O silêncio é ensurdecedor, por isto escrevo. Hoje fecho minhas comunicações. É a ponta solta que me falta. Quanto tempo faz que te conheço? Ainda lembras quando te conheci? Eu sempre volto à mesma cena. O gole amargo de café. Trago as datas marcadas, mas não faço senha delas. O fato é que apenas eu soube e mais ninguém. Calculadamente. Penso no que poderia ter sido caso não tivesse lançado os dados. Caso não tivesse aberto o mapa, olhado a janela e me segurado um pouco demais no parapeito. Sem cair de um quinto andar, despenquei. É engraçado tocar o celular e dizer não, não agora, não de novo. E me engano. Não posso esquecer que tenho médico na segunda. Preciso dar alguns telefonemas também. Acordei meio Grinch. O menino sentado num banco à espera. Conto os desaparecimentos, reviso o arquivo. Uma xícara de chá, por favor. Há poucos minutos queimei os meus projetos, meus esboços, e isto não é uma figura de linguagem, fica o resíduo da verdade almejada latejando. Há um pequeno e apertado coração, mas ainda há. Acredito no que te disse. Marquei os pontos no mapa. Não tenho nenhum lembrete para amanhã. E se eu tivesse tido a resposta que esperava, o que faria? Um trocou os nomes, outro, os corpos, e tantos outros mais os olhares. Um segundo lugar para o esquecimento. Minha caneca de chocolate fumegante depositada na cabeceira esfria devagar, como a vida se esfria. No meio do deserto um cantor solitário ainda caminha para Ribla. Grifo: Jó 15,22. A noite escura, a chuva, o frio, a caneta como espada cortando a linha como se cortasse o pulso (“… porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme…” - Cantares de Salomão, 8:6-7). Peço demais, bem sei. Meu corpo esconde meu Sheol, este lugar de onde não se pode fugir. Me exponho a este ridículo desdobramento sem formas. As definições podem ser muito contraditórias. Insistiria em pedir, mas não é de bom tom. O mofo aos poucos vai cobrindo as cores, a hera se enroscando nas vírgulas, é possível que chegue o dia que nada reste, nem cinza. A maioria das estrelas cadentes não cumpre os desejos, os pedidos e os desatinos.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Em papel esparso
Seis horas da manhã de uma sexta-feira e chove. E isto poderia ser tudo. Qual a cor de uma sexta-feira chuvosa? Meu quarto escuro, apesar do inverno uso meu pijama de verão. Pernas nuas, braços desarmados. Sob a cabeceira da cama alguns livros que cansei de ler. Meu pé toca o chão, o úmido, o gelado, nada disto importa. A mão alça a possibilidade: abro a persiana deixando que pouca luz encontre algum escuro. Minha janela voltada para o leste não verá o sol nascer entre as pesadas gotas. Eu sinto o silêncio. “Alor voze”. Uma idéia me atropela: sair do quarto e ir brincar na chuva, na água que se acumula, nisto que, da manhã, ninguém observa, mas o frio de lâmina com que ela corta me desespera. Os pelos se eriçam no braço. Um golpe de coragem a zero grau de temperatura. “Você com a mão no rosto me assusta”. Paro de ler o indevido. Outra mão procura o que resta de calor na cama bagunçada. Deixo Crevel quieto no seu canto. Arranco uma coberta da cama e a lanço as costas. Arrumo meu banquinho diante da janela, em que abro uma fresta para que o ar entre. (“Where is my Love”). Escrevo devagar meu romance sem romance. O que retorna é o demônio da analogia e uma comparação cruel. Minha caneca de café vazia. É preciso sorrir quando as idéias te assaltam. Minha chuva, janela entreaberta: a procura do sentido no consentido e a espera do não-sentido do silêncio explícito. Valho quanto peso? Sonho acordado. Volto meses, avanço anos e encontro o temido “e se”. Remendo a velha desculpa, mas você não sabe me ler. Espero o rangido do portão. Os cães não ladram. Chuva lenta, chuva de dias e as gotas, “perles de pluie”, acumulando-se num canto das lembranças. Retoco mentalmente o quadro da fotografia que recriei e não sei dizer do que sabes. Tento gastar a idéia, os pensamentos fazem ruído alto como engrenagens mal-cuidadas e não consigo ouvir o som da chuva. Me ausento de mim. Queria a chuva, como chuva, apenas.
