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sábado, 19 de dezembro de 2009

[6] Chambre des Elysées

geme alto e em francês. o corpo se abandona. o odor do champagne, a pele nua. os olhos estrangeiros. um encontro rápido como deslize. sem crimes. na volta o entorno. sem gelo, please. os acentos se confundem com o preço. o corpo se faz barco e abriga entre as coxas aquele outro, de barbas feitas, se dando ao preço da fuga como preço da noite. o meio da noite é o que se paga, não o não-centro de si. beijo forte, tirando sangue das gengivas. abre a boca, toma. um soco para perder cinco dentes. assim, como quem pede para apanhar. 5% a mais na cota. as paredes não deixam o som vazar. você sabe ou consegue encontrar um coração? no mínimo batimento? pague um pouco a mais. me traz um copo d'água, a tinta quase que acaba. ali, no quarto, entre as cortinas, não há mais o retrato, apenas o espelho de moldura barata refletindo as gotas de sangue sobre o lençol de seda. branco. lívido o corpo dorme.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

[2] Liebsträum

3 tons de vermelho, por favor. e um amarelo agudo. não quero tecer um rascunho de meu delírio. tome a chávena de sobre o piano. eu te queria, sobretudo, me queria nos teus braços, garota. não te imporia a nota mais aguda e ríspida como a ponta deste pincel. meu querido, Liszt, como eu te quis. e sem igual. assim, meio viciado em poréns e entãos, como as mãos trêmulas queriam tocar teu rosto para além da imagem. talvez eu pudesse, entre tantas portas, ondas, com todos os erres, sem interior influxo, pulmão arrombando o peito, além deste retrato mal feito, te oferecer uma escultura com o correr dos dedos no piano. você apenas não deveria ter me oferecido a sombra, eu no deserto, sem água, cedi: as miragens doem mais quando deixam de ser ilusões. talvez por isso eu liquefaça teu nome neste l sem rotas. sei que não lerás, sei que não entenderás esta nota, mesmo que fosse um rodapé. eu só creio em algo, não neste local, esta árida não se quer area de tons não vivos, quem sabe a tragédia ceda ao drama. pois bem, esqueço teu endereço e perco o sono. a cama resta vazia, mas o espírito inquieto.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dois corações em tempo de tragédia

Prelúdio [1]

a Andréa

o salão está vazio, nem os quadros o habitam. na vitrola um dueto, talvez, ainda queira ensaiar uma valsa de Stolz. eu não posso fazer assim se abrir a última rosa do verão, eu gostaria, mas tenho o coração cansado como os pés descompassados. eu sequer posso te tirar para dançar. o tempo da dança já passou. está também passando o tempo da música. cabe-nos observar o salão vazio. meio-dia. as cadeiras ao inverso parecem estacas num amplo cemitério. eu ainda quero meu cavalete. não tenho mais voz para cantar, tu bem o sabes que reneguei esta voz rouca aos testamentos mais velhos, dissidentes e dissonantes. eu talvez ainda saiba pintar. segura este copo d'água. pintar diante de teus olhos esta última paisagem, última biografia, talvez retrato, não, sente-se, apenas olhe como os traços dançam no silêncio. esta é a maneira de te deitar, com tintas, meu abraço.