eu sobrevivo.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
nota esparsa
eu, três da manhã, o livro aberto, a respiração presa, um envelope no chão. quando você teria colocado ele aqui? a letra corrida, nunca descoberta... a frase teria um outro efeito, alguma validade? ou já teria passado o prazo riscado? (é o que resta de um desejo) corro os olhos sobre a página: ele - pois não havia dúvida quanto ao seu sexo embora a moda da época fizesse algo para disfarçá-lo -estava golpeando a cabeça de um mouro que balançavados esteios. (é o fragmento de um sonho não lembrado). engulo um suspiro, o ponteiro se move, o tempo suspenso: em queda! redescubro o táctil da vida. sem perfume. impossível manter uma conversa com tanto silêncio. sem chocolate. ‘But what about royalties?’ he asked. não fumo. não tenho controle. fecho o livro. sem restos. engulo em seco. três pingos em sépia. o vinil riscado se repete indefinidamente no meus murmurejar longo. And the twelfth stroke of midnight sounded; the twelfth stroke of midnight, Thursday, the eleventh of October, Nineteen hundred and Twenty Eight.
a quem interessar possa
é um pouco demais, este sorriso que se abre devagar como uma janela que se abre deixando vislumbrar os cômodos e algum vulto. eu tento me esconder há tanto tempo, tanto tempo, mas é sempre você que sai de diante dos meus olhos. ficam os retratos nas caixas de recordação. não tenho tanto dinheiro assim, mas posso desenhar a nossa casa futura, como se eu realmente soubesse desta possibilidade de amanhã. aquele balanço onde juntos estaríamos lá e cá, sem sair do lugar, sem precisar correr.
os lençois amarfanhados, vazios, não dizem nada.
meu codinome é sonho de valsa... para as nossas quedas veladas de fim de tarde.
eu não sei fazer arte, esculpir, finjo muito bem e com tantas palavras, como um perfumista que sabe e domina um único odor, pianista de uma única nota: dó.. porque tudo dói em mim e meus dias não fazem sol maior.
não sou um místico, apesar das histórias que o tarot me conta. das histórias que estranhos sempre me contam, sempre precisam que se ouça. mas alguém é capaz de ouvir esta voz que insiste aqui? não, não dá mais. eu não sei o que posso fazer por você. talvez apenas sorrir e acenar na varanda, como começo do caminho.
ainda penso no meu presente para você, numa pequena canção, entre os suspiros e os sustenidos. o aperto de mão secreto no cinema.
o que você contará ao mundo, sem esta nossa canção, talvez minhas coisas e desejos sejam simples demais, mas não os consigo por em palavras. nada ainda está terminado. espero que não se importe com este meu quebra-cabeças tornado texto. meus sussurros se prendem entre as vírgulas. você é capaz de ler aquilo que não consigo escrever?
me sentei no telhado mais uma vez, perigosamente, neste meu complexo cirque-de-soleil... de subir e me lançar... machucando o tornozelo como em belo horizonte.
eu não sei definir uma vida maravilhosa, talvez nunca tenha aprendido a colorir direito. meus pinceis não entendem as cores. tudo monocromático e monossilábico. mas eu espero. o que poderias insistir ainda? talvez um pequeno retrato para guardar na carteira. eu só vivo depois do pôr-do-sol.
mas me perdoe se eu ainda escrever de novo e insistir nisto, se as mesmas figuras retornarem, mas é isto que eu faço. mesmo sem saber. perceba que ainda não sei dizer se suas mãos são quentes ou frias, se tremem... se me olhas de frente ou com o canto dos olhos buscas lateralmente alguma escapatória. preciso que aprendas apenas o meu mote: Malo mori quam foedari. não gosto de carpe diem. qual é a cor de seus sonhos enquanto dormes... como dormes... estrela do mar....
aqui estou eu, malas prontas, a encruzilhada, o musgo que ainda se agarra a página, um coração que pálidamente se inscreve perdido no deserto. eu ainda sei esperar.
