sábado, 7 de novembro de 2009
Mehr Licht!
chove através dos livros. abraça-os, menino, n'uma magreza filosófica de não-poder. no fundo dos óculos embaçados habita a dor revirada dos olhos sem fim. quê fazer quando nada resta. quê fazer quando a rua vira água. a dor no centro deste eu é puro vazio significante. tudo se constrói numa paisagem sincopada. o francês escapa por dois dedos. a chuva nem molha mais que a melancolia na qual imerge o corpo. a dor é de uma apagar das cores. a dor colada no fundo torto da retina descolada. a mão desenha no papel algumas letras. a gota fugidia escapa na fronte. a vida (a)posta num tabuleiro de xadrez. ele mira lentamente atira a pedra certeira. os gritos. o corpo calado à espera dos cães. a morte se ausenta da cena na soleira da porta. podes dizer? os fantasmas é que gritam. o pensamento é fino e escoa por um bueiro da avenida. não há motivo nenhum para salvá-lo. para prende-lo aqui. biscoito fino dedicado ao bolor dessas paredes. que sobrevenha a meia-noite. o inferno. tudo como um borrão de acaso se desfaz diante dessa realidade. chove através dos livros. o sangue que escorre do peito é tão barato que pinta uma linha última de destino.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
relevância zero. a dor na garganta. o ar condicionado. três abertos no pulsos. ela olha a tv. a tv engole o corpo alheio e se fecha em luzes. condicionadas. a sintaxe condicionante. o condicionador que não destrói. o hidratante e o hidrante imersos em água. nenhuma palavra. afundando nas almofadas, a morte.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
o homem dos livros
há um retrato de freud ao revés do homem dos ratos. a biblioteca define. papéis amarelos. livros abertos na profusão de pensamentos que se entre-chocam. ele choca de leve uma idéia preciosa. capas de muitas peles. n'um canto um crânio ritual. n'outro a caneca de café e o cigarro. ritual. uma dor que cresce devagar. do edíficio antigo mergulhado estranhamente entre os prédios. ambos solidários. solitários. tão humanos e deslocados. não sabe se sente saudade. aqui está seguro. entre uma vênus de milo, máscaras incas, ídolos celtas, budas, tapeçarias persas. o mundo que cabe n'um cômodo. ali. submundo da cidade. 3 andares entre milhoes de andares. degraus para o inferno. um quadrado dentro de outro. malinovski. olha timidamente o stradivarius, queria tocá-lo. não deve. as grossas lentes, já não tão grossas. talvez derivadas de um novo polímero, não sabe, não s'importa realmente. funcionais. não vai ao museu das novidades. o amplo templo de corpos expostos ao sacríficio do tempo. de perfumarias apenas, de fato, os perfumes de sua requintada toilette. sem entrar no mérito da questão. um dia, meio sem querer, leva o dedo à boca, à saliva, vira a página. torna a repetir o movimento nunca antes feito. risco. arisco. arrisco. um gosto de estrela lhe atinge o paladar. sedução de um coração-corpo-mente assim esquecida. lentamente, como quem prepara um filho para a devora, rasga o canto de uma página e leva a boca. o canto das sereias. ulisses e o cometa. cometa o crime. come-esse-caminho. viciosamente começa a correr nos círculos secretos da biblioteca, como se tivesse muitas línguas e bocas, páginas são destrinchadas e cruamente engolidas. de gourmet á gourmand. a língua passeia como lesma pelo salão. viscosa a mucosa se abre em flor. até que... cólicas. obsesidade. ânsias e vômitos convertidos num mesmo caminho. fuga. que fazer? o medo se apodera daquele corpo-caractere. um corpo folhado no silêncio abismado do caixote século xvii entre os prédios tão modernos. and clean. em meio a dor só consegue um resmungo de pergunta, assim com os olhos ansiando por um apoio celeste na cúpula repleta de anjinhos: senhor, ajudai-me, não importa o que restará de mim, mas apenas o que sairá através de mim. o quê? céus...
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
a fuga da caixinha de música
j'oublié ma recherche.
