segunda-feira, 4 de maio de 2009
domingo, 3 de maio de 2009
telegrama parafrásico
a Mr. A. C. V.
Um coração em acidente, uma veia que estoura: xícara de chá vazia e nada mais. o café escoa ralo abaixo com as últimas gotas de esperança, abandono Poe: para nevermore... nevermore... há uma insígne dor de calo, calo de salto alto que insiste.I like Chopin, é o fundo da cortina. Todo o andar de bailarina com coque desmoronando. começo a ter um vazio de certeza. Um vazio que talvez diga não. Encho a xícara uma vez mais, nas longas curvas, os longos dedos de unhas roídas, ali onde se esquecem as fumaças do cigarro. Sarah me oferece um luck strick, há esperança neste sorriso horizontal e olhar que fura almas. piscadelas para afastar o mal. Onde estará meu whisky, reclama meus olhos embebidos na fumaça. Renegando cérebros ao rés de ti com todos os seus AVCs. É hora de queimar as crenças: bruxas destruídas sem sonho e sem nenhuma literatice. Há coisas que doem como o vazio, como resto de açúcar, resto de 3 cubos simétricos de ilusão. Quando o cansaço bate, esqueço, iria escrever em francês, mas digo não. A publicidade me destrói. Eu insisto no não, no nada. Não quero mais três goles azedos de leite. Tento avaliar no nível das palavras as coisas que me doem agora. Terá algo mais? A insistência me cansa: more, more, more, datilograficamente, more. Nevermore. Odeio as aves. Os cães do inferno me olham de lado, lambem meus pés com uma língua em fogo. A frase hermética seguiu como um telefonema anônimo, cartão postal para Sarah contendo uma ária secreta até para ela (não lê, todavia canta, degraus abaixo como oitavas acima, sinfonias em X maior). Recitando e conjugando as leis, mescla num sorriso um último gole de café com vodka. Três estrelas. Cinco: vendido! Nenhum diamante. Os corações jogados no lixo, etiquetas roubadas e lenços de seda. Respiro Armani. Vomito Le Grand Vefour. Sem abusos entenda. O telegrama está perdido. Diga que não entendes e morres. Simples. Vivaldi toca ao fundo. Aqui, a xícara, os cubos, eu... as letras e a certeza doendo como punhal.
sábado, 2 de maio de 2009
ritrato
tenho face
rosto desfigurado por algum
bisturi de picasso
machando em tintas e vernizes
escuros e simplórios
mas rápido
e capturado
por revelação fotográfica
para além de luzes vermelhas
rosto desfigurado por algum
bisturi de picasso
machando em tintas e vernizes
escuros e simplórios
mas rápido
e capturado
por revelação fotográfica
para além de luzes vermelhas
tem momentos em que a crua sintaxe requer e detém em si mesma o nó, vulto de força, que nos prepara a forca, n'outros tempos, gira apenas como os elos de uma cadeia onde gemem alguns fantasmas e caveiras, de tudo entre maquiagem e tinta, pensa, pena.. retém. todos os dias as letras surgem como exercício, quebra-cabeças de impossível resolução, cujas peças são brancas e insistem em nunca formar um quadro maior e com alguma beleza. é apenas a solidão do jogo. jogo que se joga sozinho, para ninguém. como quem brinca de acender velas no escuro para queimar velhos retratos. a escritura nunca parece querer que se complete, assim, as palavras concatenadas sempre correm soltas. quando há filosofia falta beleza, quando simplório, um lirismo campônio é o que resta, quando nobre e resoluto, hermético, se sequer livre é texto prostituído. a escrita não perdoa, não tem moral, não tem ética. é crime violento. domina. requer. acorrenta. impossibilita a felicidade. um felicidade terceirizada em erros ortográficos que moem o estômago, em palavras sem sentindo, palavras supérfluas de dicionário. o poema é um diário demoníaco. acordos, convenções, desejos, insistência, beleza. tanto de gênio, tanto de musa, nada de eus. o sub e o sobre se escondem. comum é o jogo de pedir um café preto, um cigarro e olhar a noite. beber. beber. café é como rito desconhecido. essência que molha as palavras infundindo algum paladar, um aroma turco de mágica bizantina. palavras postas em mosaicos de perfil. as palavras se enrolam nos drinks. não perdoam. jamais perdoam. leis de cunho ditatorial. sem gramáticas. sem reiteirações. apenas dêixis de uma necessidade que ser quer marcar a todo custo a ferro, tinta, fogo, arquitetura. sem tradição. sem deuses. sem mito. a escrita dilui os mundos em máquinas de escrever que sabem tocar a música. a música daquele que escreve e executa a partidura suada de tecer em notas insonsas e insonoras o texto que apenas aparece, sempre aparece, como quem não quer mais do que se mostrar exibidinho, mas aparece, deixa-se ali... estar ali... sempra à espera, sempre feminino, para ninguém. silencioso e murmurante, seios fartos e vazios. faz tecnocracia de dois dedos, respira, resvala e deixa-se se apagar. nunca será lembrado mesmo.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
work in progress
o relógio bate o ponto
no ponto em que salto
engancha no ganho
de algumas notas
de aprovação
a passarelas das ruas
entre holofotes de negro
e lascivo pudor
em que as bochechas rosadas
de pó da signorina
-beladonna!-
se enviezam
e não barganham
o preço é o que é
sem juros
sem cartões
apenas desejo
serviço domestico:
cama, mesa e banho
o suor escapa
a sede oculta nas calças
e na fadiga
oculta da respiração
o poema revida
se vende
e se mata.
no ponto em que salto
engancha no ganho
de algumas notas
de aprovação
a passarelas das ruas
entre holofotes de negro
e lascivo pudor
em que as bochechas rosadas
de pó da signorina
-beladonna!-
se enviezam
e não barganham
o preço é o que é
sem juros
sem cartões
apenas desejo
serviço domestico:
cama, mesa e banho
o suor escapa
a sede oculta nas calças
e na fadiga
oculta da respiração
o poema revida
se vende
e se mata.
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