quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Inferno

O fundo falso, o alçapão, a cova. São sempre mais perfeitos. A tristeza é saber que o inferno não mata. Que os anjos caídos, anjos da noite de face oculta são sempre mais belos, como as estrelas. Mas, não sendo espaço celeste, nem místico, nem mágico, o inferno é vivo. É retrato. Espelho. Lugar em que suspenso, no escuro, sozinho, tenta-se sobreviver. Escrever é o vislumbre sedutor da morte, que nunca vem. Pode ser certa, mas sempre demora tanto. Não há luzes, nem caminho. As coisas explodem e murcham, as cartas sempre retornam, os sons apenas rasgam a pele em dor, sem troppo. Assim, sozinho, feito sombra, no longe, tão perto das luzes, das estrelas, no frio, na calmaria do absoluto, diante das formas simétricas, resta o condenado. Sem voz, nem mesmo pra gritar.

curvas

[23h24 de 08/12/09]
[passando por Itajaí]

I
a buzina forte, três bancos a frente, assim, na curva do olho, no efeito desejo,vislumbre de tecido lateral. a marca morena do abdômen quando levantou o braço. apolo não seria assim, não teria este samba assim. coisa que decerto tu nem ouves. um abraço forte e um gole de café faria bem. estando assim, bem louco pra beijar, mas o escuro, às costas a paisagem obliterada por um caminhão. o escuro assombra. é pesadelo no limite geográfico do abandono.

II
teu corpo se faz delicioso. se faço este poema é para te manter aqui, imagem latejante. a intermitência da distancia separa este corpo do teu. outro corpo negado. tua tatuagem te dá o espírito único nos teus olhos verdes vermelhos de sono. diz assim, devagar, tocando de leve os lábios no ouvido, que está louco, perturbado, seja como for, querendo ocupar este lugar de arrepios vago. a poltrona reclina, o gesto declina. diante de mim, se inclina e insinua isto, ambos sabemos impossível de palavra. não há destino imediato. não há final possível. Apenas o querer latente deste rosto indivisavel na penumbra.

III
as meias abafam os passos, um arrepio persegue as unhas, seguindo a curva num salto estrelado. dois goles d’água afogam o beijo que se quer. não há nada mais forte à mão, nenhum único desejo de retornar, assim nestes passos de bailarino bêbado, fazendo mágica erguendo a própria cartografia na página. esta página onde todos se empurram devagar, como se tivesse frente e verso, mas tudo, no branco vazio de barco, o afã baroc disléxico e que perde a luva nestas esquinas rápidas.

IV
a rodovia rodopia diante dos olhos fechados. os corpos-corpos cadáveres continuam inertes. as rodas fecham as portas do coração entupindo veias e fechadura com angústia e vazio de ecos. eu insisto em não saber cantar ou sorrir. tudo algumas vezes dá na mesma. ouço cássia eller cantando em francês. tenho tantas opções. nem sequer consegui tocar no meu chocolate suíço. as lembranças de um destino possível doem. eu não posso mais querer de. não posso mais tremer as palavras nos poemas que eu devo. devo mais poemas que dinheiro. eu faço versos como quem paga dívidas de vida, abrindo pulsos, sem ser dramático, contando uma história chaveada do amanhã.

V
as luzes da cidade acesas me ativam uma música que não quero trazer à cena. há no meu quadro de alice, dentro deste ônibus, um menino mau. que corre e grita. esperneia sem saber sonhar. sentado quieto, mantem a respiração irrequieta. devagar. o pulso domado sabe tantas verdades. já perdi, quase, este menino três vezes na curva da minha mão, com os dedos que insistem em apagar a linha. ele tem medo do pileque, do vômito, das máquinas enlouquecidas. gosta das garotinhas como outras garotinhas.

VI
abre o mundo sempre devagar. como pedir ao garoto, alice, um beijo, adivinha, para outro garoto. a dúvida persegue, a minha moça, nas ruas de londres, nas cartas de uma virginia. não me leve ao mundo. há um gosto de castanhola no sonho. um gosto de amor latino e ladino como os cães latindo que eu apenas vejo e não ouço. as violas, magias se fazem. meu deus. meu cadillac é isto aqui. me dá um ramalhete de flores murchas, uma luva e um anel de brilhantes. não, não é o que eu quero. o calor faz mal e pede sorte nesta noite sem estrelas e sedes candentes. a cadência desta vida é um trocado chacoalhando de leve na bolsa, uma moeda rolando pelo corredor, debaixo dos bancos.

