia. Suporto meus erres, na impossibilidade de mudá-los. Eu queria poder encontrá-lo. Você fechou seu palco. Eu cansei de Pirandello. Não conheço todos os personagens. Meu cinema é tecnicolor. Audrey Hepburn, entre diamantes e amantes. Diz Sabrina que só um jeito das coisas serem e não serem, por isso desenho. Meu passado: eu tenho? Escola, ballet, patins. Tenho uma cicatriz no joelho esquerdo e um dente quebrado: culpa de uma gentileza e de um golpe de dança. Coração: eu preciso descobri-lo. Alex Delarge é meu melhor amigo, mas não sou Beethoven, sou mais violino e cravos. Eu tenho uma coisa com quem compartilho genes. Meio vida-loca qualquer coisa. Por uma pronúncia poderás contar com a breve ou com a longa de meu nome, adequando a métrica, o verso, o meu lado aberto. Nunca escrevi e nem sei se escreverei o meu grande romance. Talvez meu livro seja esse diário impossível de ser livro. Eu não sei amar. Eu não sei se sou capaz de grandezas. Eu sou isso. As mãos são as marcas de um cavalheiro, porém eu castigo minhas unhas com os dentes. Ansiedade. Eu sei esperar. Eu aprendi a esperar. Eu sei ser essa coisa desajeitada que dança demais, pensa demais, algumas vezes bebe, dorme de menos, dorme demais, escreve e tem crises profundas. Não consegui aprender italiano e nem sei direito como aprendi francês. Vem roçar minha pele para além da fotografia prometida? Vem me tocar para além da aquarela que te devo? Não sei por onde você andou. Tenho tantos medos, tantos. Não gosto de filmes de terror. Resta em mim sobreviver aos meus resquícios Greta Garbo, sem injeção letal… I want to be left alone. O corredor largo do Grande Hotel. Como segurar metal quente com a mão sem se queimar, sem morrer um pouquinho naquilo que escoa entre nós dois? Meu coração está partido, pode sentir? Explica-me tua cegueira? Lembro de um clichê húngaro, entre ciganas, que o destino fatídico nos faz correr estes perigos, nos perder nas estrelas, mas nos faz sempre voltar. Eu pinto no impossível das palavras. O significado foi vedado pra mim. Vejo os astros, os signos, significantes. Sonhei com um beijo cruzado numa fonte clássica, entre deuses gregos e egípcios fascinados com o humano da pele. Lembro o que senti. O texto que me deu ainda não é um texto meu, não carrega o meu mal, não carrega meu nome, a fraqueza deste destinatário. Penso em ti. Apagar, escrever, parecer, exagerar são movimentos. Meu gesto entre luvas e maquiagem, tão século XVI não entenderia outra passagem. As mariposas em torno da lâmpada lembrar alguma cúpula de um teatro de Veneza. Espero, mas insisto em saber se posso usar esses dados que não são meus. Apenas um resquício de perfume.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Rime sparse
(meio Petrarca)
para quem sabe se encontrar aqui, você sabe?
volta antes das quatro, era o que eu queria te dizer. você silencia. tenho pesadelos como quedas em abismo, assim, no contágio com o real. tua ausência dói como dor que rasga. não sei o que esperar. quando penso ai giorni che ho passato insieme a te. eu quero os teus braços nus e apenas um beijo. um beijo para abrir um lugar que me abra uma passagem onde meus sonhos extraviados se encontrem aconchegados. meu corpo dói. Il mio cielo splende di quell’anima che hai. eu vou em busca de teus passos, pisando descalços os cristais quebrados, tentando alcançar teu corpo quente, roçando no meu corpo frio. serei sereia nas horas de aconchego. eu pego meu cavalo selvagem, quase rugendas, para te sequestrar, fundar minha nação, os meus guerreiros.Nel mio cuore per tutta la vita tu un posto avrai. eu não sei dizer o que quero dizer, me ensina a sentir disso? não me jure, eu não sei rezar, mas quero acreditar. eu te pedi, você deixou. agora você poderá ser culpado de um crime, mon petit prince. ai que eu me perco. você me aguentaria um pouco mais, de olhos lassos? Voi ch'ascoltate in rime sparse il suono....di quei sospiri ond'io nudriva 'l core... quem pode acreditar que o amor pode ser um delírio seu, o meu delírio pode ser acreditar. não quero marcar horas ou lugar. apenas me abraça para dormir? me faz sonhar?
para quem sabe se encontrar aqui, você sabe?