D’uma carta (não tão) recentemente escrita
Dear Sir
Quase três horas da manhã… ouço Chico Buarque (não necessariamente aquele que você me deu) cantando as minhas perguntas, estas que giram em mim. “Que roupas você veste? Por quem você se troca? Que bicho feroz são seus cabelos que à noite você solta? De qué que você brinca? Que horas você volta? Seu beijo nos meus olhos, seus pés que o chão sequer não tocam… a seda a roçar no quarto escuro e a réstia sobre a porta… Onde é que você some? Que horas você volta?”. Eu sei que irei encontrar um silêncio já previsto, talvez a carta se perca, talvez o endereço tenha mudado, talvez escreva numa língua que desconheça… Não tenho tanto medo de um destino que não acredito mais do que do destinatário acreditado… mas ainda me desafio e tento, insisto. Esperança é tentar ainda mais uma vez, contra todas as expectativas e probabilidades, esperar que o resultado mude (não sei o que é mais seguro, se o silêncio ou sua ausência). Talvez eu só faça esperar porque é a única coisa que posso fazer. Apostar acreditando que os dados não estejam viciados. Melhor que ser o primeiro é ser o último, quiçá elevado a categoria de único… talvez seja impossível entender o que eu não te disse e que você queria que eu te dissesse, mas que não posso dizer. Roland Barthes, ainda… sem aqueles “incidentes” (ou aquelas páginas diárias de um não tão diário em que te escrevi) que te deixei, que deixamos… febre alta, estrada aberta, as pessoas passando, como talvez um dia passaremos um pelo outro, ocultos pela multidão, silenciados pelos ruídos, marcados pelo tempo, talvez nossos olhares nos atravessem e não nos encontrem, talvez até veja teus olhos, mas não te reconheça ali (“…leva o teu olhar que a saudade é o pior tormento, é pior que o esquecimento, é pior que se entrevar…”). Desculpe por te fazer ler tudo isto. Logo mais o trem passará aqui perto, não aquele trem que seguiríamos, mas outro, fazendo barulho, fumaça, anunciando o dia, anunciando que poderei dormir (é Cazuza que me aconselha do fundo da música: “… todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito e a solidão é a pretensão de quem fica escondido fazendo fita…”, embora quando não durmo não saiba mais quem chamar e a mão tateie o escuro procurando a amitriptilina que me amarga a boca, o dia,). Desculpe por talvez atrapalhar teu sono. Desculpe por voltar, como fantasma, a te assombrar. Desculpe por invadir mais uma vez teu espaço. Não tenho, desta vez, um bom argumento para fazer isto. Mas o silêncio, o escuro, o frio… Isto que me escapa a mim e à minha lógica… Te peço desculpas, como se as pedisse a mim, por me sentir idiota, por isto e por ainda pedir desculpas, mas ainda assim fazê-lo…
Está feito: a sorte, como os dados, está lançada.
Sem mais…
…desculpas.
Ps. “Foi uma ilusão, uma insensatez, há que pôr os pés no chão outra vez. Era como um trem que anda sem passar, mas foi um sonho de sonhar porque sonhava com você. Então seu canto veio me acordar”. Ainda Chico, Cantiga de Acordar, porque é necessário conseguir dormir, ainda que sem sonhar, para, quem sabe, poder acordar.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
marca-página
sexta-feira, 17 de junho de 2011
CASU CONSULTO
… Un destin si funeste,
S’il n’est digne d’Atrée, est digne de Thyeste.
[Para quem souber ler].
Há tanto tempo deixei de fingir que fazia versos ou de tentar entender, de pensar na superfície do papel, dirigindo a tinta, desenhando e deformando os contornos que agora não sei. Na memória resta um borrão que talvez, se imaginar direito, possa ser cópia d’algum quadro de Monet. Minha biblioteca fechada. Minha vida, vazia. Depois do “boa noite” o telefone não toca. Não pode mais. Quantas horas perdidas na espera. Esta é a parada. Personagem coadjuvante que perde a fala. Não espera a deixa. Esta é a minha parada. Deixo o grande relógio de pulso sobre o banco. Que o tempo siga, que os ponteiros não parem enquanto dobro a esquina como quem dobra e esconde um bilhete no bolso esquerdo da calça jeans. Com um lenço descartável retiro a maquiagem enquanto caminho. À mostra aquela ruga (tantas vezes perseguida) pulsante no canto da boca. Olhos, bocas, expressões e tantos tons. Apagando o rosto. Pagando pelos vestígios e pela passagem. Não sei o preço da viagem. A vida como álbum de fotografias. O dedo anelar da mão esquerda traz a unha roída sangrando. Os erros como num conta-gotas. Dei-te mais que um poema. Éris, sobre a cena, marca um x no peito como quem conta, como quem jura. E procura. E insiste. Da primeira vez tinha apenas dezesseis anos, os bolsos cheios, tantos papéis turvos de idéias mal-sabidamente roubadas. (Quando escrevi meu primeiro romance perdido – mais de cem personagens, sempre principais). Agora, sem tempo, defronto-me com o branco vazio. Escondi os mapas dentro de uma pequena novela que não quero ler. Na dicção certa de uma novela pode, no estender da página, fazer-se um romance. Insisto n’outra página, aquela copiada em surdina de um diário, em que quinze linhas, dois pontos, três vírgulas e nenhuma reticência poderiam, não sei, insistir mais ainda. Ainda erro na gramática, mas sem história, não pinto os retratos. O