III
Um tempo lento parecia pairar sobre as cabeças.
Um torrão de açúcar a mais no chá não significa que ele ficará bom, ela insistia nisso. Falava para si, como se pudesse dar lições, enquanto tomava o chá amargo. Do apartamento em que se confinava, da janelinha do banheiro, caso ficasse na ponta dos pés, poderia ver o mar. Simples assim. Mas ela não se importava. O apartamento meio vazio, meio silencioso, machucava um pouco, mas se acostumara. Não tinha fome e não queria saber que horas eram, não sabia o porquê e lembrava coisas que não gostaria de voltar a sentir. Era aqueles momentos rompantes de um dia cansativo, em que apenas o abandono ao pijama, ao vazio, ao esquecimento na cama, ao seu gato, poderiam fazer sentido. Ou apenas o vazio fazia sentido. Tudo se explicaria se dissesse que era domingo.
A cabeça doía um pouco. Mal lembrava como conseguiu chegar em casa, mas sabia que o belo escarpin vermelho destruído ao lado da porta deveria significar alguma coisa.
Os domingos sofriam de uma lenta tortura. Clarissa sabia que sobreviver aos domingos, a todos os domingos, era possível, mas sempre neste ritmo lento, de vazio, de amargo, como o chá. Mas chá ela sabia apreciar, além de, apesar de toda aparente fragilidade, saber-se muito resistente.
- Ele não me ligou de volta, reclamou pressentindo alguma verdade antiga latejando.
Ele, um personagem sem relevância talvez nesta cena, mesmo para Clarissa com seus longos cílios e olhos rasgados. Ela odiava correr riscos, mas vez por outra, deixava-se correr riscos como um lembrete maior do “porque não voltar a fazer isso”. Mas sabia que isso era uma grande mentira, corria os riscos por que ainda tinha alguma esperança. Ela, como ninguém, odiava ter esperanças.
Sorveu o último gole do chá. Se arrastando voltou-se na direção da cama, caso caísse ali nem mesmo o apocalipse a acordaria. Mas decidiu, como todos os domingos, tentar fingir que não era domingo. Precisava de um banho, um banho rápido apenas, para recompor o mínimo de, como dizer, de possibilidade de aparecer diante do mundo estranho. Tirou rapidamente o camisão xadrez que usava para dormir (camisolas significavam em sua enfática retórica uma noite especial) deixando aparecer um corpo bem feito, apesar de cansado. Tinha uma cicatriz, herança de uma infância pouco calma, na nuca.
Um banho gelado para aplacar a fúria, eis o que receitou para si. Odiava como ninguém a força lacerante do contato com a água gelada, mas neste momento era o que precisava. Um banho rápido, nada mais. Sentir-se dona de seu corpo, e nada. mais. Os pés doíam ainda, marcados pela longa caminhada. Mas decidiu não pensar no ontem, queria vencer o domingo. As dores apenas lembram que ainda se está vivo. Os anjos não vivem. Eles não sofrem, não se doem.
Ainda com a pele úmida, jogou sobre o corpo uma camiseta branca com o rosto de Marilyn Monroe estampada, um jeans meio velho, calçou os tênis com um pouco de dificuldade. Os cabelos curtos ainda pingavam, mas não queria saber das pessoas, precisava apenas caminhar, correr esquecendo o corpo no vento para que o vento lembrasse o corpo, para ajudar o tempo, o domingo, a andar um pouco mais depressa.
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domingo, 10 de janeiro de 2010
À procura [parte II]
O frio doía na pele, já vermelha de tanto friccionar com as mãos tentando se aquecer. Chovia muito. Os saltos finos mergulhavam em poças d’água suja, o jeans colava-se a pele, a chemise fina deixava entrever o corpo bem-feito. Bebera demais. Os cabelos curtos caiam sobre o rosto. A cidade parecia morta e não havia nenhum táxi à vista. Os faróis passavam rápidos. Os prédios se faziam sombras tímidas, como torreões medievais cuja donzela se perdera. A maquiagem, como todo resquício de dignidade, escorria e parecia arrancar a pele. A chuva açoitava, mas o que mais doía era o vento zunindo nas orelhas. Ela não perguntava o porquê disso. Três daiquiris a mais do que devia e um pequeno infortúnio fizeram isso. Mentira. Ela escolheu isso. Já deveria estar acostumada à chuva e a solidão, o elemento novo era, no entanto, a bebedeira. Ela sempre odiara beber, porém aquela noite, entre a luzes enigmáticas, entre os corpos se oferecendo, entre a música que lhe forçava os tímpanos, escolhera o fundo do copo. Erro óbvio, como tudo que fizera. O copo entornado tornou tortuosos os caminhos do corpo. Não deveria ter saído. Não mesmo. Mas depois desta noite o que restasse de si estaria um pouco mais forte, um pouco mais resistente, pensava tentando manter alguma salvação. Os pés anestesiados pela água gelada nem doíam. Ela só queria um banho quente, sua cama, seu gato e nada mais. Tudo parecia rejeitá-la, mas ela sabia que no fundo era ela mesma que não queria nada daquilo. A vida não poderia se resumir a isto. Poderia ser muito mais simples que isso ou muito pior, mas não queria assim. Não queria se fazer vítima, mas recusava a oferecer seu corpo como banquete para um marmanjo desconhecido. Não, assim não queria. Precisava ter algum sentido, fazer algum sentido. No entanto, tudo parecia dizer que não. Um carro estranho parou, ele gritou alguma coisa, ela, com a mão, retirou a franja que caía sobre o rosto, os olhos negros dela pareciam habituados com o frio.
