Sempre tive poucos amigos e nunca duraram para sempre. Minha utopia não é um amor perfeito, mas realmente poder dizer que tenho um bom amigo para confiar, alguém que vai estar ali porque quer, não porque transaremos às duas da manhã e depois irei para casa sozinho, mas justamente porque não o faremos.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Ma'or
Estou me sentindo um lixo hoje, uma tristeza enorme, mal saí da cama, a vontade destruidora de chorar, mas eu não sei chorar. É o estômago que pulsa. Tudo fica meio preso entre a garganta e a idéia. Não quero pensar. Queria me esquecer. Desculpe por passear por velhos túmulos, liberando antigos fantasmas. Odeio me sentir vulnerável, é como se estivesse nu.
Id est
Estou brega. Tentei escrever um poemeto e saiu isto: queria poder sentir o toque da sua pele na minha, a fricção táctil e movente do pensamento que não pensa, o calor do teu abraço, os calafrios repentinos quando recuas, o gosto de tua boca, tão clichê, tão desgasto, mas… ainda… o cheiro de teu suor, o corpo que te inventas, deixando nossas sombras se envolverem, os olhos se perdendo e desencontrando-se no fundo dos outros olhos, os dedos tomados pelos nós se enlançando, a respiração como música, em três por quatro tempos, presto vivace, a verdade baforando misteriosa, como nunca, na nuca.
Noblèsse oblige
O silêncio é ensurdecedor, por isto escrevo. Hoje fecho minhas comunicações. É a ponta solta que me falta. Quanto tempo faz que te conheço? Ainda lembras quando te conheci? Eu sempre volto à mesma cena. O gole amargo de café. Trago as datas marcadas, mas não faço senha delas. O fato é que apenas eu soube e mais ninguém. Calculadamente. Penso no que poderia ter sido caso não tivesse lançado os dados. Caso não tivesse aberto o mapa, olhado a janela e me segurado um pouco demais no parapeito. Sem cair de um quinto andar, despenquei. É engraçado tocar o celular e dizer não, não agora, não de novo. E me engano. Não posso esquecer que tenho médico na segunda. Preciso dar alguns telefonemas também. Acordei meio Grinch. O menino sentado num banco à espera. Conto os desaparecimentos, reviso o arquivo. Uma xícara de chá, por favor. Há poucos minutos queimei os meus projetos, meus esboços, e isto não é uma figura de linguagem, fica o resíduo da verdade almejada latejando. Há um pequeno e apertado coração, mas ainda há. Acredito no que te disse. Marquei os pontos no mapa. Não tenho nenhum lembrete para amanhã. E se eu tivesse tido a resposta que esperava, o que faria? Um trocou os nomes, outro, os corpos, e tantos outros mais os olhares. Um segundo lugar para o esquecimento. Minha caneca de chocolate fumegante depositada na cabeceira esfria devagar, como a vida se esfria. No meio do deserto um cantor solitário ainda caminha para Ribla. Grifo: Jó 15,22. A noite escura, a chuva, o frio, a caneta como espada cortando a linha como se cortasse o pulso (“… porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme…” - Cantares de Salomão, 8:6-7). Peço demais, bem sei. Meu corpo esconde meu Sheol, este lugar de onde não se pode fugir. Me exponho a este ridículo desdobramento sem formas. As definições podem ser muito contraditórias. Insistiria em pedir, mas não é de bom tom. O mofo aos poucos vai cobrindo as cores, a hera se enroscando nas vírgulas, é possível que chegue o dia que nada reste, nem cinza. A maioria das estrelas cadentes não cumpre os desejos, os pedidos e os desatinos.