embrulhado num lenço de seda
minha cabeça dói com mais um mapa fechado. minhas pernas cansadas. tudo tão desorganizado. eu ainda acordado. três pílulas para dormir, outras duas para existir. ainda sei respirar no modo automático. tu me envias a ''minha'' canção. esta que dizes ser minha. mas ao mesmo tempo não dizes nada. nada. nada. a mão espalmada, entre o tapa e o carinho. see you around. estou perdendo meu francês. não fumo. há quanto tempo não bebo. ainda devia escrever sobre blumenau e os últimos percalços, mas será? I don't have much money but boy if I did... I'd buy a big house where we both could live. ah... simple boy... não sei para onde correr. é como se o céu girasse e a terra ainda mais rápida, contraditória, invertesse as verdades. quantos quilômetros são necessários para desfalecer? sinto aquela vontade de correr e de não ouvir nenhuma voz, correr em linha reta, em alguma direção. talvez algum dia siga os trilhos do trem no fundo do meu quintal. talvez eu apenas durma e dormindo me esqueça, a mim, a meu nome. quais as palavras que me escapam e não me deixam dizer de ti? não sou bom nisto. quiçá seja bom em alguma coisa. minha caneca de café esfria. ainda espero aqueles versos traduzidos. eu não tenho lá muito dinheiro para estas corridas delirantes. meus pulsos doem. tanta coisa a decidir mesmo sem opções. minha agenda diz do amanhã que tenho medo. desta casa grande, gatos e livros. os passos solitários ecoando no sotã: os pesadelos e as escolhas que sempre nos assombram. uma pá de terra. a dúvida morta-viva. I hope you don't mind.... across the universe. os grandes romances me estragaram. eu encontraria Mme. Bovary me acenando num musical em blue. qual seu perfume? terá recebido meu postal? meus enigmas caem aos poucos para dentro das gavetas, esquecidos com meus diários. sou esquecível. sem palavras. você seria capaz de descrever meu rosto? talvez apenas saia duas ou três palavras sem coragem. não sou tão bonito e carrego estas marcas, pés tortos. édipo seria um bailarino? preciso dar as minhas notas, terminar minha leitura, morrer mais um pouco. meus 24 anos perdidos se aproximam. sem táxi, não poderei fugir para a barra da lagoa, beber um pouco mais, me esquecer, desligando o celular... a responsabilidade ainda fica aqui. cega e certa. mecânica. this is song: o relógio é quem ordena. eu ainda queria poder tomar um café contigo numa destas manhãs, perder um lenço, um desenho... e ocupar um banco vazio numa praça esquecida. tão mínimo.
anamnese
cefaleias, enxaquecas e outras dores.
Conversas esparsas som o ilmo. sr. doutor N.:
- sabe qual é a cura pra enxaqueca?
- qual?
- beijo.
- que tipo? onde? como? qual o tratamento?
- o tratamento começa com beijos estalados no pescoço, que vao subindo até a orelha e pouco a pouco vão chegando ao canto da boca do paciente. se houver interesse do paciente, o tratamento pode ser mais eficaz, mas é preciso cooperaçao...
- em doses homeopáticas, sr doutor?
- nao, a dose precisa ser alta e com frequencia
- tratamento intensivo...
- pede repouso?
- pede, mas nao absoluto. o paciente precisa se exercitar...
- qual a recomendação neste caso?
- sexo.
- qual o efeito terapêutico?
- alivia o stress, libera endorfina, contribui para a melhora do humor, aumenta criatividade
- alguem especifico pra ministrar? acompanhamento 24h?
- eu! 24h...
- quanto tempo dura o tratamento?
- difícil dizer... em alguns casos o tratamento não pode ser interrompido até o fim da vida.
- efeitos colaterais?
- fome... depois de terminada cada sessão...
[...continua...]
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