- Não, obrigada... já estou perto de casa...
O estranho assentira, fechou o vidro e tornou ao seu caminho. Ela sabia ser muito convincente, mas mentira, teria de andar muito ainda. Não, não queria estranhos agora. Odiava isso. Não queria precisar de alguém, era horrível demais pensar que a sua felicidade poderia estar na mão de um estranho. Ela era feliz, só não estava naquele momento. Depois do fundo do poço, depois do efetivo fundo do poço ela estaria bem. E, bem, as circunstâncias que se encontrava poderiam ser literalmente o fundo do poço: estava confusa, tinha frio, havia muita água e a escuridão. Apesar de tudo ela sabia que iria sobreviver, precisava apenas andar.
- Não, obrigada... já estou perto de casa...
O estranho assentira, fechou o vidro e tornou ao seu caminho. Ela sabia ser muito convincente, mas mentira, teria de andar muito ainda. Não, não queria estranhos agora. Odiava isso. Não queria precisar de alguém, era horrível demais pensar que a sua felicidade poderia estar na mão de um estranho. Ela era feliz, só não estava naquele momento. Depois do fundo do poço, depois do efetivo fundo do poço ela estaria bem. E, bem, as circunstâncias que se encontrava poderiam ser literalmente o fundo do poço: estava confusa, tinha frio, havia muita água e a escuridão. Apesar de tudo ela sabia que iria sobreviver, precisava apenas andar.
À procura [parte I]
de um certo exílio
com ecos de Antero de Quental
para Andréa de Carvalho
como convite a aventura
(... uma vez que o era uma vez não cabe mais...)
QUATRO horas da manhã, um caminho errado, uma decisão, um gole de vinho a mais. Tudo o que dói sempre dói mais, machuca mais, no silêncio da madrugada. Algumas coisas não são escolhas deliberadas, nem mesmo posições tomadas que devem ser sustentadas até o final da cena. A noite estava bonita, uma enorme lua, estrelas em profusão como se o céu tivesse se preparado para alguma coisa especial. Era uma noite sensual, qualquer um poderia perceber isso, mesmo que da rua não pudesse vislumbrar o vulto esguio no terraço do prédio. Havia notas doloridas de uma música feita caminho, como algum dia, sozinha assim no terraço, o vulto armado apenas de um cálice de bom merlot, a pele branca exposta ao vento, a fina camisola de seda, um desejo impossível palpitando no peito. Ela sabia o que deveria fazer, mas não poderia, não mesmo, a não ser nesta noite, deste décimo terceiro andar. As coisas poderiam ser tantas, e boas, ela sabia, ela mesmo dissera isso ao telefone a uma amiga durante a tarde. Há momentos em que não se pode fazer muita coisa, era isso que ela sabia, dali, de sua vista privilegiada, observando a mancha negra que o mar fazia no horizonte. Mas não havia mais nada, nenhuma certeza a que se agarrar, nenhum sonho restava ainda intacto. A mão branca de dedos finos e unhas roídas tocou o rosto. Havia marcas ali que não eram marcas do tempo, mas marcas de um tempo que ela não poderia vencer, marcas silenciosas de desespero. Talvez o que procurasse não existisse, talvez estivesse junto com as estrelas. O vinho amargava ainda mais o gosto de solidão da noite. Ela se habituara a esta dor, fazia-a talvez se sentir um pouco mais viva, um pouco mais… mas não era isso que ela queria para si. Não entendia como ser viva assim. Viver assim, não era viver. Não parecia viver. Ela mais do que ninguém entendia que uma noite sozinha significava o mesmo que uma taça de vinho vazia, significava que outra, taça ou noite, se seguiria, e de novo, e de novo, e novamente. Era preciso encontrar algo, nem mesmo que… Num gole rápido, seguido de um gemido adocicado, esvaziou a taça, bebeu assim o vinho raro que ganhara de presente. Bebeu como se fosse simples água de torneira, sem prazer. Para tomar em uma ocasião especial, disse-lhe o pai. Ocasião que não chegava e pelo visto não chegaria nunca. Olhou o cálice, um Waterford, presente de vovó para quem tomar um vinho refinado exigia um cristal à altura. Tão frágil, tão belo, tão único. No parapeito, olhou o chão, tão solitária e ímpar quanto o velho cristal. Sorriu mostrando os dentes perfeitos, marcados ainda pelo vinho. Ela sentiria falta do cristal, mas decidiu experimentar. Quanto equivaleria, em dor, treze andares? Quanto? Assim, simplesmente, soltou o cristal. A taça rodopiou e foi assumindo rapidamente sua invisibilidade. A noite não deixava perceber o movimento, embora ela jurasse perceber a taça em queda pelo vislumbre de um reflexo, não conseguiu ouvir um som, nada. Obviamente o cristal se partira em milhões de fragmentos, impossível permanecer intacto depois de um vôo como este, mas apesar da certeza, a seda da camisola reluzia tímida e criminosa, o azul escuro se confundindo com o céu da madrugada, era necessária alguma certeza, dizia para si, um soluço agudo cortou a noite abafada e quente, voltou-se ao parapeito, inclinou-se muito, sentido o vento no rosto, treze andares, a sensação do vento fazia a pele arder num fogo gostoso, mas havia necessidade de conferir uma última verdade universal, uma lei, precisava ir, e rápido, lá embaixo ver como ficou sua taça. O vento era… muito… convidativo…
com ecos de Antero de Quental
para Andréa de Carvalho
como convite a aventura
(... uma vez que o era uma vez não cabe mais...)