rosto barbado com dois olhos – copos vazios – e sem cartas na manga. O que poderia trazer o correio? Há a sede. Os passantes como aqueles (aqui) que observam sem ver. Em uma mão o comprimento da vida, n’uma demão, o prolongamento do ar, no ar, do reflexo malicioso. Entre os lençóis o nome trocado, o companheiro errado. Diante do passo: uma moeda perdida, lançada (como dado) para o bueiro. De quê importa o resultado? O trilho do trem. O carvão se agita entre os dedos, a orelha sem o diamante. Talvez última cena, como estribilho, suspiro por detrás da câmera que ninguém no cinema viu ou ouviu. Acredite, faz frio, perto do grau zero. Desço as escadas, os porões. Subo as escadas, os sótãos. O mesmo cheiro ocre de grito de vendedor ambulante, o mesmo engasgo de quando a agulha de costura alça o dedo, o retorno do olhar desviado. Talvez tenha perdido o tempo como quem corre e chegando antes do trem crê que o perdeu. (Tinha de descer sempre na Sé). A mente é um lugar perigoso para se andar sozinho. (som metálico de um coração pulsante). Onde desci agora? Num outro ponto do mapa, uma garota não sabia dos perigos da Jonhsons&Jonhsons: roubaram-lhe as lágrimas. No trigésimo andar do mesmo edifício um psicólogo selava cartas. Três ruas adiante, nas quais certamente não passei, uma garota morena com uma saia rodada preta com bolinhas brancas brincava com um iô-iô enquanto esperava se motoqueiro rebelde. Ao som Dvörak, um belo rapaz procurava o corpo de outro no escuro do desejo. Na esquina um rapaz loiro, sem preço, oferecia-se fácil e lânguido “para todos os fins” de todos os transeuntes; mesmo local em que três anos antes, furtivo e apressado um jovem advogado esbarrou numa moça que trazia o ombro tatuado onde se lia Te moneo (neste exato momento um historiador, em Paris, derramava café em suas anotações). Nem ele, nem ela pediram desculpas (o historiador teve que começar de novo). Cinco anos mais tarde, uma sereia balzaquiana entraria em uma livraria e se recusaria a comprar as notas embebidas em Paris (quase como um trem da meia-noite). Obra que, certamente, também não li, mas decerto sabemos sua importância, dado que é o resgate da discussão de dois biólogos acerca das vespas da família Evaniidae. Em Detroit, uma jovem moça reconstruía o Robocop enquanto seu designer-assistente celebrava a newface. Entre ilhas, um entregador que chegava sempre atrasado, um que nunca saia e um que nunca voltava se revezavam em dúvidas sempre mortais. Na pequena Londres vitoriana, sem violinos, um espectro secreto, tão perto, talvez pudesse esconder meus segredos num de seus lenços de seda. No trem que agora passava pelos trilhos, uma moça com grandes óculos escuros lia placidamente a VogueNY, três vagões atrás, classe econômica, um menino de três anos comia batata frita com sorvete. Destino: Braxília. Mas o quê ainda fazer com as fotografias que restam ainda na gaveta? Como encaixá-las, como perdê-las? Sempre perdido, nunca perco as coisas, costumo ser inquirido com um pouco mais de rigor e compelido a doar meus pertences (isto se compondo como eufemismo para assalto). Se não tivesse dobrado a primeira esquina, talvez tivesse chegado ao meu destino, na volta passado por uma farmácia, comprado minhas novas pílulas, passando pelo busto de Augustus e de Charles Magno sem prestar atenção na sua pátina verde-fosforescente. Acho que ficarei doente, portanto, não se danos. Sinto a garganta arranhando, como gatos brigando por uma espinha de peixe. Há o medo das curvas perigosas – sou eu que não encaro enxaqueca como uma doença,mas como alerta. É delirium tremens de um viciado em palavras - em abstinência. As verdades suspensas e seu solidário destino solitário: O impossível carinho (Manuel Bandeira). Releio o bilhete enviado: “Fecha seus olhos daí que os fecharei daqui… pra poder receber meu beijo. Vai que durante este propósito acontece algo. Como um lapso no tempo, um furo no espaço… e eu dê meu beijo e você o receba…” – como a resposta que não houve e aquela que poderia ter havido (“Que sonho seria poder te abraçar agora e sutilmente entre meus dedos passar os macios fios de teus cabelos. E velando teu sono, poder arriscar um leve e suave beijo em teu olho esquerdo ou num rápido flashback provar do teu cheiro em meus lábios após tocá-los em sua testa”). Difícil parar os pensamentos. Quanto tempo tenho perdido tentando planejar o futuro? É tão fácil assim esquecer alguém ou é este eu que se lembra demais? Diálogo entre paredes: O que você faz. Nada. Respiro. Só pra passar o tempo. Zanzando pra lá e pra cá. Baratatonteando. Tomando café. Sem propósito. Existindo. Esqueço o mapa, as cidades, as voltas. O teto do mundo que não pude tocar, ou toquei sem saber, sem sentir. Poderia existir alguma certeza na inconsistência da inconsciência. Ao invés de sentar no banco, subo nele. Baco e a única tragédia. Nó no pescoço. Hora do último passo. Não há corpo para a devora. O que eles teriam em comum. Aquela moeda atirada ao bueiro. Segredou num quase epílogo: “quanto maior o livro,menos chance ele tem de ser lido”. Uma carta não retirada. No remetente: Tirésias. No silêncio, a recusa de uma lápide. A última palavra não dada.