sentada de pernas nuas ela observa. deseja desvendar o que se passa ali. no crânio do outro. a cabeça encovada dele se faz com cenáculo sagrado. cinematograficamente não diz. ela abre um botão do vestido nacarado. a pérola salta sobre o busto tímido. os cabelos curtos. os pés alvos. a mão na braguilha. os olhos disparam as setas. o corpo se faz todo em desejo. há um frio que sobe devagar a nuca e que como punhado de areia desliza sob as ondas de perfume deste corpo. sem nome. um assassinato. sem número. 37, diz a cinderela. tem jeito de querer um cigarro. bebe no puro cristal dos pés. o ventre palpita. o pezinho sangra em vermelho nada ponderado. extravagantemente real na cena em sépia. é preciso terminar o espetáculo diante desses olhos desejosos de meu fim. o perfil anguloso dele, à sombra oculta, finge que não observa. nem lamente. finge que não sabe que ela abrirá todos os botões do vestido e se descobrirá nua e sem amarras por debaixo dele. obviamente ela não fará isso. faz parte do sincero personagem que desempenha. deixe meu dinheiro aí, ao lado das flores que eu mesma comprei. o ventilador faz um barulho seco. sozinha. um jato frio no corpo. água com a temperatura cadáver do dia. encontro, enfim um cigarro. queria um charuto. gostarias, talvez? quebra uma unha por pura raiva, sem histerismos. sabe gostar dos tons de azul que despontam tão verdes dos braços. as poltronas vazias em torno. a passagem comprada. where will you go? de olhos fechados. to hell, of course. de olhos ainda fechados, nem sequer sonha, não se pode deixar cair neste luxo, em pé, fumando solenemente, nua, insiste em lembrar que os diamantes lhe machucaram as orelhas. o roxo de uma mordida anônima no seio esquerdo faz sinal. um suspiro fundo. o cigarro acaba. na última baforada como o real mais tangível desse 15º andar.
sentada de pernas nuas ela observa. deseja desvendar o que se passa ali. no crânio do outro. a cabeça encovada dele se faz com cenáculo sagrado. cinematograficamente não diz. ela abre um botão do vestido nacarado. a pérola salta sobre o busto tímido. os cabelos curtos. os pés alvos. a mão na braguilha. os olhos disparam as setas. o corpo se faz todo em desejo. há um frio que sobe devagar a nuca e que como punhado de areia desliza sob as ondas de perfume deste corpo. sem nome. um assassinato. sem número. 37, diz a cinderela. tem jeito de querer um cigarro. bebe no puro cristal dos pés. o ventre palpita. o pezinho sangra em vermelho nada ponderado. extravagantemente real na cena em sépia. é preciso terminar o espetáculo diante desses olhos desejosos de meu fim. o perfil anguloso dele, à sombra oculta, finge que não observa. nem lamente. finge que não sabe que ela abrirá todos os botões do vestido e se descobrirá nua e sem amarras por debaixo dele. obviamente ela não fará isso. faz parte do sincero personagem que desempenha. deixe meu dinheiro aí, ao lado das flores que eu mesma comprei. o ventilador faz um barulho seco. sozinha. um jato frio no corpo. água com a temperatura cadáver do dia. encontro, enfim um cigarro. queria um charuto. gostarias, talvez? quebra uma unha por pura raiva, sem histerismos. sabe gostar dos tons de azul que despontam tão verdes dos braços. as poltronas vazias em torno. a passagem comprada. where will you go? de olhos fechados. to hell, of course. de olhos ainda fechados, nem sequer sonha, não se pode deixar cair neste luxo, em pé, fumando solenemente, nua, insiste em lembrar que os diamantes lhe machucaram as orelhas. o roxo de uma mordida anônima no seio esquerdo faz sinal. um suspiro fundo. o cigarro acaba. na última baforada como o real mais tangível desse 15º andar.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
roman à clef
no key's novel.
meu rosto coça. os animais não falam. sinto o calor roçando a pele. queima. arde. confessa. é doloroso. meu rosto como plástico, enruga. deforma. queria pular. de um prédio a outro. isso é uma resposta? o cheiro de canela me invade. sempre forço e erro a mão, mas perco o pé. gosto de sorrisos abertos como asas de anjos. volta aqui. sei que não deveria sentir falta. seu silêncio. sei que precisava te dizer. alongo os sonhos e os cílios num desejo incolor que retiro de um frasco caro de rímel. deus proíbe que se diga tudo o que pensa. o elevador chegou. faço você ejacular, mas não dentro de mim, diz a puta loira dos cabelos desgrenhados. há um telegrama silêncioso. rock. empresa falida. pó. há alguém mais longe ainda. isso é estranho. ainda. e se você conseguisse pegá-lo? meu peito, é do lado direito que dói. esse é meu lenço preferido, é seda, sabe. a banheira, creio, é de estanho. a puta ainda grita e geme dentro de um carro roubado. estou começando a... e... eu sei que meus pincéis estão trocados. a máquina de costura une lábios. tu falas sério, formal demais, com palavras negras como este seu terno barato. luto prête-à-porter. as pessoas de meu país não entendem meus erres. roubei minha língua num roubo bem inocente. quase que angelical. sutil. de leve. como uma mão que roça um rosto que dorme sem sonhar. o dedilhado do piano diz que queria que todos nós fôssemos felizes. não quero chorar, não quero ficar feia. um torrão de açucar a mais, uma lágrima de menos. preciso de minha caixinha de música com minha bailarina. morde a maçã, minha princesa, e dorme. nem todos os roubos são ruins. a gente rouba beijos e copos. esquece o corpo perfumado no fundo da gaveta. no fundo do banheiro, no escuro do cômodo, no raso da banheira os olhos se fecham num poema. não insiste no grande segredo. apenas se esquece e dorme.
the novel with a key.
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