QUATRO horas da manhã, um caminho errado, uma decisão, um gole de vinho a mais. Tudo o que dói sempre dói mais, machuca mais, no silêncio da madrugada. Algumas coisas não são escolhas deliberadas, nem mesmo posições tomadas que devem ser sustentadas até o final da cena. A noite estava bonita, uma enorme lua, estrelas em profusão como se o céu tivesse se preparado para alguma coisa especial. Era uma noite sensual, qualquer um poderia perceber isso, mesmo que da rua não pudesse vislumbrar o vulto esguio no terraço do prédio. Havia notas doloridas de uma música feita caminho, como algum dia, sozinha assim no terraço, o vulto armado apenas de um cálice de bom merlot, a pele branca exposta ao vento, a fina camisola de seda, um desejo impossível palpitando no peito. Ela sabia o que deveria fazer, mas não poderia, não mesmo, a não ser nesta noite, deste décimo terceiro andar. As coisas poderiam ser tantas, e boas, ela sabia, ela mesmo dissera isso ao telefone a uma amiga durante a tarde. Há momentos em que não se pode fazer muita coisa, era isso que ela sabia, dali, de sua vista privilegiada, observando a mancha negra que o mar fazia no horizonte. Mas não havia mais nada, nenhuma certeza a que se agarrar, nenhum sonho restava ainda intacto. A mão branca de dedos finos e unhas roídas tocou o rosto. Havia marcas ali que não eram marcas do tempo, mas marcas de um tempo que ela não poderia vencer, marcas silenciosas de desespero. Talvez o que procurasse não existisse, talvez estivesse junto com as estrelas. O vinho amargava ainda mais o gosto de solidão da noite. Ela se habituara a esta dor, fazia-a talvez se sentir um pouco mais viva, um pouco mais… mas não era isso que ela queria para si. Não entendia como ser viva assim. Viver assim, não era viver. Não parecia viver. Ela mais do que ninguém entendia que uma noite sozinha significava o mesmo que uma taça de vinho vazia, significava que outra, taça ou noite, se seguiria, e de novo, e de novo, e novamente. Era preciso encontrar algo, nem mesmo que… Num gole rápido, seguido de um gemido adocicado, esvaziou a taça, bebeu assim o vinho raro que ganhara de presente. Bebeu como se fosse simples água de torneira, sem prazer. Para tomar em uma ocasião especial, disse-lhe o pai. Ocasião que não chegava e pelo visto não chegaria nunca. Olhou o cálice, um Waterford, presente de vovó para quem tomar um vinho refinado exigia um cristal à altura. Tão frágil, tão belo, tão único. No parapeito, olhou o chão, tão solitária e ímpar quanto o velho cristal. Sorriu mostrando os dentes perfeitos, marcados ainda pelo vinho. Ela sentiria falta do cristal, mas decidiu experimentar. Quanto equivaleria, em dor, treze andares? Quanto? Assim, simplesmente, soltou o cristal. A taça rodopiou e foi assumindo rapidamente sua invisibilidade. A noite não deixava perceber o movimento, embora ela jurasse perceber a taça em queda pelo vislumbre de um reflexo, não conseguiu ouvir um som, nada. Obviamente o cristal se partira em milhões de fragmentos, impossível permanecer intacto depois de um vôo como este, mas apesar da certeza, a seda da camisola reluzia tímida e criminosa, o azul escuro se confundindo com o céu da madrugada, era necessária alguma certeza, dizia para si, um soluço agudo cortou a noite abafada e quente, voltou-se ao parapeito, inclinou-se muito, sentido o vento no rosto, treze andares, a sensação do vento fazia a pele arder num fogo gostoso, mas havia necessidade de conferir uma última verdade universal, uma lei, precisava ir, e rápido, lá embaixo ver como ficou sua taça. O vento era… muito… convidativo…
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