Em papel esparso
Seis horas da manhã de uma sexta-feira e chove. E isto poderia ser tudo. Qual a cor de uma sexta-feira chuvosa? Meu quarto escuro, apesar do inverno uso meu pijama de verão. Pernas nuas, braços desarmados. Sob a cabeceira da cama alguns livros que cansei de ler. Meu pé toca o chão, o úmido, o gelado, nada disto importa. A mão alça a possibilidade: abro a persiana deixando que pouca luz encontre algum escuro. Minha janela voltada para o leste não verá o sol nascer entre as pesadas gotas. Eu sinto o silêncio. “Alor voze”. Uma idéia me atropela: sair do quarto e ir brincar na chuva, na água que se acumula, nisto que, da manhã, ninguém observa, mas o frio de lâmina com que ela corta me desespera. Os pelos se eriçam no braço. Um golpe de coragem a zero grau de temperatura. “Você com a mão no rosto me assusta”. Paro de ler o indevido. Outra mão procura o que resta de calor na cama bagunçada. Deixo Crevel quieto no seu canto. Arranco uma coberta da cama e a lanço as costas. Arrumo meu banquinho diante da janela, em que abro uma fresta para que o ar entre. (“Where is my Love”). Escrevo devagar meu romance sem romance. O que retorna é o demônio da analogia e uma comparação cruel. Minha caneca de café vazia. É preciso sorrir quando as idéias te assaltam. Minha chuva, janela entreaberta: a procura do sentido no consentido e a espera do não-sentido do silêncio explícito. Valho quanto peso? Sonho acordado. Volto meses, avanço anos e encontro o temido “e se”. Remendo a velha desculpa, mas você não sabe me ler. Espero o rangido do portão. Os cães não ladram. Chuva lenta, chuva de dias e as gotas, “perles de pluie”, acumulando-se num canto das lembranças. Retoco mentalmente o quadro da fotografia que recriei e não sei dizer do que sabes. Tento gastar a idéia, os pensamentos fazem ruído alto como engrenagens mal-cuidadas e não consigo ouvir o som da chuva. Me ausento de mim. Queria a chuva, como chuva, apenas.
D’uma carta (não tão) recentemente escrita
Dear Sir
Quase três horas da manhã… ouço Chico Buarque (não necessariamente aquele que você me deu) cantando as minhas perguntas, estas que giram em mim. “Que roupas você veste? Por quem você se troca? Que bicho feroz são seus cabelos que à noite você solta? De qué que você brinca? Que horas você volta? Seu beijo nos meus olhos, seus pés que o chão sequer não tocam… a seda a roçar no quarto escuro e a réstia sobre a porta… Onde é que você some? Que horas você volta?”. Eu sei que irei encontrar um silêncio já previsto, talvez a carta se perca, talvez o endereço tenha mudado, talvez escreva numa língua que desconheça… Não tenho tanto medo de um destino que não acredito mais do que do destinatário acreditado… mas ainda me desafio e tento, insisto. Esperança é tentar ainda mais uma vez, contra todas as expectativas e probabilidades, esperar que o resultado mude (não sei o que é mais seguro, se o silêncio ou sua ausência). Talvez eu só faça esperar porque é a única coisa que posso fazer. Apostar acreditando que os dados não estejam viciados. Melhor que ser o primeiro é ser o último, quiçá elevado a categoria de único… talvez seja impossível entender o que eu não te disse e que você queria que eu te dissesse, mas que não posso dizer. Roland Barthes, ainda… sem aqueles “incidentes” (ou aquelas páginas diárias de um não tão diário em que te escrevi) que te deixei, que deixamos… febre alta, estrada aberta, as pessoas passando, como talvez um dia passaremos um pelo outro, ocultos pela multidão, silenciados pelos ruídos, marcados pelo tempo, talvez nossos olhares nos atravessem e não nos encontrem, talvez até veja teus olhos, mas não te reconheça ali (“…leva o teu olhar que a saudade é o pior tormento, é pior que o esquecimento, é pior que se entrevar…”). Desculpe por te fazer ler tudo isto. Logo mais o trem passará aqui perto, não aquele trem que seguiríamos, mas outro, fazendo barulho, fumaça, anunciando o dia, anunciando que poderei dormir (é Cazuza que me aconselha do fundo da música: “… todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito e a solidão é a pretensão de quem fica escondido fazendo fita…”, embora quando não durmo não saiba mais quem chamar e a mão tateie o escuro procurando a amitriptilina que me amarga a boca, o dia,). Desculpe por talvez atrapalhar teu sono. Desculpe por voltar, como fantasma, a te assombrar. Desculpe por invadir mais uma vez teu espaço. Não tenho, desta vez, um bom argumento para fazer isto. Mas o silêncio, o escuro, o frio… Isto que me escapa a mim e à minha lógica… Te peço desculpas, como se as pedisse a mim, por me sentir idiota, por isto e por ainda pedir desculpas, mas ainda assim fazê-lo…
Está feito: a sorte, como os dados, está lançada.
Sem mais…
…desculpas.
Ps. “Foi uma ilusão, uma insensatez, há que pôr os pés no chão outra vez. Era como um trem que anda sem passar, mas foi um sonho de sonhar porque sonhava com você. Então seu canto veio me acordar”. Ainda Chico, Cantiga de Acordar, porque é necessário conseguir dormir, ainda que sem sonhar, para, quem sabe, poder acordar.