terça-feira, 1 de março de 2011

"Há quem chore, há quem ligue a chave de ignição"
(José Carlos Capinan)

não sei dirigir. também não sei chorar. escrever é um delírio bem particular. como quem não come o feijão com arroz dos dias. eu como nada. você não entende. é disto que eu preciso. você talvez dessa sua escada lentamente para sua corrida matinal. eu apenas deixo os dedos cavalgando, as pupilas correndo sobre a página, soltas na pista, prontas paras as curvas perigosas. não tenho o corpo que você gostaria, mas dou um belo rodapé no teu drama.

"eu sou como eu sou"
(Torquato Neto)

me desdobro na lógica, acreditando na estrutura fundada. o relógio é que pesa como as pálpebras as seis da manhã. nem toda insônia vale um poema. nem todo poema é um pedaço de mim. a maquiagem malfeita, esta hora, talvez ainda seduza. escovo os dentes para dormir, respiro para não acordar.

"Uma curva e eis-nos diante de meu coração"
(Francisco Alvim)

o que cai, bate, estatela.
eu é que parti
mais longe do que a viagem.

não toquei a estrela
nem mesmo o reflexo dela no fundo dos teus olhos.

restou apenas isto,
a letra pendente como ps
na carta não correspondente
o envelope que não sei se chegou
o que queria te dar
e não pude
enterrei em algum lugar
talvez sem querer o encontre.

Poema Cavalleresco

(florilegi)
...come amor lo strinse...

che sappiamo del tempo?
romanzo cortese,
canti di antichi cavalieri:
(Amor mi ispira)
guanto, vela, rose.
(non mancano di freschezza di sentimenti)
una lacrima
non più in volgare amore.
nella mia ombra
persone aristocratiche
e di gusti raffinati.
che vuoi? che vuoi?
ricordiamo anche il ritmo di travale
che passa nelle scritture
Credo che in provenzali
Prendi una pausa della penna
per lo più anonima.
ammirato da lontano.

(coisas de biografia)

você esteve na minha vida por mais do que três longos tomos completos.
eu não estive na sua nem mesmo num lampejo poético, rima simples, um verso.
não é relevante desperdiçar veneno em bebidas postas em copos de plástico.
é incoerente reafirmar as certezas de como realmente as pessoas esquecem mais do que seu nome e seu rosto:
sua (in)existência.

um pouco de xadrez

quantas peças estão postas diante do tabuleiro? eu preciso dar as devidas pausas para escolher como me mover. é sempre preciso, nas dez primeiras jogadas, evitar bloquear as próprias peças e assim ir liberando espaço. em que jogada estamos nós? quando posso dizer que tu, quem começou o jogo, parou de jogar e derrubou o rei? mas o jogo aqui é mais grave, as peças são combinadas, as casas para ser ocupadas são mais amplas, o tempo dispendido diz da tua coragem. mas isto pode significar somente quando um de nós desistir do jogo. talvez esta seja a jogada perigosa. não adianta assegurar suas fortalezas para tentar um futuro roque, o que temos pra esta noite não são algumas notas feitas de algum rock'n'roll. é cello dolorido, o arco deixando marcas no carpo e no rádio. o que tu sintonizas? escondendo nas mãos nervosas de unhas roídas os dados no bolso esquerdo da calça. eu sei onde tu esconde tuas cartas falsas de ás de ouro. saber do jogo não me impede de pará-lo. dizer isto apenas muda as regras de lugar. sem flores na manhã seguinte por favor. jogadas ensaiadas não surtem o devido efeito quando se descobre que as casas vermelhas valem -10 pontos. qual a vantagem de manter o controle? insisto. eu te mostrei minhas cartas e eu não blefo. todo ganho do peão na abertura com a dama é um erro. nunca toque na dama cedo demais. mas não deixe passar a chance. é o rei quem sempre pesa e (se) atrapalha nos lances. recomendo: giuoco piano. algum vinho, chocolate, por favor. evite tocar o fígado no jogo. eu tenho minhas defesas preparadas, não tenho medo de impor as linhas de sangue. mas você sempre para de jogar e foge, não desiste do jogo com honra, não sabe da desculpa para mantê-lo aqui. não me diz ainda nada. eu nunca insisto. escrevo sempre. nunca recapturo um peão, mas ofereço apoio. qual a ordem dos movimentos numa variante fechada? não tente argumentos lógicos ou sorte num jogo restrito. sua coluna está aberta. é minha dama quem te olha. peças negras e luzidias armadas de brilhantes até os dentes. não te faço peão dobrado. te libero no campo aberto, saltando as minas, os paus e as copas. não te preocupe com minha dama, é seu rei que é o alvo.