volta antes das quatro, era o que eu queria te dizer. você silencia. tenho pesadelos como quedas em abismo, assim, no contágio com o real. tua ausência dói como dor que rasga. não sei o que esperar. quando penso ai giorni che ho passato insieme a te. eu quero os teus braços nus e apenas um beijo. um beijo para abrir um lugar que me abra uma passagem onde meus sonhos extraviados se encontrem aconchegados. meu corpo dói. Il mio cielo splende di quell’anima che hai. eu vou em busca de teus passos, pisando descalços os cristais quebrados, tentando alcançar teu corpo quente, roçando no meu corpo frio. serei sereia nas horas de aconchego. eu pego meu cavalo selvagem, quase rugendas, para te sequestrar, fundar minha nação, os meus guerreiros.Nel mio cuore per tutta la vita tu un posto avrai. eu não sei dizer o que quero dizer, me ensina a sentir disso? não me jure, eu não sei rezar, mas quero acreditar. eu te pedi, você deixou. agora você poderá ser culpado de um crime, mon petit prince. ai que eu me perco. você me aguentaria um pouco mais, de olhos lassos? Voi ch'ascoltate in rime sparse il suono....di quei sospiri ond'io nudriva 'l core... quem pode acreditar que o amor pode ser um delírio seu, o meu delírio pode ser acreditar. não quero marcar horas ou lugar. apenas me abraça para dormir? me faz sonhar?
quinta-feira, 24 de junho de 2010
…e no entanto o que havia de concreto?
(ou bem à Ana Cristina César)
Talvez fosse um blues a mais, uma nota colorida demais que me fizesse pensar a te, acho que isso é italiano, não sei. Um postal a mais, talvez você não entenda minha letra. Ah, Charles e sua velha Paris. Nunca fui a Milano. Londres não é lugar para mim. Não quero uma saída. Tenho a saída. Me perdi na saída. Meu poema em prosa não tem ritmo: vinil arranhado. é ri-TI-mo. A Bethânia que gosto, você suporta? Eu preciso ainda de Roberto. Devo 300 dólares. Não deveria te falar, mas observa a conversa daquelas duas senhoras. Estou casada. Eu fui casada. Eu apenas tentei. Não sei. Você me pediu para escrever um romance de presente. Mostra-me a tua tatuagem. Posso confiar em você? Eu devo confiar em você? O que desenhar de você? Paro de pensar. Eu te falei da minha cicatriz no joelho esquerdo. Preciso saber um pouco mais de ti. Daydream. Haverá algo de podre no reino da tua Dinamarca? Há algo ecoando nas tuas cortinas, sem suborno no bordel. Eu preciso dizer ainda do meu desenho. Organizei a memória em alfabetos, como quem conta carneiros e amansa. Vi teu rosto. Depois não sei o que vi e te ouvi. Não podia te ler.Por muito tempo achei que ausência é falta. É preciso estudar. É tão inútil quanto esta tradução. Ninguém me lerá, não obstante eu preciso sempre dizer, te dizer. Disso. Da poesia que você ouviu, mas que você ouviu, bem fino, desafino. Agudo e dolorosamente. Não penso quando escrevo, sou contrabandista, você sabe. França fumando longe e em sépia. Meu cisne não se afoga, ele tosse insistemente no escuro assistindo a mais um crepúsculo de Cozarinsky. Manda-me aquele sinal.
Para Eduardo Morato
Talvez fosse um blues a mais, uma nota colorida demais que me fizesse pensar a te, acho que isso é italiano, não sei. Um postal a mais, talvez você não entenda minha letra. Ah, Charles e sua velha Paris. Nunca fui a Milano. Londres não é lugar para mim. Não quero uma saída. Tenho a saída. Me perdi na saída. Meu poema em prosa não tem ritmo: vinil arranhado. é ri-TI-mo. A Bethânia que gosto, você suporta? Eu preciso ainda de Roberto. Devo 300 dólares. Não deveria te falar, mas observa a conversa daquelas duas senhoras. Estou casada. Eu fui casada. Eu apenas tentei. Não sei. Você me pediu para escrever um romance de presente. Mostra-me a tua tatuagem. Posso confiar em você? Eu devo confiar em você? O que desenhar de você? Paro de pensar. Eu te falei da minha cicatriz no joelho esquerdo. Preciso saber um pouco mais de ti. Daydream. Haverá algo de podre no reino da tua Dinamarca? Há algo ecoando nas tuas cortinas, sem suborno no bordel. Eu preciso dizer ainda do meu desenho. Organizei a memória em alfabetos, como quem conta carneiros e amansa. Vi teu rosto. Depois não sei o que vi e te ouvi. Não podia te ler.Por muito tempo achei que ausência é falta. É preciso estudar. É tão inútil quanto esta tradução. Ninguém me lerá, não obstante eu preciso sempre dizer, te dizer. Disso. Da poesia que você ouviu, mas que você ouviu, bem fino, desafino. Agudo e dolorosamente. Não penso quando escrevo, sou contrabandista, você sabe. França fumando longe e em sépia. Meu cisne não se afoga, ele tosse insistemente no escuro assistindo a mais um crepúsculo de Cozarinsky. Manda-me aquele sinal.
Assinar:
Postagens (Atom)