VII
uma outra cidade. um outro quilômetro. o corpo inteiro te queria sem saber divisar teu rosto. eu tenho mil remédios, como os desejos, clássicos e las(en)cerados, o amargo na boca não é tristeza. é uma aspirina mastigada. que rola no digestivo abaixo. fazendo a mente manter sua garantia com algum. o sol poderá vir. mas não quero dis-curtir astrologia. Cansei de desejos. eu queria apenas que um soluço preso na garganta não se libertasse, que não houvesse necessidade do poema. o poema faz vezes desta banalidade, de ser pra você que me faz sorrir, mas eu só faço chorar. faço vezes de moderno, o tempo é rombo, não curva, as abóbodas são diante dos meus olhos ápodas não sabem como tomar o trem depois disso aqui. o ônibuso me leva. a alma fica presa em algum lugar. um cão mijando na esquina. engulo, duro, um sorriso. o teu. eu sei. eu deveria te seguir, mas tu não quis. tu não desenhou meu mapa. la nuit de mon amour, diz elis. mas sem ultimas estrelas desacredito essa pele infante, sem cor, sem sabor ao espelho. eu vejo as sombras que se lançam e se laçam numa felicidade ignorante de si. eu tomo goles rasantes de água, rente ao asfalto quente. é isso. a cabeça diante da guilhotina do desejo impossível aceita o vazio de si, desenha a curva, euclidiana, do seu ultimo movimento. ronde dans La terre. ronde en l’air. A ronda que a roda não sabe. meu último passo de ballet. pointé. point.

Egmont

overture in F minor Op. 84

Rosas. Sequer gosto de rosas. Flor que despetala na primeira lágrima. É preciso tecer com os raios da manhã este bordado de pontos cruzados. Pontas de cruzadas de olhares detestados. O paladar salgado de quem acorda de um pesadelo ameaça sempre o dia. É preciso mais do que um teste feito texto que se acorda nos acordes que são acordos entre pausas. Espreguiça lentamente abrindo as mãos, tocando meu cabelo. Descobri o mote feito mulher. A poesia feita em prosa aberta para além do que começa com o era uma vez. E foi assim que pus num envelope virtual, e por isso virtuoso, um pedaço da minha pele marcada. Um pedaço deste couro que se faz cinto e sentido em mim. De mim. Por isso desenho devagar as arestas, como quem ensaia a dança, como que aprendendo a dar os laços no cetim, na seda, nas vírgulas que impelem os pontos. A sutura que não se abre. A voz que se faz corte. Não preciso mais correr. Meu tempo marcado está no esperar até junho. Talvez em fevereiro o impossível aconteça. Desisti de milagres. A minha catedral é feito estético da pura forma. A estesia deixo como dedo cegando o olho. Acho que a falta não é sentida bem como a fala não é ouvida. Eu sonhei um sonho tão mágico. Acordei sem as pérolas, sem asas, com um cheiro ocre no ar. Meus livros se devoram enquanto devoram a mim. O quadrado branco de um naco de carne é o que resta fora da marcha. Forjo um título como quem força a fechadura. Forço um não mais, um não ainda, para fazer epígrafe, lápide, moldura. Para dizer do salto XIV e da flor de lis tatuada em cada ombro. O coral de vovó foi roubado, não poderia dizer que está guardado. Não o consigo recuperar de maneira alguma. Nunca. Seria bom que voltasse para mim. Mas tanta coisa não volta. Tanta coisa é apenas lá distante estrela reluzente e insistente como o zumbido frenético de uma tuba, de uma tumba, do mover-se do cadáver. Porém, de-testado, o corpo desfalece, como flor, flor ferida aberta na raiz dos cabelos, emaranhando as tranças, as lembranças, as heranças, mas sobretudo flor que não se faz flor, mas flor que acontece flor, sem ter cor, perfume, som. Longe de ser rosa, apenas roda e aparece às vezes condicionando o vôo das borboletas.

domingo, 27 de dezembro de 2009

à procura

hoje comecei um romance, escrito como carta em aberto. como página para um leitor apenas. para alguém que também sabe que faz e que desfaz na escritura este eu desmanchado. como todos os outros restará apenas o vestígio. como presente. presente perplexo e contínuo em que não construo nada. em que desisto do jogo. em que eu não posso. tu ficas aí na tua janela fumando placidamente seu cachimbo. nem mesmo há tu. este nós feitos de descompasso e desencontro. eu queria poder responder a uma pergunta apenas, que tu não fazes. não podes fazer. não realiza o encontro. não podes. penso em abandonar o museu caso eu consiga fechar o diário. os jornais capturam as páginas em preto e branco. o dedo indicador dói. insignificância e ausência. eu queria poder escrever um pouco mais, mas não é possível. é preciso deixar a latência, o roxo da pele, a dor no fundo da retina descansar. quem sabe assim seja possível o fim.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

não acredita nesta esfinge
a placa diz vire à direita
o abismo feito serpente engole
o vazio verde do deserto
as formas do que esqueci
pode ser
assim, isso que preciso
manchando a moldura dos quadros
o último retrato não salva
não traz solução
não traz resolução
mas há muita coisa
a se esconder meu sorriso
o largo das mesas
compras, compras, compras
não compras
a mão que te estende
sem luvas
a luva
a certeza
o anel que rola escada abaixo
imagem que cai
como o outono
esquece
anda devagar
deixa a chuva molhar
o macio da tristeza
para ficar nisto
e nisto apenas

exílio [4]

erro a citação como está escrito.por amor à ti sou entregue à morte todo dia. reputado como ovelha ao matadouro. mas estou cá, bem certo, que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem o presente, nem mesmo o futuro diz de alguma coisa. quem é que me condena? tira o castiçal do lugar, acende o fogo. eu estou leiloando a estrela da manhã. irritadiço. perdendo os fios, as linhas, a razão. tudo para ocupar espaço. fazendo das palavras pegadas as quais me apego e insisto em ver um vulto perscrutador na janela. sombras que se movem. welcome to my junggle.usa os saltos, acena, arruma os cachos, garota. é preciso fazer sorrir. olha bem esta 3x4. fixa este rosto. é este corpo que quero nos obituários amanhã de manhã. quero tudo limpo, asséptico. sem rancores, muito profissional. sem vínculo e sem prazer. sem últimas palavras. bom, o tempo corre. vamos?
[22 de dezembro]

exílio [3]

me diz o que tu queres de mim, me diz o que esperar de mim. estou aqui, nu, passando frios. as estações não se alternam neste inferno escuro. o inferno é assim, roendo os ossos, em abismo. sozinho, no escuro, passos da loucura. todos fazemos uma escolha lenta. cueca branca ou preta? assim decido meu jogo de xadrez. me comporto até o adágio final. sei que este romance não terá um final feliz ou trágico. c'est toi? c'est moi? não há sequer um romance ligado no aleatório. minhas janelas não abrem, não tenho terraços. há apenas a banheira, assim, devagar se enchendo, devagar esvaziando. o corpo murchando no excesso. abandonando o próprio do abandono. queria um cigarro apenas. uma baforada mística para ler na fumaça aquilo que as cartas não dizem. não sei dizer se me enviou notícias. fugi do torreão do castelo do qual me fazia dragão. um contínuo suspiro se pendura e como pêndulo agita as dores. around the world, corres e voltas o rosto pra mim, assim, como quem sabe o que disse e roga as pragas. não consigo mais predizer o futuro. All I ask of you. não sei cantar, não me dê notas assim. eu apenas ouço. estas notas são falsas, não valem nada.sempre. não sei o porquê de falar com este reflexo estranho no fundo mágico da bacia de estanho. prata, bem pudera. será que minha vela já queimou até o fim? hoje ainda é o começo da terça-feira. algumas flores não são nem felizes nem tristes, apenas solitárias. não precisam de nada, nem mesmo d'água para serem flor, sem serem abertas ou belas ou perfumadas. não fazem botão. nem se despetalam devagar. nem se dobram às janelas. mas uma flor feita em gran finale. assim molto vivace, andantino con grazia, meno presto. maquiando-se de olhos fechados, na própria dissonância cantabile fazendo muxoxo e pouco caso. rasga a fotografia e o fino dos textos! oculta o beijo... esta história não requer uma princesa. há um certo sorriso feito allegro, mas non tanto, ma non troppo, ma non molto. largo, sangrando o sangue vienense no mais leve do dia. procura o toreador, aquele que não tem touro, mas nem sabe que se já perdeu, se já morreu. manda-lhe vir. vá pensiero. tudo isto se desenha num scherzo noturno, com as estrelas do anoitecer na montanha. eu espero soar a valsa para este vazio, para este brilho cigano. it's my way. abro todos os botões da camisa, estou nu, peito limpo, esperando o franco atirador.
[22 de dezembro]